Navegando Posts em Música

E Tudo Começou Motivado pelo Acaso

Néanmoins, nous avons la certitude que l’infini existe,
puisqu’il est impossible d’imaginer qu’il n’existe point
et parce que son contraire, le fini,
est encore moins admissible.
Maurice Maeterlinck

Desde Março de 2007, reiteradas vezes abordei a temática relacionada às minhas ligações com a Bélgica, nascidas em 1995. Ao lembrar-me das origens dessa aproximação, que se tornaria perene, não deixo de fixar-me no acaso. Diria que trinta segundos a mais de uma situação absolutamente cotidiana e nada teria ocorrido. Em posts longínquos já escrevia sobre o fato.

Primeiramente, músicos da Bélgica estiveram no Brasil em 1994 e adquiriram na loja da Funarte, no Rio de Janeiro, três LPs gravados para o selo estatal e nos quais constavam obras do notável compositor romântico brasileiro Henrique Oswald. Dois de música de câmara e um de piano solo. Faziam parte de projeto acalentado pelo ilustre compositor Edino Krieger, então presidente da entidade. Com Antônio Del Claro, gravamos a integral para cello e piano e com Elisa Fukuda, a sonata para violino e piano e mais o trio op. 9, com a participação do  competente violoncelista.

O mentor da conexão musical Bélgica-Brasil foi certamente o saudoso Álvaro Guimarães, músico atuante que residia em Gent, na região flamenga. Procurou-me no início de 1995, a dizer que os belgas estavam encantados com a obra de Henrique Oswald. Todo o projeto foi por ele organizado. Primeiramente gravamos em Bruxelas, em Julho de 1995, a integral para violino e piano, com o excelente Paul Klinck ao violino. Estou a me lembrar que cheguei em uma sexta-feira pela manhã na capital dos belgas e Paul estava a me esperar. Conheci-o naquele intante e fomos direto a Gent. Meia hora após chegar, já realizávamos o primeiro ensaio. Dez minutos a seguir, Paul ficou de costas para mim e prosseguimos. A certa altura, intrigado, perguntei-lhe o porquê dessa postura. Respondeu-me bem calmamente “nossa compreensão da obra me leva à certeza de que nos entenderemos bem”. Ensaiamos ainda à noite, no dia seguinte Paul se casava, mas mesmo assim estudamos novamente, para na segunda e terça realizarmos, sem transtornos e na mais absoluta harmonia, a gravação das obras excelsas de Henrique Oswald em Bruxelas. Momentos extraordinários.

Em Novembro dava-se o Concerto de encerramento da Novecanto, totalmente dedicado a Oswald. Fizemos, no Muziekconservatorium de Gent, obras para violino, violoncelo, trio de cordas, canto, todas com minha participação ao piano. Tivemos ainda peças para piano solo e, para finalizar, o Coral Novecanto apresentou, de maneira sublime, a missa de Requiem a capella de nosso compositor. Chorei copiosamente ao ouvir, na platéia, a impecável execução da Missa. Concerto que teve a duração de quase duas horas. No intervalo foi lançado o CD que gravei com Paul Klinck.

À noite, mal conseguia dormir. Pensamentos contraditórios me levavam a rememorar os momentos mágicos vividos, que iriam estiolar-se na manhã seguinte, quando retornaria ao aeroporto de Bruxelas e, de lá, a São Paulo. E vem o acaso.

No momento exato em que o motorista de táxi que me levaria até à estação ferroviária Saint-Peters estava para fechar o porta-malas do veículo, desce de um carro que estacionara no meio fio, André Posman, o Diretor da De Rode Pomp. Não o conhecia e estranhei quando se aproximou sorrindo, a me dizer que adorara o concerto e que gostaria de conversar comigo.  Tenho o hábito de chegar bem antes da partida de qualquer vôo. André retira a minha bagagem do porta-malas, leva-me à sede da Rode Pomp e, posteriormente, de lá ao aeroporto. Nascia uma ligação definitiva, que me fez ir à Bélgica, até o presente, 22 vezes para recitais na sala da sociedade de concertos e gravações para o selo De Rode Pomp, assim como para apresentações em tantas cidades belgas.

