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Particularidade no Estudar

Peu à peu,
la mémoire m’est cependant revenue.
Ou plutôt je suis revenu à elle,
et j’y ai trouvé le souvenir
qui m’attendait
.
Albert Camus

Frase de Jacques Février, 1959

Durante uma aula em curso da Graduação na Universidade de São Paulo, perguntou-me um aluno: Deve-se estudar lenta ou rapidamente? A questão implicou uma série de considerações que me fizeram retornar aos tempos de alunato.
Em fins de 1958, estava a estudar em Paris com o pianista e professor Jacques Février (1900-1979). O mestre, amigo e intérprete ideal do compositor Francis Poulenc (1899-1963) foi o primeiro pianista francês escolhido por Maurice Ravel (1875-1937) para apresentar o seu Concerto para a mão esquerda na première parisiense. Em uma das aulas escreveu, em vermelho e com letras grandes, frase que seria para mim referência futura. Tanto é que, ao chegar ao Brasil, destaquei a folha, emoldurei-a e coloquei-a em meu estúdio. Nunca trabalhe nem forte nem rápido, mas profundo e relaxado, era a frase em questão. É certo que os arroubos da juventude impelem o jovem à velocidade e ao impacto, mormente se considerarmos que desde o início da metade do século XX, de maneira crescente, houve a proliferação de Concursos de Piano. A concorrência dos jovens, frente ao público e ao júri, estimulou no candidato não só a busca da performance a mais precisa, como a virtuosidade extrema. Ingredientes causadores do choque, do impacto são agregados, sendo pois a frase de Jacques Février um alerta no sentido da procura da Música na partitura o mais amplamente possível. A abusiva quantidade de concursos e de candidatos não representaria nenhuma garantia de sobrevivência dos vencedores, podendo ser até a antecâmara da frustração, quando os holofotes se dirigirem a novos vitoriosos. Não seriam, sob outra égide, determinadas gravações no intuito único de evidenciar habilidades do instrumentista em detrimento do compositor, atração que leva à imitação, um impecilho ao desenvolvimento harmonioso do intérprete?
Ao ler o excelente livro de aforismos do pianista e professor russo Vitaly Margulis (1928-), Bagatelas op.6 (Vila Nova de Famalicão, Quase, 2001, 127 págs.), com acurada tradução, prefácio e notas de Sofia Lourenço, deparei-me com frases não distantes do mestre francês: O pianista inteligente exercita-se em andamento lento, pois ele necessita de algum tempo para reconhecer se atingiu ou não as suas intenções. Alguns pianistas conseguem pensar e exercitar-se com rapidez, mas não os confundam com aqueles que não pensam de todo, e por isso estudam depressa (aforismo 64); guardem sempre uma reserva dinâmica para as últimas notas (af. 199), quanto às grandes intensidades de um final de peça; “Piano” com expressão não quer dizer “forte” (af.197), referindo-se a básicos opostos da intensidade.
