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Jacques Durand (1865-1928)

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Quand l’esprit ne se tourne plus naturellement vers l’avenir,
on est devenu un vieux.

Gustave Flaubert

A leitura de memórias pode apresentar problemas de confiabilidade. Se o autor tergiversa, não é difícil, em determinados segmentos, entender desvios comprometedores. Se, sob outro ângulo, o memorialista espera décadas para iniciar suas lembranças, alterações podem encaminhar o texto para fantasias, até perigosas, a não resistir às comprovações que um dia vêm à superfície. Tantas não foram as memórias escritas que perderam validade na confrontação direta com a veracidade. O equilíbrio estaria reservado àqueles que rememoram, mas acolhem os novos dias.
Há tempos procurava Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique de Jacques Durand. As memórias publicadas em dois volumes, nos anos de 1924 e 1925, foram editadas em Paris pela A. Durand et Fils. Adquiri a obra em um alfarrabista em São Paulo.
Jacques Durand e seu pai, Auguste Durand (1830-1909), foram ilustres empresários e tiveram sólida formação musical. O conhecimento pleno da área amalgamou-se à vocação de editores e ambos pontificaram durante décadas no cenário das publicações musicais em França. Antes do fim do século XIX, Jacques Durand já se integrara às edições e em 1921 passou à direção da Durand & Cie juntamente com Gaston Choisnel e Roger Dommage.
A casa Durand tornar-se-ia referencial, pois seria a editora de autores como Edouard Lalo (1823-1892), Jules Massenet (1842-1912), Camille Saint-Saëns (1835-1921), Claude Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), Paul Dukas (1865-1935) e tantos outros. Deve-se a ela as edições francesas de óperas de Richard Wagner, assim como a edição crítica da obra completa de Jean-Philippe Rameau que teve como diretor preliminar Saint-Saëns. Igualmente à Casa Durand creditam-se três revisões da maior importância para o piano do século XIX: Chopin por Debussy, Mendelssohn por Ravel e Schumann por Gabriel Fauré (1845-1924). Mais tarde, Francis Poulenc (1899-1963), Olivier Messiaen (1908-1992), André Jolivet (1905-1974) et Darius Milhaud (1892-1974) tiveram suas obras editadas pela prestigiosa Durand & Fils.
O interesse maior por Quelques souvenirs… veio da leitura, há muitas décadas, de Lettres de Claude Debussy à Son Éditeur, publicadas em 1927 pela mesma organização. São íntimas essas missivas de Debussy, que se estendem de 1894 a Novembro de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, abordando a criação, o cotidiano, o acompanhamento das revisões, as crises afetivas, o engajamento ideológico, demonstração inequívoca da qualidade do destinatário. Durand participou de muitas apresentações pianísticas, compondo igualmente, tendo sido responsável pela transcrição para piano solo – com o consentimento de Debussy – das célebres Danses Sacrées et Profanes, escritas originalmente para harpa cromática com acompanhamento de orquestra de cordas, fato a testemunhar a competência do memorialista.
Encontra-se nas memórias de Durand uma panorâmica do ambiente sócio-musical do período. O autor perpassa toda a sua vida envolvida com a música e com as edições musicais. Quelques Souvenirs… indica precisamente que a ligação amorosa de Durand com a profissão escolhida resultou não apenas da feitura de publicações esmeradas, como da escolha dos compositores que permaneceriam na história. Se nomes desapareceram no pó das produções menores, contudo personalidades musicais representativas francesas e européias figuraram no amplo catálogo de Durand & Fils.
Os dois volumes encerram preciosidades. Jacques Durand, na introdução já clareia as intenções: “esforçei-me somente em consignar os fatos da melhor maneira que consegui”. Longe de serem memórias supérfluas, comuns no período dos salões freqüentados por artistas, intelectuais, políticos e empresários afamados, as evocações do autor se estendem da infância a alguns anos antes da morte, com acuidade e forte presença do observador atento.
Tem orgulho de uma linhagem que remonta aos tempos de Henrique IV e indica, através da história, ascendentes relevantes. Lembra-se da infância, quando ouvia seu pai organista. Jacques teria aprendido a solfejar antes mesmo de ler o alfabeto. Parte desse período passou em Gent, pois sua mãe era belga. Em Paris, recordar-se-ia do apoio de seu pai editor aos jovens compositores franceses logo após a guerra de 1870. Realizaria sérios estudos no Conservatório de Paris, a aprofundar-se naqueles de piano e de composição. Nas memórias, refere-se às recepções no salon de seus pais, freqüentado por compositores eminentes: Georges Bizet (1838-1875), Edouard Lalo, Saint Saëns, Massenet, Charles Gounod (1818-1893), pormenorizando fatos que ficaram gravados. Jovem, mercê do prestígio de seu pai músico e editor, conheceu pianistas como Anton Rubinsntein (1829-1894) e Hans von Bülow (1830-1894), violinistas como Pablo de Sarasate (1844-1908) e Eugène Ysaÿe (1858-1931), tecendo sempre comentários competentes sobre as extraordinárias interpretações desses ilustres músicos.
São interessantes os relatos de Jacques Durand sobre as récitas nas salas de concerto ou, mais informais, nos salões onde se fazia música. O do grande pianista e professor Louis Diémer (1843-1919) é mencionado com ênfase, pois o mestre quase nunca deixava o banco do piano, acompanhando à perfeição cantores e violinistas ilustres. Preferenciava, quando solista, o repertório escrito originariamente para cravo. Personalidades parisienses importantes da vida cultural, política e social freqüentavam o salon de Diémer.
A recepção das óperas de Richard Wagner é acompanhada com acuidade por Durand. Particulariza os embates comerciais devido aos direitos autorais das composições do músico alemão. Pormenoriza a edição de obras de tantos autores e, através de suas memórias, entende-se o processo de escolha e a negociação dessas edições. A competência musical de Jacques Durand teria sido a responsável pela permanência de muitos compositores de relevo que tiveram suas criações divulgadas.
Abrigou autores das mais diferentes tendências, e sua memória capta com clareza determinados flashes, como a entrada de Maurice Ravel na Casa Durand levando a célebre Sonatina para piano. O encorajamento àqueles merecedores de publicações e os Concerts Durand, por ele criado a fim da promover obras de compositores ilustres ou jovens, dão às Memórias de Jacques Durand o sentido pleno do humanismo e do respeito aos músicos.
Camille Saint-Saëns merece um destaque especial. O pequeno Jacques conheceu-o como freqüentador da casa de seus pais, quando o compositor já era um músico respeitado. Durante toda a vida, Durand teria uma quase “veneração” pela extrema versatilidade de Saint-Saëns como pianista, compositor e músico possuidor de uma memória absolutamente extraordinária, pois, como narra o editor, sabia as óperas conhecidas inteiras de memória, partituras e libretos. A excepcionalidade de Saint-Saëns em tantas áreas, musicais ou não, será objeto de posts futuros, pois trata-se igualmente do primeiro pianista a apresentar-se em vários continentes: Europa, Ásia, África e América.

