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Questão de Estilo

ESMAE/IPP

Retornei à bela cidade do Porto para a segunda sessão do 1º Concurso, a nível nacional, de provas públicas para provimento de uma vaga de Professor Coordenador do quadro da Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto, para a área científica de Música, na especialidade de Piano. Foi a primeira vez em Portugal que houve Concurso para essa finalidade.
As primeiras reuniões deram-se em fins de Maio, quando estava eu em Portugal para recitais em várias cidades, constando minhas observações das Impressões de Viagem deste blog. As reuniões posteriores foram agendadas para a primeira semana de Julho em sua integralidade. Ponderações mereceriam comentários, a fim de que compreendamos outro estilo de procedimento, um olhar diferenciado sobre este ritual da vida acadêmica.
A Escola teve o cuidado de convidar professores pianistas desconhecedores dos seis candidatos inscritos, assim como professora de área teórico-musical de outra Instituição de Ensino em Portugal. Uma das características essenciais era a experiência internacional dos inscritos: teses, apresentações artísticas, textos publicados com inserções em Portugal e fora de suas fronteiras. Só essa constante já estava a apontar qualidade dos candidatos. Logicamente, diferenças havia, mas foi inegável o nível de um Concurso visando apenas a um cargo. Com a desistência de um dos candidatos, tivemos pois cinco concorrentes. Aulas teóricas e práticas, recital dos competidores, análise dos currículos, o fato é que o desiderato precípuo esteve sempre a apontar preocupação única pela qualidade daquele que deveria ocupar o cargo. Apesar da dificuldade em escolher o candidato, pois realmente os dons diferenciados dos pianistas professores foram uma surpresa, na apuração verificou-se um consenso quanto à vencedora. A preferência recaiu sobre a pianista e professora Madalena Soveral, de longa trajetória como intérprete em Portugal e em outros países, mormente na interpretação de autores referenciais da música contemporânea.
Ficou-me a nítida certeza de uma total isenção quanto à escolha do futuro Coordenador para a área específica de Piano. Esse desconhecimento prévio dos candidatos, por parte dos membros pianistas do júri, razão transparente da comissão organizadora e do Presidente do Concurso, o Professor Fernando Beja, de outra área que não a Música e impecável na condução do processo, deu consistência fundamental ao todo desse Concurso histórico em Portugal. Entre os membros, tive o grato prazer de rever meu colega de longa data, pianista e professor Caio Pagano, assim como a Professora Elisa Lessa, Diretora do Departamento de Música da Universidade do Minho. Sob égide outra, o comprometimento do Instituto, no sentido de custear passagens aéreas e outras despesas num Concurso em duas etapas, evidencia o rigor em relação ao objetivo almejado, exemplo a ser seguido.

Considerations regarding my experience as member of a hiring committee for the selection of a coordinator of piano teachers at ESMAE/IPP (School of Music and Performing Arts of the Porto Polytechnic Institute).

