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O Pulsar Sonoro Contínuo

A unidade da obra tem sua ressonância.
Igor Stravinsky

Livros, partituras e CDs preencheram a sacola adquirida em Lisboa e mencionada no post anterior. Se em anos precedentes trouxe da Bélgica quantidade apreciável de CDs de música contemporânea, desta vez reencontrei em Gent um ótimo músico e bom amigo, Peter Ritzen. Almoçamos juntos e trocamos nossos CDs. Peter é pianista e compositor de méritos e, além de intérprete das principais obras de Franz Liszt, tem repertório variadíssimo, não apenas para piano solo, também o camerístico e aquele para piano e orquestra. Como compositor, desenvolve um trabalho sólido. Os muitos anos vividos em Taiwan deram à sua escrita características sui generis na utilização de instrumentos orientais. Longe de ser vanguardista, mescla uma forte herança baseada em toda a sua formação de pianista e o contacto decisivo com o Extremo-Oriente. No You Tube, pode-se ouvir, entre outras, Lacrymosa, extraída de sua Sinfonia para grande orquestra, coro e soprano. Dois CDs com obras de Franz Liszt apresentam, entre outras: Sonata em si menor, Deux Légendes, Doze Estudos Transcendentais; CD da Marco Polo apresenta-o interpretando o Concerto para piano e Orquestra de Theodor Leschetizky com a Orquestra Filarmônica de Shangai, dirigida por Cao Peng; do mesmo selo, dois Concertos de sua autoria com a mesma orquestra e igual regente. Tem-se também o Quinteto com piano de César Franck e obras diversas a comporem um outro CD. No mês de Maio apresentarei essas gravações em meu programa na USP-FM (93.7): Idéia, Criação e Interpretação, que vai ao ar todas às terças-feiras às 22 horas (vide link no site).
Em Portugal, fui brindado por generosos amigos músicos com CDs editados nestes últimos anos e que estarão a ser divulgados pela Rádio USP-FM, paulatinamente. Mencioná-los torna-se importante, a evidenciar o pulsar sonoro em terras lusíadas.
É um prazer ouvir as gravações de Nella Maissa, pianista portuguesa de origem italiana. Foi aluna, a partir de 1939, de José Vianna da Mota. Desenvolveu sólida carreira igualmente em outros países europeus, apresentando primeiras audições em Portugal de obras de Prokofiev, Hindemith, Bartok, Dallapicola, Gershwin. Divulgadora incansável da música portuguesa, salientemos o lançamento pela PortugalSom, em álbum contendo 2 CDs, dos quatro Concertos para Piano e Orquestra de João Domingos Bomtempo (1775-1842), gravados em 1985 com a Orquestra Sinfônica de Nümberg, sob a regência de Klauspeter Seibel. Em outro CD, produzido pela Jorsom, Nella Maissa apresenta obras de Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes-Graça, Armando José Fernandes, José Croner de Vasconcelos, a penetrar em parte do repertório português do século XX.
Artur Pizzarro é um dos mais importantes pianistas mundiais da nova geração. Com larga discografia, apresenta-se nas mais destacadas salas da Europa e dos Estados Unidos. Sua versão das 32 Sonatas para piano de Beethoven é considerada significativa. No CD dedicado a Vianna da Motta (1868-1948), lançado pela Hypérion, constam o Concerto em lá menor e a Fantasia Dramática para piano e orquestra (Orquestra Gulbenkian sob a regência de Martyn Brabbins), assim como a célebre Ballada op. 16.

