Navegando Posts em Música

O Músico Frente às Opções

François Servenière. Clique para ampliar.

 Ce que l’on te reproche, cultive-le, c’est  toi même.
Jean Cocteau

Amizades  independem do tempo que escoa. Podem permanecer uma existência inteira, têm a prova de fidelidade, mãe de todas virtudes. Se recentes, mas sob a égide da sinceridade, a concentração se dá, e será possível entendê-las como hors du temps. Não por outro motivo, entre os budistas relações são compreendidas como pertencentes a gerações que podem “levitar” durante séculos ou milênios. Ciclos da renovação.

O acaso levou-me a conhecer François Servenière, compositor, orquestrador e pensador de  méritos. Buscava ele no site musimem.com dados sobre o excelso pianista e professor Jean Doyen, mestre de sua professora de piano e meu também. Ao verificar a foto inserida em meu texto no site mencionado, teve a grata surpresa de ver a mesma imagem, só com outra dedicatória. Ao final da matéria havia o meu site, e assim Servenière me escreveu. Trocamos  e-mails durante bom período.

Quando meu dileto amigo Elson Otake sugeriu a inclusão no YouTube de algumas gravações por mim realizadas na Europa, certo dia recebi um imenso e-mail de François Servenière a considerar as interpretações, deslumbrado pela presença de compositores que desconhecia, como o conimbricense Carlos Seixas (1704-1742), Almeida Prado (1943-2010) e Ricardo Tacuchian (1939- ). Hoje já são 51 músicas no YouTube – som e imagem. Passamos a trocar longos e-mails sobre música, estética, criação, postura do artista frente à mídia e do compositor diante de escritas tortuosas. Penso num futuro publicar nossas reflexões.

Fixamos um encontro quando de minha ida a Paris em Janeiro, a fim de participar do júri de duas teses de doutoramento na Université Sorbonne. Num dia sem atividades acadêmicas, almoçamos e permanecemos à mesa em restaurante em Montparnasse das 12:30 às 18:00 !!! O compositor frente às múltiplas tendências, o intérprete diante do repertório, missão de ambos, mesmice ou renovação, estética, literatura, aventuras, corridas… Temas tratados com empatias. Não faltaram menções jubilosas à família, seus quatro filhos, minhas filhas e netas, nossas mulheres. Tempo para um conhecimento que se nos antolhava ancestral. Entreguei-lhe quase todos os meus CDs gravados na Europa, enviando-lhe mais tarde outros pelo correio. Servenière também me ofereceu CDs que gostei imenso e uma partitura singular, Tribulations d’un Écureil Lambda (coleção a conter sete peças para piano). Durante o almoço, solicitei ao amigo um comentário a respeito das gravações que se traduziria, esperava eu, em mais um e-mail. No final de nosso único encontro caminhamos pelo Boulevard Montparnasse, pegamos o metrô até Convention, e andamos a conversar pela rua do mesmo nome. Dia a não se esquecer.