J.E.M. em 1954, desenho de Iracy

    Reencontro com o passado

On met toute sa vie pour construire sa maison
Dunoyer de Segonzac

The Child is father of the Man
William Wordsworth

Em 1998, ao ser lançado o CD 60, relativo à minha chegada ao compartimento sexagenário, escrevia no encarte: As gravações presentes pertencem a fluxos diversos. Outras anteriores, da década de 50, meu pai as guardara, mas o tempo se encarregou de destruí-las. As de 1962, ao vivo, na sala do Conservatório Tchaikowsky, bem registradas pela Rádio Central de Moscou, revelam muitos conteúdos idiomáticos, absolutamente individuais e inalienáveis que, modificados ao longo da trajetória, fazem parte da própria respiração. Apesar do distanciamento de 36 anos das gravações de 1962, antolhava-se-me transparente que o resultado pianístico ficara por conta dos estudos realizados durante alguns anos em França sob a orientação de Marguerite Long, Jacques Février e Jean Doyen. Feliz pela recuperação dessa parte da memória, frustrava-me a perda dos traços que, de meu passado mais remoto, pudessem explicar as origens pianísticas antes da viagem à Europa, no longínquo 1958.
Durante muitos anos fiquei a pensar em como me desenvolvera em São Paulo sob a tutela segura de um dos maiores professores de piano que o Brasil conheceu, José Kliass, quase esquecido hoje, mercê de tantas razões que vão da aversão aos holofotes por parte do grande mestre russo ao total desinteresse da mídia em resgatar aquele cujo resgate não venha precedido de interesses vários. O professor nascido em Odessa, às margens do Mar Negro, orientou Yara Bernette, Estelinha Epstein, Bernardo Segall, Anna Stella Schic, Belkiss Carneiro de Mendonça, Glacy Antunes de Oliveira, Isabel Mourão no início de seus estudos, Ney Salgado e meu irmão, João Carlos Martins, que lhe rende tributo em todas as suas apresentações, outrora como grande intérprete de J.S.Bach, hoje como regente que se consolida a cada dia. Esse currículo torna Kliass basicamente único pela qualidade e quantidade de pianistas formados, comparável, certamente, ao extraordinário Luigi Chiafarelli das primeiras décadas do século XX. José Kliass, que estudara com Martin Krause, o mesmo professor de Cláudio Arrau, tinha uma visão humanística ampla. Das mãos dele recebi livros que me foram faróis para o caminho que se iniciava. O mestre questionava sempre o resultado das leituras, e isso me foi fundamental. Contudo, faltavam-me os registros sonoros das audições do professor de que participei, assim como de outras apresentações daquele período.
Qual não foi o meu espanto ao receber das mãos de minha mulher, a pianista Regina Normanha Martins, um rolo de fita contendo gravações que remontam ao ano de 1954 e que imaginava destruídas. Porém, minha sogra, a respeitada professora de piano campineira Olga Rizzardo Normanha, guardara-o com afeto, escondido entre tantos outros objetos amorosos, pois naquele meu pai inserira igualmente gravações de Regina. Frise-se, a professora exerceu o magistério à frente do Conservatório Musical Campinas com uma dignidade ímpar, e no seu vasto currículo, teve como alunos Sônia Rubinsky, que testemunha perenemente a infinita gratidão à grande mestra, Cláudio Richerme e Elisabeth Normanha Atristain, esta divulgando há décadas a música brasileira no México. Alguns alunos particulares se destacaram, inclusive, em outras áreas, como as atrizes Regina Duarte e Maitê Proença e a publicitária Christina Carvalho Pinto.
Essa pequena digressão se fez necessária, a mostrar que todos nós, intérpretes brasileiros atuantes, tivemos origem sólida, muitas vezes esquecida, a imaginar pelas notas biográficas de certos músicos, através das quais entende-se que os estudos no Brasil se deram simplesmente pelo autodidatismo. A referência aos magisters que nos ajudaram é o tributo essencial àqueles que nos conduziram com firmeza e carinho.
O velho rolo de fita em questão, contendo 4 horas e meia de gravações, que remontam a 1954, teve de ser desumidificado, durante semanas, pelo experiente Betho Ieesus da Sun Trip e, após, seguiu-se difícil trabalho de resgate – a fita se rompia a cada dois ou três minutos – realizado pelo competente Sebastião Marciano da USP-FM, que para fazer a fita rolar teve de contar com um antigo aparelho particular cedido gentilmente pelo Diretor da Emissora Universitária, Marcelo Bittencourt. Aos três aqui fica meu agradecimento pela generosidade com que acederam em contribuir à causa. Aliás, meu pai já alertava no ano de 1962, em notas coladas à caixa protetora da fita, sobre os extremos cuidados a serem tomados, graças à compressão. Felizmente, os rolos contendo as gravações, algumas excepcionais, de João Carlos já estavam preservados e parte delas integra CDs e DVDs internacionais de meu irmão.
O resgate veio em dose dupla. Nessa fita, gravada pois em baixíssima rotação, tínhamos horas de gravações – muitos dos registros impróprios para divulgação comercial devido a décadas de precária conservação – suficientes para entendermos a origem originária, o nosso “DNA” musical. Há gravações de Regina Normanha realizadas durante o Concurso Eldorado de 1961, quando foi premiada, e através das quais – alguns competentes amigos músicos já ouviram os resultados – tem-se uma Sonata Waldstein, ou Aurora, op 53 de Beethoven, precisa e com exemplar rigor estilístico, assim como obras de Chopin, Francisco Mignone e J.S.Bach. Depreende-se a orientação competente de sua genitora, Olga Normanha.