Dos pianistas portugueses, tem-se destacado, com louvor, António Rosado. Ultimamente gravara para a Numérica, com o apoio da Câmara Municipal de Matosinhos, em performance de grande competência, as Seis Sonatas para piano de Fernando Lopes-Graça, ou seja, a primeira integral, a revelar com clareza os vários estágios escriturais do compositor nascido em Tomar. Os dois CDs são referenciais. O registro fonográfico de In Memoriam Béla Bartok, lançado e prestigiado pelas mesmas entidades, igualmente em álbum duplo, contém a primeira integral das oito suítes. Destaquem-se, presentemente, os Dez Prelúdios e a Sonatina de Luís de Freitas Branco, assim como Cinco Prelúdios de António José Fernandes, produzidos pela Numérica.
A pianista Sofia Lourenço realiza profícuo trabalho visando à divulgação da música portuguesa. Em CD editado pela Numérica gravou 12 Estudos de Domingos Bomtempo e 14 Tocatas de Carlos Seixas. Pelo mesmo selo, tem-se o CD denominado Porto Romântico, em que Sofia Lourenço, através de Mazurkas e Romanzas, apresenta panorâmica da criação para piano composta no período por diversos autores: Óscar da Silva, Arthur Napoleão, Hernâni Torres, Domingos Ciriaco de Cardoso, Pedro Blanco, Arthur Ferreira e António de Lima Fragoso. Editado pela Phonedition, Sofia Lourenço e a flautista Monika Duarte Streitová interpretam, no CD Dual, obras do século XX. Cláudio Carneiro, Ángela Lopes, Álvaro Salazar, Bohuslav Martinú, Leos Janácek, Vladimir Bokes e Roman Berger são os compositores escolhidos.
Madalena Soveral tem prestado contributo importante na difusão da música contemporânea portuguesa para piano. Frise-se o CD referente aos anos 90, lançado pela Numérica, no qual quatro compositores são contemplados: António Pinho Vargas, João Pedro Oliveira, Filipe Pires e João Rafael.
O Pequeno Livro de Ana Magdalena Bach adquire, na interpretação ao piano de Luís Pipa, timbres e flutuações de raro interesse. Lançamento da Tradisom com o apoio da Academia de Música Viana do Castelo.

Conheço Idalete Giga desde o início dos anos 80, quando era a assistente de Júlia D’Almendra, a extraordinária gregorianista criadora, em 1953, do Centro de Estudos Gregorianos em Lisboa. O CD Magnificat apresenta o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob sua direção. Há vinte e três melodias gregorianas e essa música, que tão forte influência teve na História da Música do Ocidente, tem poder cativante. O CD passa a ser ouvido em momentos de paz interior, mercê igualmente da bela interpretação. Lançamento Último Take.
Ouvi com prazer o CD gravado pelo Trio de Guitarras de Lisboa, constituído por António Ferreirinho, Fernando Guiomar e José Mesquita Lopes, para o selo Numérica. Obras de Máximo D. Pujol, Klaus Wüsthoff, Stepan Rak, Raul Maldonado e Reginald Smith-Brindle compõem o diversificado CD.
É muito salutar verificar-se que a maioria dos intérpretes de Portugal prestigia a excelente criação em terras lusíadas, do passado à contemporaneidade.

Mencionaria, para finalizar, o lançamento pelo selo belga De Rode Pomp de meu CD Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau (vide Johann Kuhnau – 1660-1722 -, 28 de Março de 2007, categoria Música). A extraordinária obra foi gravada na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, no ano passado, a ter sempre como engenheiro de som o impecável Johan Kennivé.

– Ouça aqui um excerto da Terceira Sonata de Johann Kuhnau: O casamento de Jacob. -

Relevant classical music CDs released in Portugal and Belgium.

O Espírito de Síntese

Gravura japonesa - Metamorfose da Lua, tocador de biwa. Autor: Hônen. 1891

Le progrès en art
ne consiste pas à
l’étendre ses limites,
mais à les mieux connaître.

