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Panorama-Criação-Interpretação-Esperanças

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo.
Infalível e insubornável.
Guerra Junqueiro

Já muito se escreveu sobre a analogia do lançamento de um livro e a paternidade. Há sempre proximidades que podem ser estabelecidas. O tempo de gestação de uma obra não obedece a prazos determinados. As fronteiras se estabelecem entre meses ou incontáveis anos, a depender de tantos fatores.

Foi com prazer imenso que recebi do Professor Doutor João Gouveia Monteiro, ilustre medievalista e então Presidente da Imprensa da Universidade de Coimbra, o convite para apresentar material para um livro unicamente sobre música portuguesa, que seria submetido à Comissão Especializada. Lembro ao leitor que nestes últimos anos tenho-me apresentado regularmente como pianista em recitais promovidos pela lendária Universidade.

A reunião de artigos publicados em Portugal, França e Brasil, que se estendem de 1992 ao presente, causou-me estímulo especial. Não apenas compositores como Carlos Seixas (1704-1742), Francisco de Lacerda (1869-1934), Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Jorge Peixinho (1940-1994), que tiveram obras por mim gravadas em seis CDs distribuídos na Bélgica, Estados Unidos e Portugal, mas também outros, a que me dediquei amorosamente, resultaram na interpretação pianística. Sob aspecto outro, busquei penetrar no universo misterioso da criação e do pensar musical em Portugal e nesse desiderato o discurso literário foi imperativo. O convívio, por cerca de 55 anos, com a música e músicos portugueses, motivou outros artigos, que foram sendo depositados ao longo dos anos em revistas, arbitradas ou não, e em livros. Igualmente foram anexados posts específicos sobre a Música Portuguesa, publicados em meu blog desde 2007.  Aprovados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, o livro nascerá neste 3 de Novembro, seguido de recital de piano em que interpretarei obras de Francisco de Lacerda e homenagens a ele prestadas pelos excelentes compositores François Servenière, da França, e Eurico Carrapatoso, das terras lusíadas. Lançamento e recital deverão se processar na sala do belo Museu Machado de Castro em Coimbra, sob a égide da Universidade que foi criada por D. Diniz em 1290.

Reunidos os  artigos, tenho o imenso gosto de ver a precedê-los o prefácio do notável musicólogo Mário Vieira de Carvalho, professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa. Entre outros temas, aponta o ilustre pensador para o desconhecimento mútuo da criação musical não popular dos povos irmãos.

A Jangada de Pedra

“José Eduardo Martins é um artista de raro perfil, tanto mais quando o consideramos no contexto da tradição luso-brasileira. Uma tradição que se fragmentou e se perdeu desde que os dois países seguiram o seu próprio rumo há perto de dois séculos. Decerto, tem havido contactos, algum intercâmbio, alguma cooperação, mas nada que faça de Portugal ou do Brasil algo de quantitativa ou qualitativamente diferente do que eles são nas suas respectivas relações de parceria com países terceiros. No campo da música, se excluirmos a música  popular, podemos dizer que nenhum dos países conta com o outro. Com que frequência vêm compositores, intérpretes, orquestras e outros agrupamentos musicais brasileiros apresentar-se em Portugal na Casa da Música, no Centro Cultural de Belém, na Fundação Calouste Gulbenkian, enfim, em vários outros espaços de concertos? Olhamos para sucessivas temporadas, ao longo de anos, de décadas, e é como se o Brasil não existisse. É como se não existissem lá compositores, solistas dos mais variados instrumentos, orquestras, grupos de câmara, nada de interesse para o público português. As agências internacionais de concertos apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical, onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do ‘centro’. E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus ‘programadores’ que Brasil e Portugal, juntos, bem podiam criar uma nova dinâmica de efectivo intercâmbio que se projectasse não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele. O mesmo se passa do outro lado do Atlântico, onde o repertório e a programação revelam notório desinteresse por compositores e intérpretes portugueses.