O meu relacionamento com a Bélgica, tendo nascido de ato amoroso musical, permanece nestes 16 anos de intensidades. Foram inúmeros os posts em que abordei com alegria as viagens ao país, mormente à região flamenga. Só na sala da De Rode Pomp são mais de vinte recitais, sempre com repertório diferente. Sob outro aspecto, foi somente após três anos consecutivos de apresentações que André Posman me convidou para gravar “É necessário deixar a sua herança”, disse ele. Dos 22 CDs gravados no Exterior, 14 tem o selo respeitado da Rode Pomp, e outros foram gravados para serem lançados em Portugal e no Brasil com a anuência da organização. André, mulher e filhos tornaram-se membros de minha família belga. Conservaria a chave da moradia de André e tantas foram as vezes em que entrei de madrugada para estudar no piano da pequena sala de concertos. Infelizmente o auditório foi demolido, mas a força de vontade de André está sempre a pensar soluções novas. À mesa dos Posmans  - André, Jamila e os filhos Taha e Yassim - sempre há um lugar à espera do amigo quando este chega a Gent.

A não mais de 200 metros da Rode Pomp moram Tony Herbert e Tânia. André recomendou-me em 1997 a morada, pois se tratava de um Bed & Breakfast.  O casal teve filhos e nossa amizade apenas ficou ratificada em torno de Tycho e Trixie. Continuo a ser o único ex-cliente a lá se hospedar e seria uma desfeita imensa se buscasse outro abrigo. Extensão familiar. Tony de mil talentos é meu companheiro nos muitos almoços que compartilhamos sempre nos mesmos restaurantes de Gent e nas conversas prolongadas nos momentos de descontração. Personifica, a meu ver, muito das características dos habitantes da bela cidade medieval. De sua casa saio em treinamentos para as corridas da agenda oficial de São Paulo. Correr em baixa temperatura é experiência a ser vivida.

Johan Kennivé é o mestre absoluto da gravação. Um dos mais perfeitos engenheiros de som do planeta. Sereno, psicanalista, uma outra formação pois, Johan ausculta tudo. Nada lhe passa ao largo. Nossas gravações são sempre realizadas na capela Sint-Hilarius em Mullem, na planura flamenga. Todo ano vivemos três noites mágicas, que atravessam a madrugada até o raiar. Vivemos invernos rigorosos que, ao calor dos aquecedores, trazem a temperatura ideal ao intérprete nessa transmissão decisiva. Nos momentos de cansaço, é Johan que, na condição de psicanalista, sabe interromper uma gravação para conversa sem tensão, chocolate quente e torta de maça em sua Van com a mais moderna tecnologia de gravação e que fica estacionada na parte externa da capela, junto ao pequeno cemitério que a circunda.

Ter convivido com alguns dos grandes mestres da composição na Bélgica foi outro fato que marcou. Reiteradas vezes confessei que algumas de minhas amizades mais expressivas estão entre compositores, pintores e escritores. Gravei um CD unicamente com obras de 10 compositores belgas. Boudewijn Buckinx, Lucien Posman, Frederick Devreese, Yves Bondue, Stefan Meylaers, Roland Coryn, Daniel Gistelinck, Hans Cafmeyer, Raoul De Smet, Stefan van Puymbroeck são os criadores dos Études.