Em posts anteriores (vide Ecos da Cirurgia da Mão – Rizartrose, 30/10/10 e Rue de Lévis,  20/11/10), abordava o pensamento e a criação musical de François Servenière (1961- ). Excelente compositor, orquestrador e editor musical, mas sobretudo músico sensível na acepção. Algumas de suas composições  podem ser apreendidas através de seu site inserido no menu de meu blog e bem evidenciam os caminhos por ele traçados. Escreve tanto música de concerto como para filmes, ballet e clips, assim como o gênero canção. Sua magnífica criação para dois  pianos, Rhytmics and Repetitives (24 peças para dois pianos), teve gravação em França pelo extraordinário pianista François-René Duchable e Hélène Berger e em Tokyo pelo duo Tetsu e Mazaki.  Mencionaria, entre tantas outras obras de Servenière: Apologie des Fragances (1ª Sinfonia), Énigme (ballet para piano, percussão e amostragens), La Belle et la Bête (Suite Sinfônica), Queue Diable (piano, percussões e orquestra sinfônica), Exercices de styles (25 peças para piano). Há várias criações de Servenière para filmes: Les Pirates de Noël (Suite Sinfônica), Gagliostro, Zigomar contre Nick Carter. Gabriel Yared, Oscar de música do filme O Paciente Inglês, assim escreveria sobre Servenière: “… uma música muito original, estruturada sobre um grande senso de arquitetura, de harmonia e de contraponto. Há muito tempo não ouvia obras que me fazem ter esperanças pela música”.  Após longas reflexões a considerar a composição, especialmente para piano, de escrita extremamente complexa e até de difícil entendimento para o público, chegaria à conclusão que deveria, sem se abster da alta qualidade, criar obras que penetrassem o coração dos homens. E um universo se lhe ofereceu, livre das amarras ditadas pelas tendências hodiernas.  Aberto a todos os gêneros, sua música é extraordinariamente bem escrita, a causar uma sensação penetrante. Foge das elucubrações – as tais obras de primeira e única apresentação. Para quem tem o privilégio de conhecê-lo, seu pensar é vasto e percorre numa conversação de Spinoza a Woody Allen, da Grécia Antiga à modernidade. Cultura enciclopédica, assimilada e reflexiva. Diria, bem o espírito francês clássico de clareza, elegância e criatividade. Uma de suas obras que me encanta é Seasons Vertigo, quádruplo  concerto para piano e orquestra, que pode ser ouvida na íntegra (12 peças) ou em segmentos.

Clique aqui para ouvir a Suite Seasons Vertigo de François Servenière.

Após o meu regresso à minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, mergulhei  nos meus estudos pianísticos, em meus escritos acadêmicos ou não, nas leituras e retornei às corridas, hoje fazendo parte de minha respiração. Um silêncio de um mês se fez, até que, repentinamente, recebo de François Servenière um dossier completo de todas as minhas gravações, analisadas em seus pormenores. Foi uma emoção muito grande, pois acredito inusitado tão grande debruçamento monolítico sobre a obra pianística de um intérprete. Esperava um e-mail a comentar o apanhado geral crítico, recebi 37 páginas ! Servenière, à maneira de tantos autores russos, analisa, mas se posiciona, e suas experiências pessoais no campo musical intercalam a audição de meus CDs. Ao ouvir La Boîte à Joujoux de Claude Debussy, como exemplo, estava a partilhar o espaço seu filho Tom de 14 meses que, como toda criança nessa idade, não pára. Pois, escreve ele, o miúdo ouviu a obra silenciosamente. Debussy teria atingido seu propósito !

Para um intérprete que há bem mais de vinte anos escreve que basicamente inexiste crítica musical competente  em nossa cidade, foi um grande impacto. Dos dois CDs de Estudos contemporâneos belgas e brasileiros, Servenière pormenoriza cada autor e suas técnicas. Despertam-lhe a atenção os ciclos de Estudos para piano belgas e brasileiros contidos em dois CDs.  De Henrique Oswald, tem a mais reveladora impressão positiva, pois o desconhecia e o coloca entre os mais importantes  compositores do período. “Mas há mais, pois Henrique Oswald surge certamente nesse novo mundo do hemisfério austral  com uma obra a ser colocada na categoria dos pilares da música”, escreve Servenière. E páginas são dedicadas aos três CDs que gravamos para piano solo, violino e piano e câmara e piano em terras flamengas. Mais um reconhecimento pleno, agora em França, à qualidade de Henrique Oswald, após a recepção que se prolonga durante anos na Bélgica. Sobre os quatro CDs de música portuguesa, sofre um choque causado pela qualidade das composições. E só de pensar que os intérpretes de Portugal mais ventilados no Exterior ignoram quase que completamente a criação em terras lusíadas, a constituir tal fato algo muito estranho, para menos dizer.

É, pois, com imenso gosto que inseri no item Essays de meu site www.joseeduardomartins.com o dossier crítico integral de François Servenière. Trata-se de um privilégio a recepção que o notável músico francês concedeu aos meus tantos CDs gravados na Bulgária, Portugal e, preferencialmente, na mágica capela de Sint-Hilarius em Mullem, na planura da Bélgica Flamenga, para o selo De Rode Pomp e sempre sob os cuidados técnicos de um dos maiores engenheiros de som do planeta, Johan Kennivé. Contudo, a fim de facilitar o acesso imediato, insiro neste espaço o link da monografia crítica de François Servenière.