É neste contexto que a singularidade de José Eduardo Martins se agiganta. Ao longo de mais de cinquenta anos, não se limitou a manter e expandir contactos, a promover o intercâmbio, como já o tinham feito Lopes-Graça, Peixinho ou, por exemplo, Gilberto Mendes. Foi muito mais além. Dedicou-se de uma forma continuada à investigação da música portuguesa. Estudou-a sistematicamente como musicólogo, mas sobretudo como intérprete altamente consciente dos problemas da sua arte. Estudou-a para se deixar surpreender por ela e para nos surpreender com ela, abrindo novas perspectivas através das suas interpretações. Fez da sua relação com a música portuguesa um projecto autónomo, central na sua trajectória artística: desde o momento da análise e da pesquisa de fontes primárias (reconstrução das obras) até à preparação de registos gravados em condições de realização técnica exemplares. Carlos Seixas, Francisco de Lacerda, Fernando Lopes-Graça, Jorge Peixinho são os nomes de compositores portugueses que José Eduardo Martins mais tem interpretado nos seus recitais e em registos gravados, que se impõem pela sua extraordinária consistência. As suas interpretações valem como paradigma da síntese entre o rigor da pesquisa, a profundidade da análise dos elementos expressivos e construtivos, o conhecimento crítico da escrita e da técnica pianísticas e, por fim, uma genuína entrega ou, se quisermos, apropriação afectiva das obras. Não é por uma qualquer conveniência postiça que José Eduardo Martins se interessa pela música e pelos compositores portugueses. É por uma sincera e sentida motivação. Se não bastasse, por si só, o envolvimento  – o impulso mimético  – que emana das suas interpretações, então os seus ensaios teóricos, conferências e escritos reunidos neste livro aí estariam para testemunhar também esse seu entusiasmo.

São textos penetrantes que mostram uma familiaridade de muitos anos com a música portuguesa, um diálogo permanente com o material, um incessante processo de redescoberta dos compositores e das suas obras. Não é fácil enumerar intérpretes portugueses que tanto tenham investido na música portuguesa e que tanto tenham trabalhado sobre ela ao nível a que José Eduardo Martins a aborda. Poucos ousam escapar ao ‘cânone’ hegemónico nas salas de concertos ou na produção fonográfica internacionais: como se o intérprete precisasse do prestígio do cânone para se sentir ele próprio prestigiado enquanto intérprete, e a música portuguesa fosse um sacrifício, um ónus, que não valesse a pena.

José Eduardo Martins não sofre de tal complexo. Pelo contrário: confessa quanto se sentiria frustrado se tivesse de cingir-se àquele núcleo restrito de obras-primas clássico-românticas em que muitos dos mais célebres pianistas insistem invariavelmente. Renovar o repertório é vital para ele, e a música portuguesa tem alimentado essa paixão pelo constante alargamento dos seus horizontes de intérprete.

Mas, se já é difícil encontrar em Portugal intérpretes que tanto se empenhem assim na música portuguesa, que dizer então quando se trata de música brasileira? Com a sua acção ao longo de mais de meio século José Eduardo Martins criou uma enorme dívida dos artistas portugueses para com o legado da música brasileira. Quem pode ser nomeado, de entre os artistas portugueses, que se tenha interessado assim por compositores brasileiros, que os tenha estudado, interpretado, gravado apaixonadamente, que os mantenha no seu repertório, que os divulgue internacionalmente? Não há um único que o tenha feito com intensidade comparável. Do lado de Portugal, ainda ninguém retribuiu verdadeiramente esse gesto fraterno de diálogo com a cultura musical do país irmão, essa paixão por compreender, fazer nossa, divulgar uma literatura musical – neste caso, pianística  – tão rica e tão diversa, tão abundante em fortes e marcantes personalidades, como Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Villa Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe, Cláudio Santoro, Gilberto Mendes, Ricardo Tacuchian, entre vários outros…

Eis o desafio que José Eduardo Martins lança aos artistas e às instituições de ambos os países: deixarem de estar mutuamente de costas voltadas e lançarem pontes de interacção recíproca. Pensarem Brasil e Portugal como uma imensa rede de possibilidades de formação, investigação e intercâmbio artísticos. Pensarem-se também como parte integrante do mundo lusófono e ibero-americano, que  continua a esperar em vão pelo ‘evento’ que tarda (‘evento’ entendido como estratégia ou atitude essencialmente cultural). Há que soltar a ‘jangada de pedra’ das amarras da sua condição periférica e trazê-la de volta carregada de potencial contra-hegemónico”.