O competente compositor francês François Servenière, em análise crítica, escreve sobre essa gravação de Estudos belgas para piano: “esse CD com obras dos compositores do Reino da Bélgica e dedicados ao pianista José Eduardo Martins, aqui também formidavelmente virtuose, é uma lição da renovação que se opera na  música contemporânea da Europa e que o artista brasileiro não deixou de suscitar através das encomendas ou sugestões a esses criadores, mestres de sua arte seja qual for a tendência ou a geração. Podemos constatar, ao ouvir esse CD, que não há mais muros, barreiras e limites para a  criação e que a bandeira da liberdade é novamente aquela que está a impulsionar as mais brilhantes inteligências inventivas”. Raoul De Smet (1937), compositor da Antuérpia, dedicou-me seis Études, que apresentei paulatinamente ao público belga. Sabedor de meu projeto de Estudos, que hoje conta com 70 e tantos, escreveu mais nove. Deveria tocá-los este ano, contudo as cirurgias dos polegares (rizartrose) em 2010 e 2011 obrigaram-me a adiar a edificação da coletânea, pois estamos diante de Estudos realmente de dificuldade transcendental. Creio que em 2013 ou 14 poderei gravá-los em Mullem. Avanço na idade e no entusiasmo. Sob outra égide, foi um privilégio ter sido lembrado, através dos anos, em traços e cores marcantes por cinco artistas na Flandres: o saudoso Yves Dendal, que compareeu a todos meus recitais em Gent, Lutgard Wittocx e Tim Heirman (Bélgica), Joep Huiskamp e J.D.Wachter (Holanda) e Boris Chapovalov (Rússia). Seus trabalhos podem ser visualizados no item portraits de meu site.

Foram muitos os cameristas com quem me apresentei, mormente Paul Klinck, Herwig Coryn, Françoise Vanhecke e o Kwartet Rubio, que foi um dos mais prestigiados da Europa, hoje, hélas, desativado. Tantas as cidades em que me apresentei na Bélgica, quase todas percorridas através da eficiente malha ferroviária que corta o país.

Todo esse breve histórico para dizer aos generosos leitores que vivi emoção muito grande ao receber, das mãos do Exmo. Sr. Cônsul Geral do Reino da Bélgica em São Paulo, Peter Claes, a comenda “Officier dans l’Ordre de la Courone”, outorgada por Sua Majestade Alberto II, Rei dos Belgas, em comovente cerimônia realizada na residência oficial. No momento da entrega, o flash a conter toda essa relação amorosa passou pela mente. Longa preparação para as gravações, apresentações públicas, amizades que se perpetuam em intensidade sem limites, todas as imagens que me levaram a certeza de estar a sentir na Bélgica, nos contatos musicais e afetivos, algumas das mais sensíveis experiências de minha vida. Sinto-me profundamente honrado com a comenda, que será guardada com carinho exemplar e um dia pertencerá às filhas e netas. Ter chegado aos 73 anos torna-me mais fragilizado quanto às reações afetivas. Ter sido lembrado pelo Reino da Bélgica em momento tão especial calou-me fundo.

A Bélgica continua a ser um de meus refúgios paradisíacos da mente. Dela lembrar traz-me reconforto e estímulo, pois projetos estão em permanente ebulição. Enumero a seguir os posts, editados desde 2007, tendo como temas a música, a arte e as amizades que o tempo sedimentou: Gent – A Flandres Rejuvenescida, 28/04/2007; Mullem – Sint-Hilarius, 01/05/07; A Comunhão das Pedras – A Magia de Sint-Hilarius, 03/05/07; Victor Servranckx (1897-1965) – A Grandiosidade do Fragmento ou Esboço, 12/03/08; Recitais Diferenciados – O Lúdico e o Alento, 18/03/08; Sint-Hilarius em Mullem – Meu Desiderato Sonoro, 25/03/08; Tony Herbert – TTTT e o Saber Viver, 12/04/08; Nova Travessia – Retornar à Região Flamenga, 06/02/09; Gent e seus Templos Góticos, 13/02/09; Um Belo Concerto – Qualidade sem Empáfia, 28/02/09; Álvaro Guimarães (1956-2009) – In Memoriam, 04/07/09; Travessia, Travessia – Quando Projeto Acalentado Chega a Termo, 14/05/10; E Continua o Caminhar – 21/05/10; Passar do Tempo e Gent, 04/02/11.

Last 18 August I received, from the hands of Mr. Peter Claes,  Consul of Belgium in São Paulo, the insignia “Officier de l’Ordre de la Couronne”, bestowed by His Majesty Albert II, King of the Belgians, in recognition of my dream of strengthening the ties between Belgium and Brazil through music. I was deeply moved by this tribute and the ceremony brought back memories of my many trips to the country: the privilege of knowing great musicians and composers , the 22 CDs recorded in Mulem and, above all, the rare treasure of making good friends, a blend of affection, respect and trust  that makes me feel comfortable and safe whenever I’m in Belgium.