O estudar uma obra lentamente conduz à compreensão do todo. Linhas melódicas ou não, processo estrutural, legato, pedal e a conseqüência sonora, acentuações, flexibilização dos andamentos, intensidades e silêncio dimensionam-se. Dessa apreensão resultaria a interpretação musical plena, reflexiva e comunicativa. A virtuosidade submete-se à Música, a ser um meio de transmissão da mensagem. Jean Cocteau já não diria que o virtuose não serve a Música, mas dela se serve? Quando ouço jovens ou não exercitando-se sempre em alta voltagem, frise-se, alta intensidade, a repetirem as passagens sempre da mesma maneira, pois estão apenas a buscar a virtuosidade que pode externar o vazio das idéias, tenho a nítida percepção de uma performance robótica e panfletária. E ela assim será sentida por pequena parcela inteligente do público. Esses executantes pois, que estão a tocar obedecendo critério único, raramente pensam, e a repetição diferenciada na busca de valores musicais não faz parte de suas intenções. Parafraseando François Couperin (1668-1733) em texto de 1713, j’aime beaucoup mieux ce qui me touche, que ce qui me surprend (eu amo muito mais aquilo que me comove àquilo que me surpreende), diria que a permanência de um intérprete na história é prioritariamente musical.
O fato de gostar dos esportes fez-me atento às entrevistas de técnicos das várias categorias esportivas. Inúmeras vezes ouvi-os comentar que, para se apreender bem os movimentos de um atleta, torna-se necessário estudá-los através do slow motion, pois apenas após conhecer sua origem primeira, a contração muscular que se acentua, o olhar a demonstrar intenções, o impulso, pode um especialista ter um diagnóstico preciso da capacitação plena de um esportista. Jean-Philippe Rameau (1683-1764), seguindo princípios cartesianos, já não estudara os movimentos dos cavalos nas cavalariças, ou o canto das fundamentais por um funcionário de teatro em suas atribuições de rotina, a fim de deduzir e formular suas teorias? O gesto adequado e o lento podem estar sendo esquecidos nesse mundo atribulado. Buscam-se recordes nos esportes. Estão a ser quebrados cotidianamente. O contágio torna-se natural nas outras atividades, mercê igualmente do massacre diário da mídia, que sobrevive à custa do impacto.
Voltemos à performance. Andamentos rápidos ou mais rápidos estão assinalados e devem ser obedecidos. O grande pianista Émile Sauer (1862-1942), em visão totalizante, afirmaria, a evidenciar reverência: Quando eu começo o estudo de uma obra, tenho primeiramente o chapéu em minha mão. Estudar lenta e profundamente deveria servir a reflexões dos mais jovens. Entender que as altas intensidades merecem ouvidos atentos, que os grandes crescendos nascem basicamente das baixas intensidades e que necessitam ser entendidos em degraus ou camadas, sem esquecer as notas graves, como observaria Gabriel Fauré (1845-1924): A nous les basses. E o estudar lentamente tem dois grandes compositores do passado a precederem a frase de Jacques Février, mencionada no início deste post. Saint-Saëns (1835-1921) diria: Trabalhe lentamente, após mais lentamente e a seguir ainda mais lentamente. E o compositor foi um dos maiores pianistas virtuoses da história. A Franz Liszt (1811-1886), outro fenômeno técnico-pianístico, é atribuída a observação: Eu não sei suficientemente bem esta obra para poder tocá-la lentamente.
Dias após, aquele aluno me procurou e afirmou sorrindo: Professor, como é difícil tocar lenta e profundamente. A semente parece ter caído em terra fértil.