Clique para ler o dossier crítico das gravações de J.E.M., escrito por François Servenière.

The French composer François Servenière and I met by chance on-line and our friendship began via e-mails. Last January in Paris we met face-to-face for the first time and spent an afternoon talking about everything. He is a diversely talented person and has a multiplicity of interests. On the occasion we exchanged our CDs and I mentioned I would like to know his opinion about my recordings. I was expecting a few lines by e-mail but some weeks later, already in Brazil, I was surprised to receive a 37-page dossier dissecting each piece of the 19 CDs! Classical music criticism may be in decline, but not for him. Two links in my blog point to his review of my performances (in French) and also to Servenière’s work Seasons Vertigo, a quadruple concerto for piano and orchestra that delights me.

 Clique para ampliar.

O Interesse dos Leitores

Eu tenho que confessar meu espanto, por vêzes consternação,
face a atitude de certos públicos “especializados” nos santuários
daquilo que nesciamente nomeou-se arte contemporânea.
Por que não falarmos de masoquismo ?
De outra maneira, eu não explicaria essa espécie de empenho
em aceitar a chatice de se ouvir sempre os mesmos disparates técnicos
destinados a “preparar os ouvidos”,
depois esse tipo de  servidão que leva, após o concerto,
expressões fabricadas (“interessante ! divertido ! muito forte !…”),
somente destinadas a mascarar a decepção.
Por que tanta gentileza e amabilidade
quando acabamos de ouvir verdadeiros horrores ?
O que poderia justificar, entre os melômanos sinceros,
a aceitação de tais sofrimentos, a absorção de poções também amargas ?
Serge Nigg

Tantas são as impressões que um livro pode nos causar. A leitura pressupõe interesse, e quão mais uma obra nos diz algo, mais referências ficam gravadas. Livro bom não é esquecido, nem na memória, tampouco na estante.  Acalentado, pode esclarecer-nos,  abrir novos rumos, fazer com que mudemos, inclusive, determinados conceitos.
Resolvi escrever um blog sobre o livro “Serge Nigg, compositeur” porque constatei que, através daquelas páginas que não atingiam a centena, havia conceitos de extraordinária força, pensados por um músico que no final da vida estava a planar sobre o infindável campo do conhecimento. A recepção às ideias de Serge Nigg foi imensa. Leitores – músicos, amadores e leigos -  pronunciaram-se, inclusive um arquiteto, a apreciar trecho de sua área de atuação. Selecionei alguns comentários mercê do espaço proposto para o blog.

Dois compositores brasileiros da maior dimensão escreveram a opinar. Ricardo Tacuchian observa: “Não conheço a obra de Serge Nigg e fiquei impressionado com as ideias dele que você resumiu de modo primoroso. Vou procurar conhecer mais a obra e o pensamento deste homem que, tão solitariamente, desmistifica o mundo ‘populista e oficial’ das artes. Me identifiquei com quase tudo que você cita em seu post. Mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho semanal e obrigado por esta valiosa informação  sobre uma figura tão eminente e com um pensamento tão próximo ao meu”. Mario Ficarelli comenta: “Que prazer foi para mim ler o depoimento de Serge Nigg. Foi como estar lendo algum depoimento meu de agora ou no futuro. Compartilho plenamente todo o seu pensamento a respeito da composição”.

De Portugal, a competente professora e gregorianista Idalete Giga considera: “Gostei demais do seu post sobre o compositor Serge Nigg, que eu desconhecia. As respostas a Gérard Dénizeau revelam-nos um compositor profundo, que está já  muito para além do barulho do mundo. São uma verdadeira lição de sabedoria, de coragem, de despojamento. É curioso que, quando fala de modismos, do dodecafonismo, do ‘progresso em arte’, da música electroacústica, dos compositores snobs, da obra aberta, etc. entra em cheio no meu pensamento. Estou em plena sintonia com ele. ‘Captar o passado, Apreender o presente, Pressentir o futuro’  é o essencial para a criação de uma obra de arte, que não deve estar sujeita a ‘modismos’. De facto, são raros, muito raros os compositores que conseguem sintetizar o passado, criar  a partir dele no presente e projectar-se no futuro. Isto sempre senti, por ex., no nosso genial J.S. Bach.”