Para o pianista que, desde a juventude, nunca deixou de utilizar a pena, é motivo de grande alegria a publicação do presente livro (Impressões sobre a Música Portuguesa. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011, 265 págs.), não apenas pela tradição dessa extraordinária Instituição de Ensino, mas também pela razão de ver reunidos mais de 50 anos de reflexão sobre a Música e Músicos Portugueses que, hélas, tantos insistem em ignorar, sistematicamente. Tenhamos esperanças.

Notes on my book about Portuguese classical music, that will be released next 3 November by the Coimbra University Press.

 

 

 

Portugal e sua Música de Concerto

Les chiens aboient et hurlent à la lune,
sans qu’on puisse en supposer la cause…
Brehm, vol I, p. 349

Viens ici! Tais toi! Que vois tu?
Des ombres? Chopin? Debussy?
Viens ici. Tais-toi. Ce sont des Amis à nous.

Francisco de Lacerda (Epígrafes para a 14ª das 36 Histoires… Mon Chien et la Lune)

O repertório para a tournée programada para este fim de ano em terras lusíadas teve determinantes precisas. A cirurgia do polegar da mão direita (Rizartrose) em Junho deste ano mereceu recuperação cautelosa. A conselho do Dr. Heitor Ulson, notável cirurgião da mão,  fiz-me obediente, a evitar repertório de impacto para os seis meses subsequentes à operação. Confesso que a melhora foi admirável, assim como aquela a suceder a cirurgia do polegar da mão esquerda no ano de 2010.

Há muito tempo não apresentava em público a magistral obra de Francisco de Lacerda (1869-1934), Trente-six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste, uma das mais absolutas criações destinada ao universo lúdico. Gravei-as em 1999 para o selo belga De Rode Pomp, juntamente com obras precisas de Claude Debussy. Os dois foram amigos. Quando Lacerda obteve o primeiro prêmio em concurso patrocinado pela Revue Musicale de Paris, em 1904, Claude Debussy presidia o certame. Danse Sacrée – Danse du Voile foi a obra agraciada. Debussy entusiasmou-se pela composição premiada e teria solicitado a Lacerda a utilização de um de seus temas, assim como o título Sacrée, para a primeira de suas duas Danças bem conhecidas, Danse Sacrée – Danse Profane, compostas para harpa cromática ou piano e conjunto de cordas, no mesmo ano da premiação da composição do colega açoriano. A seguir, o amigo e editor de Debussy, Jacques Durand, faria a transcrição da criação debussiniana para piano solo, com a anuência do compositor. Segundo o eminente musicólogo e saudoso amigo François Lesure, Manuel de Falla teria apresentado essa transcrição em Madrid no ano de 1907. Nessa tournée estarei a apresentar não apenas as 36 Histoires… de Lacerda, como sua Danse Sacrée-Danse du Voile, assim como as duas Danças de Debussy.

Deve-se a J.M. Bettencourt da Câmara a redescoberta de pequenas peças de Francisco de Lacerda, que estavam depositadas no Museu de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores. Essas miniaturas deveriam integrar trinta e seis trechos idealizados pelo compositor. Bettencourt da Câmara reagrupou-os e, em 1986, a Fundação Calouste Gulbenkian publicaria a coletânea na coleção Portugalea Musica. Em 1997 seriam republicadas pelo Governo Regional dos Açores (Colecção “Fontes Musicais Açorianas”, vol. II, 1997),  no âmbito da integral para piano.

Se em 1904 Debussy presta homenagem ao talento de Lacerda, durante a longa elaboração das Trente-Six Histoires… (1902-1922) o músico açoriano não deixaria de pensar em seu ilustre colega. Inúmeras peças demonstrariam essa confessa admiração. No dossier de Francisco de Lacerda depositado no Museu de Angra do Heroísmo constatei que o compositor nascido na Ilha de São Jorge fez inúmeras anotações em duas obras impressas de Debussy e pertencentes ao universo lúdico: Children’s Corner e La Boîte à Joujoux. Sob outra égide, o fato de Lacerda ter-se dedicado à regência, tendo sido um dos mais ilustres chefes de orquestra de seu tempo, dava-lhe pouco tempo para a dedicação plena à composição. Seria ainda Debussy que mencionaria em carta o talento que estava represado mercê da regência.