On how an advice from the great French pianist and teacher Jacques Février led me to reflections on the various aspects involved in piano practice and performance: the importance of practicing at a slow tempo, of being faithful to the composer’s performing indications marked on the score and of tempering technique with a thoughtful interpretation.

A Interpretação Inefável

Jean Doyen

Aujourd’hui je n’ai pas su résister à l’appel
de ces visions que je voyais flotter, à mi-profondeur,
dans la transparence de ma pensée.

Marcel Proust

The reward of a thing well done is to have done it.
Ralph Waldo Emerson

Muitos dos mais importantes pianistas do século XX foram franceses e tiveram a formação no país de origem, pois a França se notabilizou igualmente pela quantidade expressiva de grandes professores, a maior parte, diga-se, pianistas relevantes. Se considerarmos que há lacunas quando se faz uma listagem, nomear alguns desses intérpretes excepcionais, já desaparecidos, é a evidência da tradição enraizada desde o século XIX. Marguerite Long (1874-1966), Blanche Selva (1884-1942), Alfred Cortot, nascido na Suíça, mas considerado francês (1877-1962), Yves Nat (1890-1956), Marcelle Meyer (1897-1958) (vide post Marcelle Meyer), Yvonne Lefébure (1898-1986), Robert Casadesus (1899-1972), Jacques Février (1900-1979), Vlado Perlemuter, naturalizado francês (1904-2002), Jeanne-Marie Darré (1905-1999), Jean Doyen (1907-1982) (vide www.musimem.com, seção “Biographies”), Lelia Gousseau (1909-1997), Monique Hass (1909-1987), Monique de la Bruchollerie (1915-1972), Ginette Doyen (1921-2002), Samson François (1924-1970) e tantos outros testemunharam, ao longo de trajetórias substantivas, a qualidade da interpretação pianística em França.
Neste ano comemora-se o centenário de Jean Doyen. Já aos nove anos de idade entra para o Conservatório de Paris, onde, entre seus principais professores, teve a orientação pianística dos lendários Louis Diémer e Marguerite Long. Em 1922, recebe o primeiro prêmio dessa Instituição de Ensino, iniciando carreira como pianista três anos após. Tendo realizado paralelamente cursos de composição, recebeu em 1937 o prêmio Gabriel Fauré. Ao suceder Marguerite Long como professor de piano no Conservatório de Paris, permanece no Estabelecimento de 1941 a 1977.
Possivelmente Jean Doyen tenha sido um dos pianistas de maior repertório no século XX. Vladimir Horowitz tinha admiração pelo intérprete. Apresentou integrais dos principais compositores sacralizados e também redescobriu e apresentou em première: Variações sobre um tema de Don Juan, de Chopin, Fantaisie sur un vieil air de ronde française, de Vincent d’Indy, Trois Dances, de Samazeuilh, e muitas outras obras. A atividade pedagógica intensa levou-o a orientar legião de pianistas, entre os quais Marie Thérèze Fourneau, Philippe Entremont, Claude Kahn, Artur Moreira Lima. Como professor, sempre respeitou a personalidade de seus discípulos e seu gosto pessoal – não imposto – era, contudo, apreendido naturalmente por seus alunos. Só não fazia concessões quanto ao rigor estilístico das obras em estudo. Sob outra égide, a índole não voltada aos holofotes tenha, possivelmente, distanciado-o da mídia voraz. Apesar da freqüência das apresentações, sobretudo na França, não houve por parte do pianista a atração pela chamada grande carreira internacional. Porém, suas gravações atestam inalienável qualidade interpretativa, onde profundo refinamento e absoluta compreensão estilística dão, aos registros que ficaram, plena noção das características essenciais de sua execução. Clareza, uso econômico de pedalização, sentido natural da agógica (flexibilização nos andamentos) na excelência de seu emprego tornaram ímpares as suas fixações sonoras. Intérprete da tríade essencial da música francesa do período, representada por Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, sua gravação da integral para piano de Fauré (Erato-Le Piano Français) reflete o que se poderia entender como uma leitura absoluta, verdadeiro modelo para os pósteros. Nenhum exagero. A virtuosidade, quando presente, apresenta-se como um meio apenas, e os tempi por Doyen eleitos estariam sempre a traduzir a inefabilidade do conteúdo faureano. Se a sua interpretação revela um estilo definido, poder-se-ia acrescentar que não há desvio arbitrário a agradar parcela do público, mas que conduziria à possível distorção.