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Claude Debussy ocupa parte considerável em Quelques Souvenirs… Durand conhece-o em 1884 na classe de composição de Ernest Guiraud (1837-1892) e ratifica a posição de outros biógrafos a respeito da extrema amizade do mestre para com o aluno preferido: “muitas vezes, à noite, eles se encontravam em um pequeno café da rua de La Bruyère; jogavam bilhar e era necessário o fechamento do café para arrancá-los de lá. Depois, uma vez fora, as conversações estéticas continuavam sob a fumaça de seus cigarros, enquanto reconduziam-se mutuamente e de maneira sucessiva a suas moradas respectivas”. Acompanha com felicidade a obtenção do Prix de Rome em 1884, premiação maior do Conservatório de Paris, obtida pelo amigo com a cantata L’Enfant Prodigue, que seria editada pela casa Durand. Relata, à medida em que as memórias fluem, as primeiras apresentações das principais obras de Debussy, verdadeiro testemunho receptivo dessas composições. Aliás, tal procedimento dar-se-ia em relação às produções dos principais autores franceses e do Exterior, em apreciações breves, mas competentes, de Jacques Durand.
Dois outros aspectos concernentes a Debussy mereceriam menções. Comenta os 12 Études para piano, de 1915, e a Sonata para violino e piano, de 1917. Após uma apresentação na Casa Durand, Debussy mostrou-se insatisfeito com o final desta obra. Levou-o de volta e oito dias após entregou uma nova versão, o que motivou Durand a comentar: “Vê-se o quão difícil Debussy se mostrava frente à suas composições, exemplo a ser citado para aqueles, muitos numerosos, que se contentam bem facilmente”. Jacques Durand visitaria Debussy no peristilo de sua morte. Em estado terminal devido a um câncer prolongado e ouvindo o bombardeio a que Paris estava sujeita naquele dia, “disse- me que tudo acabara, e bem sabia que era questão de horas, curtas na verdade. Hélas! Era fato. Diante de minha denegação, fez sinal para que me aproximasse para um abraço; após, pediu-me um cigarro, sua última consolação. Eu sai de sua casa muito perturbado, sem esperanças. Dois dias após, era o fim !…”
Como conclusão de Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique, o autor escreve: “nossos mestres atuais produzem sempre belas obras e eu conheço jovens nos quais devemos depositar as maiores esperanças” a evidenciar um espírito superior afeito à tradição e aberto a novas perspectivas. O ter seguido com acuidade o movimento musical em França e a sua vida pessoal de raro interesse dá às Memórias de Jacques Durand uma importância referencial para a compreensão de período tão extraordinário.