Francisco de Lacerda é o compositor das pequenas peças. Tanto as Trovas para canto e piano, como as outras obras para piano, assim como a pequena produção orquestral têm a excelsa qualidade do multum in minimo, pois é extraordinária a capacidade de síntese de Lacerda, que em poucos compassos estabelece seu paradigma para a forma. Considero a coletânea uma das mais perfeitas criações escritas para o universo lúdico infantil. O acabamento esmerado, a tendência à de-dinamização, a qualidade timbrística e o prazer do despojamento quando, ao suprimir notas de um acorde, Lacerda deixa apenas uma, a buscar a extinção, são atributos inerentes desse grande músico. A apresentação das Trente-Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste terá data show preparado pelo ilustre professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso. Seis desenhos de Luca Vitali, bem conhecido de nossos leitores pelas sensíveis ilustrações de tantos posts, integram a apresentação visual de Pedrosa Cardoso. Essa ideia só foi possível mercê da presença, em muitas peças, de um conteúdo programático, com frases especiais configurando situações. Frise-se que todas as pequenas histórias contemplam a fauna. Aves, mamíferos, anfíbios povoam a coleção. Inexiste a ferocidade, mas a descontração, o humor, a tragédia e a contemplação penetram as “mentes” dos simpáticos personagens. Apenas um é  humano, Anaclèto, le simple.

Fixada a obra mestra para a programação em Portugal, dois notáveis compositores vieram prestar homenagem a Francisco de Lacerda. De França chegou-nos, de François Servenière, Trois Musiques pour endormir les enfants d’un compositeur e, de Portugal, da pena de Eurico Carrapatoso, Six Histoires d’enfants pour amuser un artiste, a partir de poemas de Violeta Figueiredo. As duas séries estarão a ser apresentadas em primeira audição. Sinto-me profundamente  honrado em poder contar com a presença dos dois compositores no primeiro recital da digressão. De Portugal deverei escrever a respeito da recepção pública e crítica dessas criações tão especiais.

A tournée começará por Coimbra. A preceder o recital haverá o lançamento de meu livro pela Imprensa da Universidade de Coimbra, Impressões sobre a Música Portuguesa. Sobre essa obra escreverei no próximo post.

Clique para ouvir, de Francisco de Lacerda, 3 Histoires…, com José Eduardo Martins ao piano.

In November I’m going on a concert tour in Portugal, beginning with Coimbra. The recitals will present works by Francisco de Lacerda, François Servenière and Eurico Carrapatoso. Preceding the recital in Coimbra, my book “Impressões sobre a Música Portuguesa” (A View of the Portuguese Music) will be released by the University of Coimbra.

O que a Imprensa não Revela

Celui-là habitera mieux qui, faute d’eau, séche dans le désert,
en rêvant d’un puits qu’il connaît,
dont il entend dans son délire grincer la poulie et craquer la corde,
que celui-là qui, de ne point ressentir la soif,
ignore simplement qu’il est des puits tendres, vers où conduisent les étoiles.
Antoine de Saint-Exupéry  (Citadelle CLXXXVII)

Não poucas vezes mencionei minhas posições como professor universitário. Apesar de lecionar piano, jamais pensei na formação de um pianista que não tivesse em conditio sine qua non uma visão musical mais ampla e também uma sólida cultura humanística, únicas salvaguardas para a edificação de um músico completo. Para quem é do métier, impossível não notar lacunas, mesmo em se tratando de um hábil virtuose de ofício, daquelas atribuições fundamentais. Fora das lides interpretativas, haverá vazio de ideias.