O compositor e orquestrador francês de reais méritos, François Servenière, tece comentários: “Li e reli seu post consagrado a Serge Nigg. Conhecia, não pessoalmente, o professor compositor do Conservatório de Paris, mas foi ele mestre de inúmeros amigos meus compositores, entre eles Josef Baán, eslovaco. Concordo com muitas de suas conclusões, assim como com sua lucidez em relação ao dodecafonismo através das impressões anteriores de Schöenberg… e sobre muitos outros temas abordados”.

O arquiteto Marcos Leite atém-se à sua área e discorda da comparação feita por Serge Nigg a respeito da comparação arquitetura-música: “A solidez é só parte e consequência da concepção do projeto. A criação é resultado de uma bagagem obrigatória do Arquiteto que sabe que seu projeto tem solução estrutural exequível e, muitas vezes, já o apresenta ao engenheiro calculista. A estética aceitável é bom uso da técnica disponível aplicada à nova proposta de desenho e atendendo à funcionalidade do uso “.

K. Vertessem, da Holanda,  enviou e-mail via site: “Serge Nigg é para mim referência. Colegas meus estudaram com ele e entendiam o seu pensamento enciclopédico, mas coerente quanto à sua linha adotada, do dodecafonismo às obras menos herméticas.  Interessa-me muito essa publicação da Université Sorbonne. Vou providenciar”.

Curiosamente, os três primeiros, competentes músicos, sentem a identificação plena, dizendo que poderiam até ser os autores de determinadas posições adotadas por Serge Nigg. Sobre a música eletroacústica, Serge Nigg mostra-se absolutamente refratário. Recordo-me de ter assistido pela televisão em Paris, na década de 1990, mesa redonda em que dirigentes de gravadoras e jornalistas discutiam sobre a indústria fonográfica. À música erudita ou de concerto estava reservada uma fatia irrisória quanto à vendagem – comparada com a música popular – e dessa fatia a música eletroacústica representava parcela ínfima… da música erudita ! Seria possível pressupor que o contato humano, geralmente inexistente, esteja a apontar as causas, mesmo que Festivais tenham público aficionado. Seria essa ausência “humana”, no complexo elo criação e interpretação, que motivaria Nigg a refletir sobre a matéria. Diferentemente da gravação, onde o pulsar e até a respiração do intérprete podem ser ouvidos, a música eletroacústica apontaria para outro direcionamento. Mesmo quando há interação nessa intermediação eletroacústica e intérprete, haveria sempre uma metamorfose, não dos segmentos eletroacústicos registrados, mas do próprio ato instantâneo do executante. É algo para outras reflexões, apesar de, paradoxalmente, projetos relacionados à eletroacústica serem os que estão a  receber polpudas verbas de institutos de fomento. Acrescentaria, tendências não inteiramente compreendidas pelos fomentadores e minimamente aceitas pelo público de concertos. Voltemos ao blog sobre Serge Nigg que despertou tanto interesse: modismos ?

Importa considerar que os testemunhos de Sérgio Nigg despertaram um tão grande interesse. Prova inconteste de seu pensamento incisivo.

Readers of my post on Serge Nigg  – among them many professional musicians –  wrote to me giving their views on Nigg’s words. The post of this week is a selection of some messages I received.

“Captar o Passado, Apreender o Presente, Pressentir o Futuro”

 Clique para ampliar.

Para mim, a criação musical não exige somente talento,
mas também, e antes de tudo, caráter, personalidade,
a certeza de que temos um caminho a seguir,
mesmo que modesto,
e que nada conseguirá nos tirar do caminho.

Serge Nigg

Quer-me parecer que um compositor deve ser,
antes de mais, um homem de cultura
que saiba traçar grandes linhas de força sobre o tempo.