Jacques Durand (1865-1928), the author of “Some Memories of and Editor of Music”, and his father, Auguste Durand, had a solid music education and owned a publishing firm that by the end of the XIXth century was already a landmark in France. The Durand house was responsible for the publication of authors such as Edouard Lalo, Jules Massenet, Camille Saint-Saëns, Claude Debussy, Maurice Ravel, Paul Dukas. It published also the French edition of some of Wagner’s operas, the critical edition of Rameau’s complete works (under the initial direction of Saint-Saëns) and three very important works for piano in the XIXth century: Chopin revised by Debussy; that of Mendelssohn by Maurice Ravel and that of Schumann by Gabriel Fauré. Later on, the works of Francis Poulenc, Olivier Messiaen, André Jolivet and Darius Milhaud were also edited by the prestigious Durand & Fils. The book is interesting because the author was well acquainted with outstanding musicians of his time- – with special emphasis on Camille Saint-Saëns and Debussy – and manages to capture the complexity of the musical, social and political world of fin-de-siècle Paris.

Sobreviver, eis a Questão

São José pensativo. Figura de presépio. Arte popular, terracota, sul de Minas Gerais, década de 70, 14 cm.

Não tiveste na vida um dia escasso
de paz e de alegria ! Escurecida
te foi sempre a existência, desvalida,
e cortada de abismos, passo a passo.