Flávio Metne foi meu aluno na universidade. Questionador, colocava-me sempre em posição atenta às suas elucubrações sobre técnica, repertório, mormente dos países do leste europeu e daqueles pertencente à Ásia Menor. Dialogar com Flávio era um prazer estético. Sua evolução pianística nunca foi desprovida dos porquês dos procedimentos realizados. Sempre indagava sobre as razões do técnico-pianístico ou daqueles interpretativos.  Fonte de entusiasmo para seu velho mestre. O  Trabalho de Conclusão de Curso por ele apresentado foi notável e o aluno de piano não apenas tocou, como discorreu sobre a formação histórica da música nacional do Azerbaijão.

Flávio cresceu musicalmente. Atavicamente ligado aos povos do Levante, aqueles pertencentes à região ao nascente do Mar Mediterrâneo, ou seja, situados na costa ocidental da Ásia por ele banhada, Flávio fixou-se na Síria há mais de uma década, onde desempenha profícua atividade como professor de piano do The High Institut of Music em Damasco. Desenvolve também pesquisas relacionadas tanto à música como à língua árabe. Lê constantemente meus posts e nos correspondemos com certa assiduidade.

A atual situação da Síria, interpretada com exacerbação nem sempre confiável pela mídia, fê-lo colocar suas posições a respeito daquilo que, como cidadão a participar da vida do país, observa e presencia. Pensei pois transmitir ao leitor essas agudas observações. Tendo vindo a São Paulo durante as férias escolares, encontramo-nos diversas vezes e foi um prazer enorme esse contato, que se traduziria em um segundo texto de meu ex-aluno e dileto amigo, resultado também de nossas correspondências e encontros decorrentes dessa sua vinda a São Paulo.

Em Julho escrevia-me instigante e-mail de Damasco. Reproduzo seu texto na íntegra, com sua autorização, pois o desenvolvimento do amigo tem-se dado de maneira homogênea, e o leitor poderá inteirar-se das preocupações de Flávio em áreas outras, distantes das nossas, mas humanísticas.

“A demora em escrever algumas palavras poderia denotar  falta de estima… ao contrário, sua presença como mestre e amigo é contínua, seja através das gravações que ouço e as faço ouvir, seja  pelas preciosas idéias sugeridas em seus artigos. Talvez o mais motivador seja mesmo sua postura ante a vida.

Vamos em frente. Como você pode imaginar, o país esta passando por momentos difíceis e é impossível ficar ileso, mesmo que moralmente… Foram muitas as ponderações e penso que o destino do sistema vigente poderá afetar seriamente a vida de muita gente. Otimisticamente, gostaria de acreditar  que os detentores do poder neste país estão mais capacitados do que certos líderes da Liga e chegarão a um consenso inteligente. Caso isso não aconteça, poderá haver uma longa guerra civil ou a desgraça de uma teocracia, ou talvez a fragmentação do território em pequenos países, de acordo com as maiores religiões e etnias vigentes no Levante, e estas regidas por democracias de fachada.

A sociedade síria é uma trama complexa destas etnias, religiões e suas derivações, em cada uma delas há diferenças também culturais e econômicas, também com seus aliados internos e externos. Isso deve ser levado muito em conta ao se fazer qualquer análise.

Resumidamente, vejo três tipos de oposição. Uma oposição, diríamos, ideológica, ou seja, é fundamentada em idéias, comunistas ou nacional-sírias ou seja lá o que for. Outra grita por liberdade, mas com tendências declaradamente teocratizantes e fascistas. Um terceiro grupo composto por mercenários, com slogans muito pobres, quebrando , matando e fazendo declarações falsas às emissoras tendenciosas.

Tenho, como  você, o hábito de ouvir muito as pessoas. Ouço o  padre, o ministro, o exilado, o aluno, o colega de trabalho, o parente do interior, o filho do preso político, o pedreiro, o chofer, o tintureiro, o muçulmano rico, o muçulmano pobre, o cristão francofônico, o curdo sem nacionalidade, o agente, o militar, o nouveau-riche… as emissoras estatais e estrangeiras. Na maioria deles, o que há em relação à sorte do país é um grande ponto de interrogação estampado no rosto, fora as argumentações contraditórias, o diálogo surdo… O mais desesperador é que muitos indivíduos acreditam piamente que sua religião é a escolhida e que têm o direito, legitimado em seu livro sagrado, de apagar os outros do mapa! Estes também engrossam o caldo da ‘oposição’. A pressão internacional é considerável, tendendo a uma intervenção militar mal intencionada. Por outro lado, temo que se está usando, apesar da crise, os mesmos velhos métodos de manipulação popular; métodos estes que, ao meu ver, são aqueles que poderiam levar o sistema à falência.