Em meados de 1959, eu estudava sob a orientação de Marguerite Long e Jacques Février. Solicitei à extraordinária professora a mudança do “professor assistente” e a mestra indicou-me Jean Doyen. Poderia assegurar ter tido a maior empatia com o grande pianista e professor. Foram três anos em que não houve o mínimo desentendimento. As aulas eram dadas em sua residência e sempre em uma sala com dois pianos, pois o mestre exemplificava todas as suas intenções executando de maneira absoluta qualquer passagem, fosse ela a mais complexa. A cada semana recebia aula de Marguerite Long ou de Jean Doyen, alternadamente. Uma obra de grande fôlego tinha de ser preparada e memorizada quinzenalmente. Esse tour de force obrigava-me, por vezes, a 10 horas de estudos diariamente. Sem jamais ultrapassar os limites do bom entendimento, o professor explicava com nitidez todos os aspectos estruturais da obra e, sob o prisma da praticidade, tinha sempre o dedilhado adequado para as passagens mais complexas. Se pedia ao mestre interpretar a obra que o jovem aluno de então estava a estudar, com prazer a obra fluía de seus dedos, e sempre de cor. Recordo-me de duas perguntas a ele feitas e das respostas sem qualquer empáfia. A uma primeira, relacionada ao número de concertos para piano e orquestra que apresentara, respondeu-me que foram cerca de 60. A uma segunda, sobre sua prodigiosa memória, disse-me que por várias vezes aprendera, durante viagem de trem, determinada peça desconhecida para ele até então, a fim de tocá-la de cor em um recital já programado, ou seja, sua experiência se daria durante a apresentação. Os extraordinário Walter Gieseking e Claudio Arrau, basicamente coetâneos, tiveram igualmente esse dom raro. Estou a me lembrar de que um dia levei a Jean Doyen a Tocata, de Camargo Guarnieri, pois teria de dar um recital de música brasileira. Antes que eu a executasse, pediu a partitura, leu-a em pé em poucos segundos, sentou-se ao piano e a interpretou impecavelmente no andamento proposto pelo compositor, obedecendo a todos os sinais da dinâmica, da articulação e da agógica. Atônito, eu apenas virava as páginas. Ao finalizar, sorriu e disse com a maior naturalidade: “C’est amusant. Assez difficile. Un beau morceau”.
Nesse período, com ele estudou o colega e amigo Moreira Lima, que o admirava igualmente. Lembrávamos constantemente de uma frase do mestre, quando este sentia um toque mais superficial: “Enfoncez vos doigts”. Como explicava Jean Doyen, o som tem que ter vida, mesmo nas passagens em baixíssimas intensidades.
Ficaria sempre a imagem do grande músico. A ele devo imenso tributo, graças à competente didática pianística e ao estímulo. Seria possível entendê-lo na abrangência, através da relação que Jean Doyen mantinha com a vida, onde os espaços estavam solidamente estruturados: do pianista, do professor, da família constituída de mulher e filha, todos em plena harmonia. Amálgama completo. Geneviève (1944-2004) seguiria os passos de seu pai, ao tornar-se pianista e, sobretudo, professora.
Em Tempo de Concerto da USP-FM, 97.3, (www.radio.usp.br), no programa Idéia, Criação e Interpretação, estarei a apresentar a integral para piano solo de Gabriel Fauré, assim como a Ballade para piano e orquestra interpretadas por Jean Doyen. A programação se estenderá de Setembro até as duas primeiras semanas de Outubro, sempre às terças-feiras às 22 horas. Futuramente, apresentaremos obras para piano solo e os Concertos para piano e orquestra de Maurice Ravel, as Variações Sinfônicas de Cesar Franck e as Valsas de Chopin, em versões inefáveis de Jean Doyen.