Camilo Castelo Branco

Encontrei uma ex-aluna. Não a via há muitos anos. Estudos na Europa, regresso ao Brasil e hoje dá aulas particulares em Conservatório privado. Perguntada, não apresentou objetivos claros, pois não tem particularmente nenhum projeto musical de interesse. Mantem-se dando aulas, como poderia estar a trabalhar em qualquer outra atividade que a sustentasse, pois indagada sobre se amava a música, disse-me que conseguia ganhar o necessário para “ir levando a vida”, segundo suas palavras. Bonita, contudo ao sorrir transmite no presente disfarçada amargura.
Convidei-a para um rápido café e trocamos algumas frases. Interessava-me saber qual o seu real comprometimento com a música e qual a razão de continuar. Asseverou-me que era a única “coisa” que sabia fazer razoavelmente, ou seja, dar aulas. A uma outra pergunta, relacionada ao tipo de transmissão que passava aos alunos, ponderou que comunicava a eles o que aprendera e procurava, preferencialmente, não criar casos. Tinha sobre o piano um relógio e jamais ultrapassava um minuto sequer do tempo de aula, pois eram muitos os que a aguardavam. Insisti, a procurar saber se, ao menos, estudava um pouco, pois quando minha aluna na década de 80 na Universidade chegou a tocar com certa destreza, sem comprometimento, é certo, mas ao menos executava, nem digo interpretava, o que estava escrito. Rapidamente, disse-me que lia presentemente um movimento de Sonata de Beethoven e mais Noturno e Improviso de Chopin. Você não busca conhecer outras obras? Retrucou, sem entusiasmo, que precisaria ouvir CDs de outros autores, mas que não tem a mínima vontade de fazê-lo, preferindo assistir a filmes na TV a cabo ou ir a um shopping center com o namorado. As leituras se concentravam em revistas semanais. Quando muito, interessou-se por um dos tantos Harry Porter, mas desistiu, porque o livro era muito espesso. Despedimo-nos, pois a ex-aluna teria de tomar o ônibus, a fim de dar as aulas da sobrevivência. O sorriso de adeus refletia ainda mais o enigma do conformismo.
Creio como uma tragédia, existente em enorme quantidade de profissões, a continuação em tarefa que não é amada. Legiões de pessoas descontentes estão a trabalhar em atividades com as quais não têm a mínima ligação. Lembro-me que em 1962, quando em Moscou, disseram-me que apenas era permitido o estudo da música, da dança ou a prática do atletismo àqueles que realmente se mostrassem aptos para o desenvolvimento qualitativo. Cheguei a conhecer miúdos extraordinários, tanto a tocar, como na arte da dança. Logicamente, a União Soviética tinha um regime a privilegiar somente os melhores. Havia sub-repticiamente a necessidade da total exaltação do Regime através dos mais aptos. Propaganda que se tornou motivo de tantas suspeitas fundadas. Apesar de sucessos reais, quantos não foram aqueles que na U.R.S.S. desistiram pelo fato único da pressão intensa a causar diferente categoria de desânimo ou até de desespero. Outros Sistemas totalitários privilegiam igualmente determinadas atividades através de disciplina férrea. E insistem.
Se destacamos situações que podem ser o opposite do exemplo tipificado da ex-aluna, todavia nas atividades ligadas à Música, excluindo-se a dança, pode o “sobrevivente” camuflar durante toda a vida o não compromisso e a não atualização. Geralmente não há cobranças e o infortunado jovem, que inicia os estudos sob orientações desinteressadas, mornas e não competentes, corre o sério risco de trilhar caminhos duvidosos, desestimulantes e entristecedores. Sob aspecto outro, pereniza-se, numa situação como a da mencionada ex-discípula, o precário conhecimento transmitido ao aprendiz, o repertório absolutamente repetitivo, desinteressante, mal tocado e sem a menor possibilidade de ventilação voltada a obras outras. Aliás, neste país do “consagrado”, a simples constatação de intérpretes solo, estes na acepção da palavra, nacionais ou internacionais, está a evidenciar sempre a repetição de um repertório petrificado. Para isso, é só o leitor consultar as programações estampadas nos veículos de comunicação, onde até os próprios executantes são, quase sempre, igualmente repetitivos.
Ficaram-me os nomes dos extraordinários compositores ditos pela ex-aluna sem entusiasmo. Ela estaria a representar o infortúnio exemplar de destinos mal traçados pelas mais diferentes razões. Beethoven e Chopin significariam Débitos e Créditos para um bancário sem afeto pelo trabalho. A origem do vazio que se instala pode ter sido a mesma. Na música, em acréscimo, a expansão do desalento estaria a propiciar, a outras gerações mal formadas e sem a possibilidade do conhecimento, a perenização deturpada apenas de algumas consagradas obras de Beethoven, Chopin e também J.S.Bach, Mozart, Liszt, Schumann, Debussy… , sem o mínimo “tempero”. E em nível de excelência interpretativa, no outro pólo, o músico conhecido por suas notáveis performances técnico-instrumentais continuará o caminho da repetição sem fim, sem oxigenação repertorial, sem igualmente vislumbrar outros horizontes. O público, elo final, espalhará como um pólen amargo a rotina da escuta. E para os casos semelhantes aos da ex-aluna, encontráveis em Conservatórios particulares, ou públicos, e não raramente nas Universidades privadas, ou do governo, sobram as pétalas mirradas de pouquíssimas obras que chegam até a ser cantaroladas e, por extensão, divulgadas por falta de interesse em se conhecer outros caminhos sonoros. Quando essas músicas caem em mãos sem o cérebro amoroso, fenecem como as folhas de inverno. E as sombras chegam.