Georges Braque

O tema é sempre instigante. Haveria período de regresso às estruturas e formas clássicas por criadores e intérpretes, após a chegada à plena maturidade? Mencionara texto de Elliot Jaques (vide Leituras sobre o Himalaia (III), categoria Leituras e Personalidades, 01/02/08), no qual fases distintas em torno da maturidade fazem-se atuantes.
Seria possível entender que o ser humano, ao atingir a plenitude da atividade, tenha reflexões em torno de um ocaso que, apesar de mais ou menos distante, antolha-se real, iniciando, mesmo em pleno desenvolvimento criativo, o caminho em direção à síntese. Pareceria normal esse trilhar, nem sempre aceito por muitos ao “não” sentirem realidades que se aproximam.
A revisita a padrões mais tradicionais, é seguida por quantidade apreciável daqueles que se dedicam às artes, criando ou reproduzindo – há sempre outra categoria de criação destinada ao intérprete. Não temos na língua portuguesa uma palavra equivalente à francesa classicisation, a definir essa “evolução” natural ao passado. Temos classicismo, que não tem o mesmo alcance. Contudo, a classicisation seria o debruçar de um criador sobre técnicas que já foram utilizadas. O novo approach traria, sob outra égide, “economia” de todo o material antes empregado, a depender das individualidades. O regresso estabelece o chamado espírito de síntese. Menos propenso a novas aventuras no campo da arte, todo o acervo apreendido ao longo da trajetória estaria como salvaguarda do que virá a ser criado.
A uma pergunta minha sobre dissertações e teses, o ilustre jurista e professor Guido Soares disse-me, no início dos anos 90, que a última das teses universitárias deve versar sobre aquilo que o docente mais conhece. Trata-se de um olhar, como se estivesse sobrevoando a sua especificidade. Contempla o conhecimento, sem tergiversar, pois a competência jamais assim deve proceder, e nesse sobrevôo vêm à pena o acúmulo da trajetória, os conceitos definitivos. Teríamos, pois, a síntese dimensionada.
Inúmeros foram os compositores que nos últimos anos de vida tiveram essa permanência na síntese. O caso de Franz Liszt (1811-1886) é flagrante. Dos anos de absoluto arrojo piano-virtuosístico, em que nenhum desafio deixava de ser transposto, à Sainte-Elisabeth e Christus, evidencia o autor o desinteresse pelo efeito até superficial e a concentração volta-se a interesses espirituais a agirem sobre a composição. Quando escreve Nuage Gris, pequena peça de apenas 48 compassos, dir-se-ia que a sínteses da síntese lá está contida. Escrita aos 24 de Agosto de 1881, a pequena peça revela algumas das mais marcantes características estruturais do compositor.
Do romantismo exacerbado, Alexander Scriabine (1872-1915) encaminha-se progressivamente ao entendimento da música como integrante de outras artes, num amálgama absoluto. Nos últimos anos de existência, a aspiração místico-reflexiva tornar-se-ia decisiva. Contudo, ingredientes do técnico pianístico, paradoxalmente, permaneceriam íntegros. Claude Debussy (1862-1918) realiza com os Études para piano, de 1915, síntese absoluta de seus procedimentos. Portador de um câncer que o levaria à morte, reconheceria, no período da composição da obra, que ela estava no cimo da criação. Meses após finalizar os 12 Études, escreve uma pequena peça de 21 compassos, Élégie, rigorosamente de síntese, onde nenhuma concessão existe, a evidenciar profunda austeridade.
Em aspecto outro, Henrique Oswald (1852-1931) recolhe-se no último decênio de vida à composição de obra sacra, movido por vários fatores. Sua obra camerística do período carrega elementos despojados, plenos de processos reutilizados, mas surpreendentes quanto ao emprego. Gilberto Mendes (vide Gilberto Mendes, Categoria Música, Personalidades, 13/10/07), ao escrever Étude de Synthèse a nosso pedido, buscou os acordes que mais tiveram guarida em seu pensar musical. Com fluidez, esses povoaram uma pequena peça em visitação amorosa ao passado.
Se os poucos exemplos citados estariam a revelar um retorno a padrões mais tradicionais por parte de tantos criadores, não se descarte a presença da síntese em compositores do nível de Franz Schubert (1797-1828) ou Wolfang Amadeus Mozart (1956-1991), a atestar que o caminho da classicisation pode acontecer na denominada “juventude da idade madura”, segundo a conceituação de Elliot Jaques.
Se a música depende prioritariamente do intérprete para sua execução, não se pode excluir o espírito de síntese que ocorreria na plena idade madura. A leitura de uma partitura é sempre desveladora de segredos. Aspectos ligados ao mistério da criação, contudo, pareceriam insondáveis. Se, sob certa égide, o intérprete deveria apreender a trajetória de um compositor em direção à síntese, sob aspecto outro é a sua própria que está em questão em período preciso da existência. A classicisation pode ocorrer, a depender do mundo interior de cada intérprete. A composição lá está para a leitura que dará vida sonora à partitura. O entendimento na idade madura pode revelar segredos que passaram despercebidos décadas antes. Ao tocar em 1955 uma obra de Robert Schumann (1810-1856) para a extraordinária Guiomar Novaes (1894-1979), disse-me ela que ingredientes só são revelados com o transcorrer da vida e que apenas naquela época compreendera conteúdos de alguns quadros do Carnaval op. 9 do grande compositor alemão, antes não desvelados em seu entendimento. Frise-se, a interpretação dessa obra sempre esteve em nível elevado na execução de Guiomar Novaes.
Observando-se gravações de pianistas que viveram muito e tiveram registros fonográficos das mesmas obras em épocas distintas, pode-se compreender esse espírito de síntese. Poissons d’or, de Claude Debussy, tem duas interpretações distintas por parte de Arthur Rubinstein (1887-1982), sendo que a gravação derradeira mantém, mais serena, uma primazia quanto às intenções.
Cláudio Arrau (1903-1991), nas entrevistas a Joseph Horowitz em 1980-1981, revelaria: “Quando nos meus vinte anos, as pessoas achavam que tocava muito rápido. Isso durou anos. E eu assim procedia pelo amor físico relacionado ao piano e aos meus dedos. Talvez buscasse a ovação. Conscientemente há muito tempo, muito tempo mesmo, eu assim não procedo. Num certo sentido, é para mim igual agradar ou desagradar. Preocupar-se com a reação do público é algo que pode realmente assassinar a interpretação”. Continua o grande pianista; “Você sabe, todos aqueles que questionam sobre minha idade falam imediatamente em serenidade e transfiguração. É um absurdo. A intensidade expressiva, na minha opinião, é muito mais forte, mais concentrada em comparação aos anos de minha juventude. Há, atrás dessas conceituações uma ilusão rotineira. As pessoas acreditam que, com a idade, tornamo-nos serenos. Ocorre exatamente o contrário. Amamos muito mais a vida e sentimos muito mais fortemente. Imaginam que ficamos indiferentes e até mais relaxados. Eu acredito que isso ocorra com a maioria, que se enfraquece ao chegar à velhice. Todavia, se durante toda a vida você foi intenso, será ainda mais ao chegar a idade avançada”.
Seria possível imaginar a síntese como pertencente a um patamar preciso, mas a ter como salvaguarda o momento desconhecido que leva à depuração. Seria igualmente oportuno ter-se em mente que, basicamente, não há antagonismos entre as distintas fases. A própria caminhada faz com que a idade madura, que leva à síntese, acumule imagens e as selecione. Essa escolha do já visto e daquilo que está para acontecer faria a diferença na criação e no interpretar a obra conclusa.