In 2007 we celebrate the birth centennial of Jean Doyen (1907-1982), who ranks amongst the greatest keyboard virtuosi of the XXth century in France. He taught at the Paris Conservatoire and also gave private piano lessons, forming a multitude of pianists, myself included. With a prodigious memory, he had an extensive repertoire, encompassing sacralized composers and contemporary ones as well. His recordings testify to the excellence of his performance: clear, elegant playing, subtle use of pedals, sense of agogics and a style of his own, with no need of over-playing that, though well received by the audience, may lead to distortions. Unpretentious, accessible, not a bit showy, Jean Doyen has not received from the media the recognition that a performer with his accomplishments would deserve. An outstanding pianist, teacher and man, I consider his recordings as jewels that all music-lovers should know.

Em torno de um Centenário (II)

Mon existence d’ailleurs n’est pas drôle.
Les affaires ne se raccommodent point, au contraire.
La résignation est venue; mais par moments elle
a des absences, et alors je rumine amèrement le passé
et je songe à la crevaison. Puis je me remets à la pioche.

Gustave Flaubert (carta a Ivan Tourgueneff)

Escritos de Camargo Guarnieri a J.E.M. - anos 60

Esse período parisiense enriquecedor teria, como conseqüência, seis cartas do compositor a mim dirigidas, cartão postal enviado de Washington e carta ao ilustre músico da então União Soviética, Aram Katchaturian, tendo sido eu o portador quando de viagem a Moscou em Abril de 1962. Trechos mereceriam ser citados, mas a publicação das missivas na íntegra não se torna possível, pois envolvem personagens ainda vivos. Fica contudo evidente o estilo coloquial do compositor e seu desejo de ajudar e encorajar o jovem estudante.
Villa-Lobos falecera recentemente, no final de 1959, e estudava eu algumas obras para uma apresentação comemorativa. Entre elas, Chôro nº 5, Alma Brasileira. Ouvindo-me, imaginou criar pequena obra in memoriam. Surgiria Homenagem a Villa-Lobos, mais tarde integrando o caderno de Improvisos. Em carta de 2 de Abril de 1960, Guarnieri me escreveria: “ A ‘Homenagem a Villa-Lobos’ já terminei. Estou lhe mandando uma cópia, com os Ponteios. Fiquei contente com essa obra. Vamos ver se você gosta do trabalho, assim tocará bem.” Na mesma missiva, pede-me para entrar em contacto com nossa amiga comum, a notável pianista grega Vasso Devetsi: “ Diga, por favor, à Vasso que já comecei a copiar o ‘Concertino’. Assim que estiver pronta, mandarei uma cópia que prometi a ela.” Sobre Kleusa de Pennaforte, observaria: “ O concerto em Milão foi um sucesso. A Kleusa cantou como um anjo. Foi um prazer. Ela já está em Paris? Escreva-me contando. A Kleusa é uma das cantoras mais inteligentes que conheci em toda a minha vida.” E conclui: “ Lembro-me sempre daí com saudades. Agora, estou aqui, não adianta viver Paris…”.
Na carta de 16 de Maio, comenta: “Recebi hoje uma deliciosa carta da Vasso! Ela é mesmo um encanto. Fala muito de você e com entusiasmo!” Mostrando uma outra faceta, a de ter amizade por pessoas das mais variadas condições, escreve: “ Mande-me o nome certo do ‘concierge’. Vou lhe fazer uma surpresa mandando selos da inauguração de Brasília. Não diga nada a ele.” Nessa, e na carta de 21 de Junho, trata da documentação visando a uma bolsa, que por fim consegue através do Ministro da Educação Clóvis Salgado, de quem era assessor musical: “Sua bolsa já foi autorizada pelo Ministro. Você já é bolsista. Aproveite o mais que puder.” E o cansaço por obra finda: “Minha vida está mal, mal, muito mal. Única coisa que me consola é o trabalho. Terminei minha obra para o concurso Ricordi. Ontem acabei a orquestração. Não tenho feito outra coisa: trabalho, trabalho sem parar. Escrevi a obra em um mês e quatro dias. É tempo recorde, não acha? É o meu meio lucrativo. O resto vai mal, muito mal.”
Aos 24 de Outubro, outra carta, acusando o recebimento da minha, datada de 28 do mês anterior: “ O seu silêncio me fez pensar numa viagem estratosférica ou interplanetária, mas agora vejo que você continua entre os viventes desta pobre terra…”. Sobre sua produção: “Atualmente estou trabalhando na minha 4ª Sinfonia. Espero terminá-la até o fim deste ano. Aquilo que já escrevi agrada-me! Espero continuar com o mesmo fôlego.” Pede-me comunicar à Kleusa preparar a “Sêca” e os “Três Poemas Afro-Brasileiros” pois, se for à Paris para dirigir a Orquestra da Rádio Difusão Francesa, gostaria de tê-la como solista.