Como aquele que não se lembra do passado e busca entendê-lo, pois “aparentemente” perdido, faltava-me, ratifico, esse resgate auditivo que pudesse me apontar o estágio em que me encontrava antes de atravessar o oceano. Havia críticas, comentários, cartas animadoras desse período escritas por Alfred Cortot, Felicja Blumental, Antonieta Rudge, Camargo Guarnieri, Guiomar Novaes e outros, mas o som, a essência do processo interpretativo, esse ficara no esquecimento. Compreenda-se que estávamos há cerca de quatro décadas dos primeiros registros fonográficos, efetuados em torno de 1910 e, de lá para a atualidade, temos mais de cinqüenta anos de um aperfeiçoamento extraordinário quanto às gravações. Estou a lembrar-me dos primeiros registros de meu pai, utilizando-se de pequenos rolos de fio metálico que gravavam com precária acuidade sonora. Nas audições em que João Carlos e eu nos apresentávamos, lá estava o pater a montar a pesada aparelhagem. Hoje, todo jovem intérprete tem acesso aos mais apurados e, frise-se, diminutos aparelhos, que tudo gravam digitalmente.
Qual não foi o meu espanto e emoção, ao ouvir cerca de quatro horas de música que gravara no Brasil entre 1954-58, e outras músicas em França, nas quais pude me reencontrar e entender determinadas preferências que me acompanham até hoje, mais de meio século após. Há as gravações realizadas na Rádio Roquette Pinto do Rio de Janeiro aos 30 de Setembro de 1955 com obras de Bach, Schubert, Debussy, Camargo Guarnieri e mais outros. No final da gravação eu cito a Rádio e a data dos registros. Quanto ao Concerto de Grieg, apresentado ao vivo na Rádio Gazeta no dia 25 de Fevereiro de 1957, sob a regência do sempre lembrado Armando Belardi, o locutor Cesar Abrahão anuncia ao público que o jovem estava a dedicar o concerto ao seu pai, naquele momento em um leito de hospital. Soube que, após ouvir o Concerto de Grieg, foi ele foi sedado para uma dificílima intervenção que se deu nas primeiras horas do dia seguinte. Lembro-me de ter ficado muito emocionado ao começar a execução, que transcorreu a seguir lírica e impetuosa. Felizmente, meu velho patriarca viveria até 102 anos. Há na fita a 5ª Partita de Bach, precedida de longos comentários meus a respeito da obra, isso em 1954; duas Sonatas de Mozart (K.331 e 333) e mais obras de Schubert, Chopin (Estudos op.10 nº7 e op.25 nº10, Sonata em si bemol menor op. 35), Schumann (Carnaval de Viena op.26), Debussy (Images 1º cahier), Scriabine, Ravel (Toccata), Villa-Lobos, Camargo Guarnieri (Tocata e Dança Negra), Prokofiev (Sonata nº5), Shostakovich (Prelúdios op.34), Cláudio Santoro. Completam o longo registro gravações curtas que realizara em Paris num aparelho onde colocava pequenos rolos de fita de uns 8 cm de diâmetro. Enviava minhas saudações à família em São Paulo e tentava mostrar progressos pianísticos. Comentava sempre as minhas participações nas audições públicas da lendária pianista e professora Marguerite Long, assim como suas observações a respeito dessas apresentações. Numa época em que as comunicações eram raríssimas e difíceis, esse recurso das fitas gravadas funcionava bem. Meu pai, memorialista por vocação, tudo guardou de seus quatro filhos, a proporcionar aos descendentes, tantas décadas após, a recuperação da infância e da juventude.
A escuta causou-nos forte impressão. Regina e eu ratificávamos a certeza da qualidade de nossas formações. Estávamos a ouvir desarmados, se bem que o emotivo lá estava, pois impossível não se comprometer com aqueles dois jovens distantes de pelo menos duas gerações. Não obstante, havia uma sólida estrutura advinda de nossos mestres. Para ela, o impacto se mostraria atenuado, pois há gravações de Regina que guardamos com afeto – a todos causa efeito surpreendente – da Suíte Inglesa nº 2 em lá menor de J.S.Bach realizada aos doze anos no Junior Bach Festival em Berkeley, Califórnia e, aos quinze anos, do Concerto nº 3 em dó menor de Beethoven, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho. O seu “DNA” já estava auditivamente preservado.
Após horas ouvindo o material “recuperado” pois, ratifique-se que há inúmeros problemas quanto à conservação de certos segmentos, fiquei durante muito tempo a pensar. Resultou a convicção de sermos o acúmulo de nós mesmos, algo nebuloso para mim quanto à origem sonora, até o desvelamento agora ocorrido. Nesses registros, algumas entonações são as mesmas das de hoje; quando estou a tocar, nesse meio século a separar o presente, alguns princípios básicos interpretativos já faziam parte desse idiomático inefável e misterioso, fruto de outros acúmulos. Ficaria a certeza de que a visão do mundo transmitida pelos meus pais, no sentido de se buscar, no limite, a maior abrangência cultural, e a formação pianística sólida recebida por José Kliass estão sempre a me conduzir às fronteiras do meu possível. Todos temos nossos limites e dimensões do gênio, do talento ou do artesão digno apenas ajudam a explicar o homem. Se algum talento recebi, é contudo o trabalho artesão que me tem proporcionado o prazer da caminhada.
Não distante de mais uma década, a ser completada em 2008, ouvir aquele jovem tocar nos anos cinqüenta levou-me a ter por ele uma enorme gratidão. Foi a determinação daqueles passos primeiros, guiada por tantas mãos carinhosas, que me conduziram a esse perene afeto para com o piano e a Música. Já não seria uma dádiva continuar a trilhar a longa senda nessa busca inatingível?