Eurico Carrapatoso

Serge Nigg é compositor francês de grande mérito. Após estudos com Olivier Messiaen, conheceu René Leibowitz, que o introduziu na técnica do dodecafonismo serial logo após a Segunda Grande Guerra. Em 1946 escreve obra primordial, Variações para Piano e 10 Instrumentos, na qual teria pela primeira vez em França utilizado a técnica dodecafônica. A partir de 1950 se distancia da técnica serial, que seria, entretanto, tendência entre os jovens compositores. A partir dos anos 60, a utilização do dodecafonismo em Nigg estaria conjugado com a busca da beleza sonora, da estrutura impecável e da não concessão. Autor de composições reverenciadas e abordando vários gêneros, interpretado por músicos de primeira grandeza, foi professor respeitado no Conservatório Nacional. Prêmios e condecorações, assim como funções essenciais em instituições relevantes da cultura e das artes em França, marcaram a existência de Serge Nigg.
Em depoimentos que se prolongaram durante mais de dez anos (1998-2008), até os estertores da existência, Serge Nigg respondeu a inúmeras perguntas formuladas por Gérard Denizeau (Serge Nigg, compositeur – capter le passé, apprénder le présent, pressentir le futur. Entretiens avec Gérard Denizeau. Paris, Université Paris-Sorbonne, Observatoire Musical Français, Série “Temoignages”, nº 3, 2010). A fazer parte da Collection Observatoire Musical Français, dirigido pela ilustre professora Danièle Pistone, o testemunho de Serge Nigg tem real valor, pois, através de um profícuo diálogo, o compositor revela qualidades inerentes do pensador e temáticas perpassam os depoimentos envolvendo aspectos musicais, humanísticos e da arte como um todo.
Aderiu com fervor à escritura serial dodecafônica. Exemplefiquemos para os leitores não músicos: foi a partir dos anos 20 que o atonalismo – liberdade frente à tradição tonal – se expandiu e avançou pelos países ocidentais. Um novo léxico musical ganhava força. Num breve resumo: existem doze sons na escala temperada ocidental. Tendo o piano como exemplo fácil de entendimento, encontramos sete notas brancas e cinco pretas. Schöenberg e seus discípulos partiram para o emprego de uma série de doze sons sem que houvesse a repetição de qualquer um deles na organização proposta. Dispostos pois sequencialmente, formavam o alicerce de uma obra em sua essência. Nigg, na sua juventude, entusiasma-se com essa soma de mais cinco notas suplementares às sete da escala tonal. Como um dos exemplos dessa cartilha que obedecera, a recusa da repetição exata, como praticaram compositores barrocos e clássicos. Considera: “ignorava na época que a ‘repetição’ carregava a ornamentação”, princípio tão praticado nos períodos citados. Observa: “Schöenberg no fim da vida, compreenderia o caráter desumano de seu método”. Teria consciência mais tarde dos excessos produzidos pelo fanatismo a que tinha chegado, fazendo a crítica tardia a essa exacerbação que se apoderou de toda uma geração naqueles anos pós guerra, a entender como infortunado o músico que não aderisse às novas tendências.
Contrário a concessões e desconfiado de sucessos imediatos, Serge Nigg entende que há tênue fronteira, por vezes, entre obra prima e outra, medíocre. Ter ouvido obras de compositores que tiveram aceitação em suas épocas e muito bem escritas e, sob outro contexto, criações consagradas, mas desprovidas de originalidade, leva-o a pensar na diferença fundamental entre a arquitetura e a música. Naquela, a solidez é premissa, mesmo que esteticamente o edifício se apresente como um fracasso. Na música “grandes sucessos musicais poderão não satisfazer aos teóricos, da mesma maneira que uma disposição harmônica agradável aos olhos pode soar apenas aceitável. Em contrapartida, partituras impecáveis do ponto de vista escritural e das técnicas de composição podem muito bem atingir um miserável resultado sonoro”.