Ontem foi sexta-feira, feriado, e ao pôr do sol causticante fui fazer uma visita a um parente. As praças cheias, as pessoas passeando, e no caminho que leva a Damasco centenas de famílias fazendo picnic com seus apetrechos, dos quais não falta o narguile. Que boa vida….Até que ponto o cidadão comum quer se envolver? Será que eles ignoram seu destino? Ou será que, depois de tantos conturbados séculos, sabem que nada podem fazer? Chega-se a um ponto  em que tudo o que o cidadão quer, até  o mais ilustrado dos homens, é que o deixem respirar em paz.

As tais aulas da sobrevivência… desvinculei-me definitivamente de uma pequena escola onde lecionava. Coloquei um ex-aluno meu no lugar para assim não prejudicar o  diretor. Era cansativo demais por tão pouco retorno profissional e financeiro. Fico somente com as aulas no Instituto Superior, cujos alunos prestaram vestibular e passaram por um exame de admissão e onde meus esforços são, pelo menos moralmente, mais bem empregados.

Aproveitando meu gosto pela introspecção, pela contemplação, leitura, coisas do espírito enfim, saio o mínimo possível de casa, evitando lugares lotados, ambientes poluídos, trânsito… O retorno é grande pois leio os grandes mestres, escrevo bastante e o mais importante: dedos nas teclas.

O que tenho escrito? Tenho em minha mesa cinco pastas, cinco assuntos mais ou menos relacionados. O sistema que adotei: leio diversas fontes e é impossível esgotar um assunto em uma semana.Vou lendo, vivendo e refletindo e depois de um tempo começam a se estruturar idéias em frases ou parágrafos. Escrevo e coloco na devida pasta, abastecendo-a de material para ser reavaliado e organizado em forma de texto. Não me preocupo logo no começo em colocá-las em um discurso linear. Se as idéias estiverem corretas, buscam seus pares e tudo correrá bem. Tenho, portanto, a liberdade de abandonar por um tempo um assunto e retornar a outro. Forma-se assim uma espiral ascendente e, cada vez que se retorna a um motivo, as idéias se esclarecem. Nunca se sabe quando uma relação interessante pode ocorrer. As idéias precisam de tempo para amadurecer e um distanciamento é  producente; prática sugerida na adolescência pelo meu  psicanalista.

Estou ocupado, por exemplo, com um estudo, ‘Fórmulas de Polidez’, em vernáculo árabe. Não estão escritas em nenhum compêndio. Devem ser retiradas do convívio com os locais, sejam entrevistas, peças de teatro ou fontes as mais diversas. São milhares de fórmulas – herança linguística – usadas no convívio social e  para cada ocasião uma fala, sua devida resposta e, às vezes, a resposta da resposta. São muito bonitas. Já tinha recolhido há muitos anos algumas frases, mas o impulso final veio a partir do Larousse, que tem uma parte dedicada a ‘Formules de politesse correspondant à divers événements’. Este é um trabalho mais acumulativo do que analítico, mas para o qual estou elaborando um pequeno comentário.

Outra pasta, o problema da avaliação pedagógica. Tenho participado anualmente das bancas examinadoras do Instituto e acredito que falta muito para uma melhor avaliação das provas práticas. Isso  me leva a uma série de reflexões a esse respeito e,  por conseqüência, foram devidamente escritas e serão propostas em futuro próximo.  Não é um texto longo e poderei enviar-lhe o rascunho se for de seu interesse. Interesse maior será o meu em moldar-me às prováveis críticas. Avante, a motivação é maior. As outras pastas também são interessantes, mas penso que já tomei demais seu tempo”.