 

 

 

 

 

 

Oxalá Esteja a Acontecer

Il faut avoir vis-à-vis de l’oeuvre que l’on écoute,
que l’on interprète ou que l’on compose,
un respect profond comme devant l’existence même.
Comme si c’était une question de vie ou de mort.
Pierre Boulez

Les instruments, quels qu’ils soient,
ne sont là que pour restituer l’énergie engrangée,
de quelque manière que se soit et la projeter vers l’extérieur,
quel que soit le talent mis en oeuvre. Il n’y a de beauté à mon sens
uniquement quand ce talent s’efface
au profit d’une compréhension intime et d’une expression parfaite de l’univers,
comme si un langage divin passait par l’impétrant qui n’avait qu’à se laisser porter.
François Servenière

Foram inúmeras as vezes em que escrevi sobre a ausência de crítica especializada em música na cidade de São Paulo. Em tempos da Universidade, pleiteei junto a colegas a inclusão de curso específico para crítica de Arte, a partir da premissa que o possível ingressante tivesse o conhecimento básico da área a que se destinasse. No campo da Música, como intérprete,  teórico ou até jornalista, a ter como conditio sine qua nom conhecer as estruturas musicais básicas e possuir escuta acurada, únicos caminhos viáveis para uma avaliação crítica a partir do entendimento competente.

Infelizmente os meados do século XX ficaram esquecidos. Período em que a cidade contou com mais de dez críticos de música de concerto, sendo que muitos com currículo de mérito. Entre eles: João Caldeira Filho de “O Estado de São Paulo”,  H.J. Koellreutter e L.C. Vinholes do “Diário de São Paulo”, Dinorah de Carvalho do “Diário da Tarde”, Diogo Pachedo de “O Tempo”,  Arthur Kauffman da “Folha da Tarde”, Lilly Wolf do “Jornal Alemão”, Cyro Monteiro Brisolla “Correio Paulistano”, Odette de Faria do “Shopping News de São Paulo”. Todos conhecedores das estruturas que regem composição-interpretação.  Estiolou-se a crítica musical e o Maestro Júlio Medaglia faz-se exceção no desolador quadro que nos é apresentado. Escrevem, alguns com “verniz” musical ou realmente a desconhecer o que se passa numa partitura, o que invalida conceitos emitidos tanto na apreciação crítica como em artigos versando sobre música.

Estou a me lembrar de personagem que se outorgava o título de “crítico” e que, nos intervalos de recitais ou concertos, buscava auscultar opiniões de músicos. Certa vez emiti meu posicionamento a respeito de uma apresentação de artista estrangeiro. Dias após, assinado e “autenticado”, li com espanto a minha avaliação, que transmitira ao personagem, transcrita na íntegra.

Qual não foi minha surpresa ao ler pela manhã e-mails recebidos durante a noite, um de ex-aluno da Universidade de São Paulo e que, presentemente, tem sido assistido em minha casa. Teceu crítica de meu recital do dia 3 de Junho. Nele busca comentar as obras que foram executadas. Mesmo considerando a natural posição favorável de um jovem que periodicamente tem aconselhamento com o velho professor, assim como uma sua primeira incursão na área da crítica, ainda envolvida em aura romântica, resolvi colocar no post semanal a apreciação de Paulo Marcos Filla, na esperança de que, se espaço encontrar em nossa mídia já rarefeita, tenha ele a possibilidade de exercer, na competência, a rara atividade de crítico musical que conhece Música. Caso não encontre, haverá sempre a internet como atual força maior de divulgação. Mencionaria uma vez mais posição que sempre defendi, a de que minha ação nos tempos da Universidade foi a de formar o músico na acepção e jamais o tecladista em particular. Sem a apreensão humanística, o pianista, mesmo que extraordinário instrumentista, terá lacunas, por vezes, perenes. Pedi consentimento a Paulo Marcos Filla e transcrevo o e-mail completo:

Prezado Prof. Jose Eduardo, bom dia.