Por meio de metáfora, compara o ex-aluno que não consegue libertar-se do aprendizado à criança que, ao começar a ensaiar os primeiros passos, titubeia. Contudo, ao tornar-se maior, andará normalmente, ao contrário do eterno aluno. Defende a liberdade de expressão, mas observa: “o artista sabe, melhor do que ninguém, a que ponto o livre arbítrio é conquista perigosa; para apreciar a liberdade plenamente, deve ele ganhar uma certa serenidade, condição de sua realização como criador, na plena acepção do termo”. Conscientemente questiona o criador: “O que é o verdadeiro artista criador, a não ser aquele que conjuga o controle do instinto, a evidência do estilo, a recusa de soluções fáceis e, sobretudo, a originalidade do emprego de meios – mais que os meios em si – com uma afetividade profunda ? Mas sem a técnica, e se apenas subsiste a afetividade, a obra não existe”.
É cáustico ao abordar modismos. Entende perigosa a posição de tantos compositores e intérpretes que se preocupam com o que está vigente, numa alusão não apenas a procedimentos como à possibilidade material. Afirma: “Nenhum compositor poderá afirmar que sua música sobreviverá; mas, um método seguro para escapar da posteridade é seguir os ukases da moda. Ela passará seguramente, a música nesses termos também, enquanto, em outro contexto, a música pensada fora dos modismos conserva uma chance de se increver na história”. Torna-se um axioma para Nigg frase atribuída a Arnold Schöenberg e de “admirável consistência moral”, que poderia ser aplicada a todos os artistas criadores: “há meios degradantes de emocionar”. Serge Nigg combateria durante décadas aquilo que ele considerava a febril busca da reputação, a necessidade feérica de tantos, através da mídia, de agradar sob qualquer pretexto, contrapondo-se à reflexão: “apreciam-se melhor os raros oásis do gosto e da beleza que pagariam todo o resto”. Em outro contexto, comenta que novas gerações adoram julgar obras a partir da dificuldade que ela possa apresentar. Os depoimentos colhidos anos antes da morte encontram Nigg num espírito de síntese, a considerar a criação pelo essencial, independente da acolhida pública hostil ou favorável. Detém-se sobre a única questão que merece resposta: a obra traz alguma coisa para a música, para sua história, para a sua estética” ?
Sabemos que a música eletro-acústica é bem ventilada pela mídia. Apesar disso, merece por parte do público guarida bem discreta, se comparada à grande acolhida do repertório instrumental. Seria possível pressupor que o contato humano direto, geralmente inexistente, esteja a apontar as causas, mesmo que Festivais tenham público aficionado. Nigg observa “De minha parte, fui sempre totalmente alérgico à música eletro-acústica. Por temperamento, eu não a suporto: esse material é algo que me é perfeitamente estranho. Para mim, os sons eletro-acústicos são sons mortos, enquanto que nada me parece mais belo que o som do violoncelo, de um oboé ou de um violino. Por quê ? Pelo fato de serem sons fabricados pelo homem, produzidos por sua ação, e que ele pode modificar à vontade. Eis o que é um som vivo ! Sempre fui partidário da música instrumental pura, por gosto e temperamento. Acrescento que acredito extremamente grave que alguns possam imaginar que a música do futuro seja música de engenheiros com jalecos brancos, manipulando botões. A ideia da máquina intrusa e da ciência puramente especulativa na música, expressão a mais profunda do gênio humano, é uma noção que me aterroriza”.
Serge Nigg vê com cautela a proliferação de compositores, a acreditar que muitos jovens, ao sairem dos bancos escolares, já se consideram criadores. Para ele, todo grande compositor é um grande técnico, conhecedor profundo do métier. Saberá esquecer receitas adquiridas no aprendizado e terá sua linguagem, após consciente assimilação. O grande é, simplesmente. Considera que, se no passado conhecia músicos de todas as áreas, atualmente não existem senão “… compositores ! Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas” ! Cita Schöenberg, que afirmaria que, dos mais de mil alunos que teve durante cinquenta anos de ensino, dez teriam feito carreira. Destes, segundo Nigg, permaneceram Webern, Berg, Eisler, Zillig, Robert Gerhard e Skalkottas. Se considerarmos que apenas os dois primeiros podem figurar no firmamento dos ‘grandes compositores’, tem-se algo para reflexões”. E dessa quantidade abusiva de compositores hoje, conclui: “Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, ’80 criações mundiais’, tem-se frio na espinha”.