A reflection on the disillusionment that sets in with people that are frustrated with a work that is not aligned with their interests, but stick to it for sheer economic necessity. In music, this is a tragedy not only for the professional, who will approach music in a repetitive, unmotivated way, but also for the students who may eventually work under such passionless guidance. Unfortunately, it is not always that job and vocation are the same thing.

Programa da Rádio Cultura FM

Paris, 1960. Momento do caminhar

Este breve Interlúdio é um convite para o programa Tema e Variações, tão bem conduzido pelo excelente músico Júlio Medaglia, transmitido pela Rádio Cultura FM – 103.3 MHz. Os visitantes do Blog poderão ouvir a entrevista on line neste próximo Sábado, 5 de Julho, às 11 horas da manhã, clicando aqui.

Causou-me alegria receber telefonema da Rádio Cultura FM, a fim de gravar um programa a convite do eclético e competente Maestro Júlio Medaglia, amigo dileto desde os anos 50. Septuagenário ele também, lembrou-se da efeméride do colega, e prazerosamente com ele gravei entrevista a abordar panoramicamente a minha trajetória. Perguntas sempre inteligentes de Medaglia foram respondidas como se estivesse a sobrevoar o meu passado. Escolhi peças curtas, mas representativas, entre aquelas existentes nos 18 CDs gravados no Exterior. Não inseri o seu Estudo-Choro, pleno de humor, para evitar, mercê da modéstia do ilustre colega, uma negação.

Júlio Medaglia (direita) e J.E.M.

Abre o programa um segmento do Concerto em lá menor de Grieg para piano e orquestra, sob a regência de Armando Belardi, gravado no longínquo 1957 e transmitido ao vivo pela Rádio Gazeta, (vide Impressões Digitais Sonoras, 10/04/07, categoria Música). Após um outro registro ao vivo em Moscou, em 1962, tem-se obras gravadas nestes últimos 13 anos para CDs internacionais. A uma arguta pergunta de Júlio a respeito de qual a minha maior emoção como pianista, frente a públicos os mais diversos em toda a carreira, disse-lhe, extraído de meu de profundis, que foi interpretar Jesus Alegria dos Homens, de J.S.Bach, na milenar capela de Sint-Hilarius, em Mullem, no silêncio e no isolamento, em memória de meu saudoso genro José Rinaldo. Eram cinco horas da manhã de um Fevereiro gélido na planície flamenga no ano de 2004, poucos dias após sua morte e ao final do último dia de gravações de um CD para o selo De Rode Pomp. Solicitei ao querido amigo e engenheiro de som Johan Kennivé que deixasse acesa apenas uma pequena lâmpada incidir tênue claridade. O extraordinário coral de Bach em transcrição de Myra Hess, que poderá ser ouvido novamente, não faz parte de nenhum CD programado, pois insight de emoções vividas, mas ecoou pelos espaços do templo como um apelo singelo (vide José Rinaldo, 25/01/08, categoria Cotidiano).
Trajetórias são como impressões digitais. Nós podemos interferir escolhendo o caminho resultante do que somos na realidade. Todas as trajetórias têm intensidades meritórias ou não. Compete-nos dar sentido à senda traçada.

This is an invitation to my readers to listen to the program “Tema e Variações”, presented by the composer, arranger and conductor Júlio Medaglia on Cultura radio, via FM, 103.3 MHz, to be broadcast on Saturday, 5 July , at 11 AM (Brazil time), celebrating my 70th anniversary.