Estou-lhe escrevendo porque acredito não ter conseguido, pessoalmente, expressar toda a gratidão pelos momentos sensíveis e pela aula espetacular de interpretação e de vida proporcionados pelo senhor durante o recital de piano do dia 03/06/2011, no Auditório Cantidio de Moura Campos Filho, do Instituto Dante Pazzanese. As suas palavras iniciais  foram realmente marcantes, principalmente quando mencionada aquela fase de superação de um problema tão difícil. Naqueles poucos segundos em que o senhor nos explicou a respeito de os médicos terem-lhe dado de seis meses a um ano de vida, apesar de já haver lido sobre o fato nos blogs, confesso ter sido tomado por intensa emoção. De forma involuntária, naquele momento específico, além de presenciar o grande artista no palco dando as boas vindas ao seu público, diversas imagens passaram pela minha memória, acredito que tudo numa fração de segundo: todos aqueles presentes que o senhor nos deu quando da época uspiana: as aulas excelentes sobre literatura e interpretação pianísticas, todos aqueles CDs, os livros, a divulgação de um repertório de altíssima qualidade (tanto brasileiro quanto estrangeiro), mas em grande parte desconhecido, as palavras de respeito e de consideração por todos. Inclusive as aulas de piano que o senhor continua a me proporcionar. Mas, aonde quero chegar? Explico: um ser humano dessa envergadura com uma perspectiva de vida tão curta? Quanto benefício ter-se-ia perdido? Quanto conhecimento e experiência de vida não compartilhados?

A seguir, um breve relato da apresentação:

No que diz respeito à performance pianística, a Ballade, do compositor Claude Debussy, foi simplesmente cativante, tamanha a força de expressão e refinamento sonoro do intérprete. O piano Yamaha, com sonoridade geralmente um pouco metálica em relação ao Steinway de Hamburgo, por exemplo, nas mãos do mestre José Eduardo Martins emitia  graves profundos e generosos, médios e agudos brilhantes, mas sempre aveludados. Nas Danses – Sacrée et Profane, também de Debussy, com transcrição de Jacques Durand, evidenciou-se um procedimento que tanto me chama a atenção na performance de José Eduardo: o tratamento “microscópico” da pedalização. Quando do toque de uma única nota do baixo, o pedal direito era acionado com enorme controle, de maneira a fazer o abafador sair parcialmente das cordas. Esse tratamento diferenciado resultou em efeito timbrístico único, uma sonoridade reverberativa, salientando o caráter etéreo do compositor. Puro encantamento.

Na peça seguinte, Nuages Gris, de Franz Liszt, deparamo-nos com uma obra de caráter “despretensioso” em termos de virtuosidade técnica e arrebatamento emotivo. Bem diferente do que estamos acostumados ao apreciar Liszt. Em Nuages Gris, o compositor desbrava, de maneira muito pessoal e introspectiva, um caminho sonoro bastante cromático, com um sentido bem definido rumo ao atonalismo. E a interpretação do pianista José Eduardo foi capaz de expressar perfeitamente as intenções do compositor. Quase sem interrupção, o recital prosseguiu com as Duas Lendas (São Francisco de Assis falando aos pássaros; São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas) e Funerais, todas essas obras também do compositor húngaro. Na primeira das Duas Lendas, de sonoridade bem “wagneriana”, o pianista tratou os agudos de maneira a expressarem o conteúdo descritivo  dessa peça, fazendo-nos rememorar os agudíssimos das obras mais introspectivas de Richard Strauss, sobretudo quando executadas pela Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência de Herbert von Karajan. Na segunda das Duas Lendas, a generosidade virtuosística ondulante dos graves foi capaz de expressar a caudalosidade das águas e das ondas a embasarem o caminhar de São Francisco de Paula, cujo fervor foi aqui representado pela bela melodia na região central do teclado. Para encerrar a coletânea de obras de Liszt, Funerais. O toque igualmente generoso dos graves fazia ecoar sinos e ritmos marciais fúnebres e guerreiros por todo o auditório, embasando com firmeza as funções harmônicas características em Liszt nessa monumental obra onde o cromatismo é constante nas várias linhas da partitura. Durante a execução, uma força de expressão única do pianista fez ressoar, em nossa alma, o lirismo das belas melodias, nas baixas e altas intensidades. E, ao encerrar a obra, uma tremenda força de ânimo reproduziu uma poderosíssima avalanche oitavada dos graves, levando o publico a aplaudir de pé.