On how a synthesizing tendency seems sometimes to prevail in the later works of those who create art or demonstrate it. It is the artist’s revision of his own earlier periods, leading to the full expansion of the techniques previously employed. This revisitation of artistic standards of the past and their combination into a new and coherent whole, more restrained in style, is what I call “spirit of synthesis”.

Origens e Trajetória

Silêncio! Guitarra minha,
Deixa ouvir, deixa cantar,
À branda luz do luar
A virgem que adoro e sigo.
Rumores que ides passando
Pelos roseirais em flor,
Vinde ouvir o meu amor.
Sonhando amores comigo.

Simões Dias

O Fado, como expressão significativa da alma portuguesa, tem sido objeto de estudos os mais diversos quanto à qualidade de aprofundamento. É menos provável a penetração, por musicólogos ligados à universidade em Portugal, na temática que tanto revela conteúdos da raça. Explica o fato a abundante ocorrência, em terras lusitanas, da manifestação da música denominada culta ou erudita, a levar quantidade apreciável de estudiosos a se debruçar sobre uma rica informação que se estende basicamente da Idade Média aos nossos dias.
Quando um musicólogo da dimensão de Rui Vieira Nery detém-se na temática do Fado, está-se diante da avaliação competente, do levantamento histórico-musical pormenorizado e do olhar crítico insofismável. Vieira Nery tem oferecido preciosos contributos à comunidade internacional, revelando e divulgando compositores eruditos conhecidos ou não, e até mesmo anônimos que produziram em Portugal criações à altura do que se conhece em outros países da Europa, assim como observando conteúdos sociais pertinentes à Música como um todo. Escreveu mais recentemente um livro da maior importância para as culturas de nossos dias (Vieira Nery, Rui. Para uma História do Fado. Portugal, Público-Corda Seca, 2004, 301 págs.) A precedê-lo, cuidou da elaboração de 19 textos da preciosa coletânea de 20 CDs publicada pelo diário o Público, penetrando no âmago da imagem sonora do universo do fado desde as origens gravadas (“O Fado do Público”. Lisboa, Público e Corda Seca, 20 CDs, 2004). Essa enciclopédia fadista, que teve publicação hebdomadária, levaria Vieira Nery à precisa sistematização que o tempo estreito exigia. O amálgama foi absoluto. A audição de fados registrados fonograficamente e textos lúcidos do musicólogo estabeleceram a ponte necessária a ser transposta, a fim de que a obra literário-musical a seguir adquirisse o sentido de abrangência, a atender às expectativas do leigo e daqueles que captam de maneira mais contundente a linguagem musical e literária do Fado. A revisão dos textos que acompanham os CDs levou à ampliação da pesquisa sob todos os fundamentos, a tornar Para uma História do Fado em seu formato livro, um marco nesse aprofundamento que se faz necessário em torno do Fado. Este – apesar de mutações naturais – traduz expressões da alma de um povo, genuinamente autênticas, resultando em salvaguarda para o estabelecimento de critérios alentadores.