Resultado de nossas longas conversas em São Paulo neste Setembro, Flávio escreveria:

“Nunca fui um ativista e confesso que, nos meus 40 anos, não teria paciência de sê-lo.  Sempre estou querendo saber e ouvir mais… Minha posição não me impede contudo de manifestar críticas a qualquer sistema existente.

Muitos assuntos eu não tratei em correspondências anteriores e que são, a meu ver, de suma importância. De passagem: o clientelismo impera, a corrupção institucionalizada; o código civil, importado da França,  foi enxertado numa sociedade com história e valores diversos do país de origem, muitas leis herdadas dos idos tempos otomanos ainda parasitam na constituição de uma sociedade que é governada por um partido socialista ‘laico’, alimentado pelo sonho pan-arábico. Previdência social ineficaz, sistema hospitalar péssimo, desrespeito visceral ao meio ambiente, imprensa… mais remedia do que noticia.

A sociedade levantina é puritana por natureza. A palavra como tal é crime e os tabus são muitos. Arrisco dizer que censura e puritanismo legitimam-se mutuamente. Acho pouco provável leis sobreviverem contrariamente à moral vigente. Existe, sim, uma elite educada e esclarecida. Ela tem consciência ambiental, habituou-se a fazer reciclagem, respeita a cultura alheia e integra com naturalidade os espaços em que vive, não corrompe e não é corrompida. Há bons escritores, corais relativamente bem treinados, compositores tentando, dentro de suas possibilidades, desenvolver uma linguagem nacional, programas de assistência social promovidos pela nossa excelente Primeira Dama e coisas afins.

Sob o aspecto cultural, dada a sua localização geográfica, o Levante compartilha imensamente do belo imaginário mediterrâneo. Muçulmanos e Cristãos convivem sem atritos maiores. Algumas cidades sírias poderiam bem estar em Portugal, Espanha, Itália ou Grécia e o inverso seria também válido. É só olhar os semblantes de homens e mulheres, as casas construídas com pedras escuras, ver casamentos, danças, ouvir adufes e gaitas; observar os vinhedos e as oliveiras, assim como as mulheres vestidas de luto e o culto à Virgem.  Acredito que essas semelhanças sobrevivam desde épocas anteriores às conquistas islâmicas. Indo mais a fundo,  a paisagem de cidades mais afastadas do Mediterrâneo, nela incluindo seus habitantes, aproxima-se mais de panorama existente na Península Arábica. Acrescentaria cidades a nordeste com traços mais centro-asiáticos em todos os aspectos.

A História da região não foi nada homogênea e sim plena de conturbações, seja nos tempos de Roma e de seus Césares, ou naqueles de Alexandre, pois o território pareceria fadado às ocupações.

O viajante que empreender um turismo sério, fora dos saguões cinco estrelas e restaurantes com música ‘para inglês ver’, poderá, a partir de uma atenta e prazerosa leitura das paisagens, aprender muito sobre a história da região.

Viver o cotidiano do país por uns bons quinze anos permite-me observar : os sírios vivem num país seguro? Sim. A pobreza é inferior àquela de outros do ‘terceiro mundo’? Sim. Pode-se andar pelas ruas à noite sem medo de assalto? Sim. Há alimento subsidiado pelo Estado? Sim. Há liberdade de culto? Sim. O mais relevante: a tolerância entre as diversas etnias e religiões e a solidariedade entre as pessoas, independentemente destas diferenças, é, de fato, admirável.

Transpondo exageros movidos por parcialidades e desinformação, penso que uma reavaliação mais sensível deveria ser feita, evitando assim julgamentos e decisões políticas de consequências nefastas.”

Flávio me apresentaria fotos por ele tiradas na Síria. Compartilho cinco delas com meus leitores. Tem-se muito do país e do que vai no interior do olhar de meu querido amigo.

Flavio Metne was one of my students at the university in the past and for more than ten years he has been living in Damascus, where he is a piano teacher at the High Institute of Music. We keep in touch by e-mails and meet when he comes to São Paulo on vacation. In this post I transcribe two interesting messages received from him, in which he gives his views on today’s civil unrest in Syria and also on the diverse fabric that makes up the Syrian society.