Na sequência, obras de Scriabin. A Valse op.38 foi substituída pelo Noturno para a mão esquerda. Nesse Noturno, verificamos a propriedade com a qual o pianista explorou a espacialização do teclado do Yamaha de 3/4 de cauda. Fechando os olhos, a sensação era a de que as duas mãos estavam sendo empregadas na execução dessa obra. Para encerrar, Vers la Flamme op.72. Nas palavras bastante oportunas do pianista, se Vers la Flamme tivesse sido composta hoje, ela seria considerada como uma bem sucedida obra modernista. Certamente uma das obras mais difíceis e emblemáticas da literatura pianística.

Aplaudido de pé durante vários minutos, José Eduardo Martins concedeu-nos, como bis, a interpretação de obras curtas (dois “atomics”) de compositor belga e o magnífico Estudo op. 42 n. 5 de Scriabin.

Recital com entrada franca e valor incomensurável.

Paulo Marcos Filla

After my recital at the Dante Pazzaneze concert hall last June 3, I received an e-mail from one of my former students at the university commenting on my performance. Leaving out the enthusiasm of a young student for his old teacher, I transcribe here his message in its entirety, for I believe he has a gift for the job and proves my point that classical music critics should possess musical knowledge – a quality seldom found  among those writing reviews and criticisms for the press nowadays.

 

A Continuação dos Acúmulos

Por causa do mundo curvo
eis aqui o que procuro
ter eu amor do passado
com a paixão do futuro
mas há remédio bem simples
para não ser inseguro
é amar vida sem tempo
ou seja o presente puro.
Agostinho da Silva

O estímulo do generoso leitor leva-me a escrever posts desde Março de 2007. Tornaram-se pulsar e naturalmente os temas surgem. Leituras a abrirem um universo de perspectivas, viagens e olhares outros, cotidiano, corridas e a música sempre presente.

Chegamos ao terceiro volume, a conter os posts de 19 de Setembro de 2009 até 19 de Março de 2011. Eles fluíram sem interrupção, e o leitor soube acompanhar os escritos que invariavelmente estiveram à sua disposição a partir das madrugadas de sábado. Seria nítido verificar que o terceiro volume ficou mais espesso. Alguns temas propostos, mormente se  resenhas de livros, podem estimular textos maiores, a depender, inclusive, das associações advindas da leitura. Apesar da busca da síntese como norte, nem sempre é possível não se deixar entusiasmar por algum livro que apresente variadas opções, assim como argumentos consistentes.

Inúmeros e-mails recebidos têm como fulcro a diversificação temática, assim como as dimensões díspares dos posts.  Já observara anteriormente que foi essa uma das razões de não ter aceito, desde 1990, convites para escrever crônicas na grande mídia. Se o espírito de síntese é importante, senão fundamental, a respiração estaria a demonstrar que nem sempre obedece ao mesmo ritmo. O fluxo da escrita, acredito eu, não deveria estar circunscrito a número preciso de caracteres, podendo ter flutuações. Entretanto, sei das necessidades quase que imperiosas dos espaços que a mídia oferece aos colaboradores. Tempos atuais.

Sob outra égide, o aumento numérico de leitores do post semanal tem propiciado questionamentos vários de interessados. Quando tenho o prazer de encontrar um frequentador, perguntas são formuladas, profícuo diálogo se estabelece e geralmente estimula a redação de um novo texto, seja ele sobre música, o cotidiano imperativo ou as viagens. A maioria das perguntas recai sobre música, preferenciamente interpretação. Tenho gosto em tratar do tema.

O terceiro volume das Crônicas, quando margeia circunstancialmente a realidade nacional, o faz com desencanto. Auscultar o homem das ruas, os amigos da cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, é ouvir o que o cidadão consciente de nossa São Paulo ou do Brasil sente e pensa.