Serge Nigg tece instigante observação nessa ampla visão que a idade proporcionaria: “É necessário compreender que o compositor, ao atingir o crepúsculo, é um homem que consagrou quase todas as forças para construir um mundo abstrato, um universo sonoro que corresponde fielmente àquilo que ele pretendeu. Asseverou-se de estabelecer leis e respeitá-las, jamais cessando de observar que os frutos de seu trabalho o levaram a múltiplas interrogações. Combateu todas as tentações da fantasia que podem permitir derivações, mas sempre a ter em conta a impalpável palavra nomeada inspiração… e que nem sempre está disponível ! Seu caminho é de uma lógica inevitável, mas a que preço, a não ser o da solidão” ?
Após tecer admiração pelos intérpretes profissionais – “escuta segura, instinto musical, senso dos andamentos, infalibilidade rítmica, etc.”- Nigg comenta determinado tipo de compositor “É muito desagradável verificar homens desprovidos da mais elementar bagagem musical imporem a grandes executantes diretivas que eles não dominam sob qualquer hipótese”. Pormenoriza-se nesse caminho complexo, no qual experiências até bufas são aceitas, considerando-as como falsificação. Agrada aos snobs inconsequentes e à crítica incompetente”. É severo e convicto quando julga “Não sou contra certa forma de provocação, não me desagrada essa mexida nos hábitos do público habitual, mas não admitirei jamais que o gesto sagrado da criação artística seja ridicularizado, mormente quando a grosseira mistificação tem como única função dissimular a vacuidade do saltimbanco de plantão”.
A respeito da obra aberta é categórico. Sem condená-la, pois não se mostra ditatorial, acredita que obra esboçada, a ser completada pelo intérprete, não pode receber o status de obra, entendendo-se a sua compreensão desde o Renascimento. Desenvolve raciocínio lógico ao observar: “Que seria de um romance a ser completado pelo leitor, da estátua na qual tenhamos a liberdade de suprimir ou acrescentar um membro ? A grandeza de uma obra reside na aposta, que faz supor o acabamento”.
Sobre a tão decantada desacralização, Nigg diz que a palavra o irrita. “Desacralizar o quê ? A Arte, o artista ? A obra ou seu autor ? Na verdade, trata-se, de certa maneira, de tentativa de certos funcionários da ‘Cultura’ justificarem suas existências, suas atividades… eventualmente seus salários” ! Mostra-se implacável ao dizer que “acreditar que basta um pequeno toque de varinha mágica para esvaziar milênios de tradição, isso se chama utopia”.
A uma pergunta provocativa de Gérard Denizeau, responde a questionar “O que é na realidade progresso em arte ? Outra coisa concernente ao passado, bem entendido; mas podemos falar de um progresso em forma de qualidade ? Podemos fazer algo melhor do que o canto gregoriano, do que a Catedral de Chartres ou da Missa em si, ou mesmo Don Giovanni… ? Que haja obrigação de renovar-se o material, os meios técnicos; porém, os princípios de elaboração de uma obra, a história nos ensinou”. Seu pensamento se estende à necessidade de redefinição inclusive da finalidade da arte e, nesse raciocínio, seu vocabulário e sua sintaxe. Nesse permanente fluxo, que pressupõe movimento e evolução, Nigg questiona se é possível fazer-se melhor, sobretudo se forem pensados períodos históricos difíceis.
As posições precisas, onde não há espaço para o tergiversar, tiveram exemplo claro na sua postura quando participou de júris: “Não é fácil quando se é compositor, mas o essencial é não se referir ao seu próprio gosto, à sua própria estética. Haveria nesses casos um intolerável abuso de poder; pois, no desenrolar de sua carreira, o artista já terá de suportar a ditadura do gosto, do dinheiro, do comércio, da política, etc. Melhor não o intimidar já nos primeiros passos”.
Os depoimentos de Serge Nigg bem evidenciam o artista em sua avaliação autocrítica nos anos finais da existência. Compositor e pensador mostram-se amalgamados e a concessão ficaria rigorosamente soterrada. Ao dizer, no curso do longo depoimento de uma década, que “a abnegação é necessária, como a paciência, a perseverança, a coragem a toda prova, uma certa capacidade de suportar o isolamento físico e a solidão moral”, já não demonstraria qualidades inalienáveis que o tornaram um dos grandes músicos franceses do século XX ? Pouco a pouco, Serge Nigg compositor ressurge. É bom sinal.