O caminho escolhido por Vieira Nery tem o olhar acadêmico, sem contudo apresentar as armadilhas de um texto da Academia, invariavelmente freqüentado por aqueles que a ela pertencem. Sem as regras que regem artigos e teses universitárias, dificilmente um candidato encontra o norte representado pela aceitação. Estar na Universidade de Évora e dela ser um expoente, mas entender a amplitude de um tema que, aceito na Instituição, tem, no caso de Para uma História do Fado, destinação mais ampla, é tarefa árdua, a transparecer, paradoxalmente, leveza, conteúdo e esclarecimentos, muitos deles definitivos.
O livro está dividido em sete capítulos. Neles, o autor, a partir daquilo que afirma no prefácio, como o estar ciente da “consciência tranqüila no plano do rigor de fundamentação bibliográfica e documental”, estabelece das origens à contemporaneidade a trajetória do fado. Curiosamente, data de 1822 a primeira menção à palavra Fado com conotação musical, escrita por um geógrafo italiano, Adriano Balbi, que a ele se refere como uma das danças populares “mais comuns e notáveis do Brasil”. Alguns anos após, um capitão francês faria menção à dança em terras brasileiras. Poder-se-ia dizer que os capítulos da obra não sofrem descontinuidade e os aspectos fulcrais referentes ao Fado lá estão inseridos, estrategicamente articulados num sentido harmonioso. Lê-se a importância das danças afro-brasileiras, a penetração do Fado na capital portuguesa, todas as muitas transformações que sofreria o gênero, tanto sob o aspecto da própria estrutura como das ingerências políticas. Vieira Nery percorre o roteiro do Fado, suas “mutações” através da história, dos meios menos cultos ao Teatro de Revista, assim como a prática futura nas casas típicas onde pode ser ouvido. O autor acompanha a recepção pelos meios de divulgação, desde os primórdios. Quanto ao Teatro de Revista, aponta os direcionamentos, a eclosão do Fado em palco com rica coreografia, onde não faltam bailarinos, guitarristas e outros músicos. Pormenoriza também o Fado no cinema e sua aceitação.
Ao longo desse entrelaçamento nos capítulos, ressalte-se a intrigante associação, ou contágio, poder-se-ia acrescentar, das manifestações ideológicas, do olhar atento do Estado frente ao conteúdo das letras. Frise-se que Salazar teria confidenciado ser o Fado deprimente. Após o 25 de Abril de 1974, ideologias diferenciadas e efervescentes têm atuação no gênero como um todo, até o denominado “Novo Fado”. Em sendo o Fado uma categoria musical em que a letra é absolutamente entrelaçada à música, mesmo nos textos mais prosaicos, a possibilidade de mensagem que possa ferir susceptibilidades do establishment é enorme e tem seu preço a depender dos regimes.
Para uma História do Fado é farta e pertinentemente ilustrada. Poder-se-ia dizer que nenhuma das inúmeras ilustrações deixa de ter a sua importância. O olhar corrobora a absorção do discurso de Vieira Nery. O amálgama texto-iconografia encaminha o leitor a uma viagem ao universo do Fado. Frise-se a quantidade extraordinária de músicos e artistas outros que, na pena do autor, adquirem vida e estão a permear essa saga fadista, permanente libelo da alma portuguesa, tão rica em tantos outros gêneros musicais espalhados pelo território lusitano. A vasta bibliografia enriquece o conteúdo da obra, a indicar rumos aos interessados.
É significativa a dedicatória de Rui ao seu pai, Raul, “com carinho e admiração infinitos”. Grande guitarrista que é, transmitiu ao filho ilustre a relação amorosa com o Fado.

The fado is an essential part of the Portuguese soul. This music genre has been minutely and clearly explored in the book “Para uma História do Fado”, written by the musicologist Rui Vieira Nery: its origins, development, modern-day expressions, repertoire, performers, performance setting, influence of political ideologies. An indispensable reading for anyone with a true interest in the Portuguese Fado and its history.