Agrada-me, ao penetrar em determinado assunto concernente ao cotidiano, ler o post da semana ao meu dileto amigo e artista plástico Luca Vitali. Sei que a interpretação arguta será traduzida em desenho ou charge. Luca ouve com um lápis no cérebro. Divirto-me com os resultados que chegam via e-mail, sempre numa visão de um artista integrado ao mundo, crítico, mas na maturidade que dispensa o amargor. Apesar da labuta artística diária, Luca encontra momentos para visualizar o texto e o seu amigo pianista pode ser visto em várias ilustrações das Crônicas (III) em situações que, diria, jocosas. Extrair do cotidiano o lado do fino humor é dom e Luca o tem.

A edição dos três tomos das Crônicas teve tiragem limitada. O caríssimo Cláudio Giordano – Pax Spes -, que  acompanha há quase duas décadas a edição de meus livros é cuidadoso, verdadeiro artesão. Sonhador, idealista, atônito com esse mundo a cada dia mais materialista e pragmático, onde a corrida ao lucro desenfreado, amparada pela corrupção endêmica, propicia todos os desvios sociais, como a insegurança em progressão geométrica e a mentira entendida como verdade absoluta. Comungamos, Cláudio, Luca e eu, do sentimento de um mundo hoje irreversível. Estupefatos, assistimos. A edição criteriosa, o traço da vida a pulsar e a música são nossas “armas” respectivas. Pregar na aridez de um deserto. Mas há que continuar. Giordano ainda cuidou de uma edição limitadíssima, pois em francês, do dossier crítico de meus CDs, escrito pelo excelente compositor François Servenière.

O lançamento das Crônicas deu-se após o recital que realizei no Instituto Dante Pazzanese neste último dia 3 de Junho. Obras de Claude Debussy, inclusive as Danses – Sacrée et Profane para harpa cromática ou piano e mais orquestra de cordas. O editor de Debussy, Jacques Durand, realizou a transcrição para piano solo, que praticamente conserva, à perfeição, a escrita original. Debussy a aprovou, Manuel De Falla a interpretaria em Madri. Ao acessar o YouTube, o leitor poderá buscar essa preciosa obra do compositor francês que gravei para o selo De Rode Pomp, na Bélgica. De Franz Liszt, no ano do bi-centenário de seu nascimento, foram apresentadas diversas obras. Em Nuages Gris, escrita aos 24 de Agosto de 1881, cinco anos antes da morte do compositor, Liszt, em apenas 48 compassos, realiza a síntese da síntese, pois muitos de seus extraordinários processos lá estão nessa diminuta obra testamentária. As duas belíssimas Lendas (1866), São Francisco de Assis Falando aos Pássaros e São Francisco de Paula caminhando sobre as Ondas, transmitem o universo descritivo e os Funerais, criação datada de 1949,  completaram a homenagem ao grande profeta da música. O recital foi finalizado com duas obras de Alexander Scriabine, Noturno para a mão esquerda e Vers la Flamme, uma obra a ser entendida rigorosamente como contemporânea, apesar de ter sido escrita em 1912. Deveria tocar a Valse op. 38, mas, como nesta próxima segunda-feira, dia 6, sofrerei delicada operação (vide Cirurgia da Mão – Rizartrose, 09/10/10), preferi  tocar o belo Noturno para a Mão esquerda, já a entrar no clima da operação. Dediquei a interpretação ao ilustre especialista em cirurgia da mão, Dr. Heitor Ulson, presente ao recital. Rizartrose, agora no polegar da mão direita. Um público seleto e numeroso aplaudiu com entusiasmo o repertório apresentado. 

Acabamos de atingir 150.000 acessos. Os blogs terão sequência. Ânimo não falta e a fidelidade do leitor tem  proporcionado grande estímulo. Continuar…

On my book Crônicas de um Observador III (Chronicles of an Observer III), a collection of posts stored in my blog from September 2009 to March 2011, covering various categories of thoughts or events (music, books, travels, personalities, and everyday life).