A bolsa comunicada na missiva de Junho só seria oficializada no ano seguinte, como afirma na longa carta de Janeiro de 1961. Nesta, tece comentários sobre a endemia político-cultural brasileira que, infelizmente, não tem até hoje vacina confiável: “Deveria estar com as malas prontas para a França, pois teria concerto com a Orquestra da Rádio Difusão Francesa, no dia 2 de Fevereiro. Tive que adiar porque não consegui que o Ministério das Relações Exteriores me pagasse as viagens ida e volta. Se eu fosse jogador de futebol então tudo seria mais fácil! Héllas!”. Desenvolve o tema em outro segmento: “Estamos num período de esportes. Só se fala em boxe, tênis e outras maneiras de desenvolver os músculos dos braços e das pernas. Para o cérebro ainda não se pensou quase nada. É uma lástima ! Mais é verdade.” Acusa o recebimento de outra carta de Vasso Devetzi, em que a pianista faz elogios ao jovem estudante e, logo após, comenta: “…ter sido eleito, por unanimidade de sua Congregação, Diretor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Confesso que não queria aceitar pois bem sabia o trabalho estafante que teria. Enfim, todos queriam e eu cedi. Aquilo está uma verdadeira bagunça. Tenho trabalhado como louco. Imagine que aquela escola esteve 13 anos sob intervenção judicial. Foram 13 anos de completo abandono. Agora estamos tratando de federalizá-lo. Já conseguimos que o Juscelino mandasse uma mensagem à Câmara Federal, por isso estamos muito esperançosos que logo São Paulo terá uma escola à altura de seu progresso.”
Na última carta, datada de 10 de Agosto de 1961, Guarnieri, inicialmente comunica que regressara de viagem: “Estive nos Estados Unidos, de onde lhe escrevi. Quando voltei, me casei, e assim é que estou muito feliz…” Como sempre, estimula-me a continuar os estudos com afinco: “ Soube, pelo Sequeira Costa, que há dias me escreveu, do resultado do Concurso Marguerite Long. Você não deve esmorecer. Continue estudando e progredindo, isto é o importante. Você é um pianista de grande talento, que pela inteligência e honestidade de trabalho atingirá o alvo desejado. O fato de não ganhar um primeiro prêmio não é razão para esmorecer. Quando mais não seja, um concurso sempre traz progressos, isso pelo esforço que se faz pelo desejo de vencer. O Sequeira Costa me diz que o aconselhou a ficar mais tempo na Europa. Ele tem toda razão.”
Aos 15 de Março de 1962, Guarnieri escreve uma carta de recomendação ao ilustre compositor Aaran Katchaturian, entregue em Abril. Em Junho retornava ao Brasil e nossos contactos continuaram durante alguns anos, tornando-se mais esporádicos devido a muitas razões, até comuns para nós dois: trabalho intenso, família com crianças para criar.
A convite de Camargo Guarnieri, toquei sob sua direção, à frente da Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP), o Concerto para teclado de Carlos Seixas, nos dias 17 e 19 de Março de 1983. Em 1985, fiz um convite a Guarnieri para que escrevesse uma obra para piano em homenagem ao grande compositor romântico brasileiro Henrique Oswald, destinada a um caderno a abrigar oito composições de autores de valor e editado posteriormente pela Universidade de São Paulo. Aceitou com prazer e compôs uma bela peça, Momento nº 7. Outras poucas vezes estive em seu estúdio à Rua Pamplona. Em fins de 1992, a Universidade prestou uma homenagem a Camargo Guarnieri. Alunos e professores tocaram algumas de suas obras. No peristilo da morte, que ocorreria no ínício de 1993, o músico ficou muito comovido. Poucos anos após, sua viúva, Vera Sílvia Guarnieri, num ato de generosidade e grandeza, doou todo o acervo do grande compositor à Universidade de São Paulo, pois ele fora durante muitos anos regente titular da OSUSP. Todo esse preciosíssimo material está hoje depositado no Instituto de Estudos Brasileiros, IEB, no campus da Cidade Universitária. De minha parte, enquanto estive mais ligado a um dos programas de Pós-Graduação da USP, fui orientador de três dissertações de mestrado e uma tese de doutorado dedicadas à obra de Camargo Guarnieri. Uma das dissertações, praticamente estruturada, ficou inconclusa com o falecimento da orientanda e boa intérprete da obra do compositor, a pianista Cynthia Priolli.

Camargo Guarnieri, anos 50 - foto: José da Silva Martins

Esse é um simples tributo a um dos mais importantes vultos da Cultura Brasileira de todos os tempos, com quem tive o privilégio de contactos tão marcantes em período fundamental de nossas vidas.


These articles are a tribute to the outstanding Brazilian composer and conductor Camargo Guarnieri in the year of his birth centennial. I recollect his friendship with my parents, the music lessons he gave to my brother and I at his home in São Paulo, the period we shared the same apartment in Paris, when I was there for advanced studies with Marguerite Long and Jean Doyen, and the many letters we exchanged after his return to Brazil.