The retrieval of the past: the recovering of a lost reel containing recordings made by my wife and me in the fifties, when we were both piano students, led me a reflection on the importance of the guidance and the encouragement I have received from my parents and music teachers, on the significance of an environment that nurtures the love of learning and to precious clues to a better understanding of the pianist and the man that – within my limits – I am today.

    Sonatas Bíblicas*

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E o que dizer dos habituais ouvintes
de nossas salas de concerto?
O seu rancor à mudança é realmente surpreendente !
Os seus cérebros obscurecidos não registram
senão certas combinações sonoras, exceção a todas as outras.

Olivier Messiaen

Nascido na Alemanha, Johann Kuhnau (1660-1722) foi um dos mais importantes músicos de seu tempo. Compositor, organista, regente, jurista e escritor, Kuhnau conhecia várias línguas antigas e modernas, tendo, em acréscimo, conhecimentos aprofundados de matemática. Defendeu tese de Direito, tornando-se advogado. Escreveu um romance satírico: Der musicalische Quacksalber (O Músico Charlatão). Ao obter o posto de organista na Igreja de São Tomás, em 1684, instala-se definitivamente em Leipzig, dedicando-se, doravante, quase que inteiramente à música. Em 1701, torna-se Kantor da Igreja, cargo que manteria até a sua morte. Escreveu inúmeras Cantatas e Motetos, assim como obra para teclado.
Johann Kuhnau colocaria a serviço da composição todo um precioso acervo cultural enciclopédico adquirido através de décadas. Após sua morte, J.S.Bach iria sucedê-lo em 1722 como Kantor da Thomaskirche, ou Igreja de São Tomás, em Leipzig, e continuaria a lembrar-se de muitos procedimentos composicionais de seu predecessor. Bach inspira-se em título anterior de Kuhnau para quatro de suas publicações para teclado, denominadas Clavier-Übung. A elaboração de algumas fugas poderia evidenciar uma herança de seu predecessor, assim como procedimentos encontráveis nas danças de algumas suítes. Algumas décadas após o desaparecimento de Kuhnau, a névoa do olvido basicamente caiu sobre sua obra. No ano do bicentenário de sua morte, Romain Rolland, autor do célebre romance Jean-Christophe, escreveria: Johann Kuhnau era possuidor de uma profundidade de sentimento, e ao mesmo tempo de uma beleza quanto ao tratamento formal, uma graça feita de força e claridade, que ainda hoje poderiam tornar o seu nome popular.
Entre as obras de Johan Kuhnau, as Sonatas Bíblicas, publicadas em 1700, representam um exemplo da riqueza composicional do autor. Alguns aspectos mereceriam um debruçar mais aprofundado. Trata-se do primeiro exemplo de uma obra programática monolítica escrita para teclado, e isto é essencial. A História evidencia, em pleno século XIX, Liszt e Berlioz sofrendo forte inclinação à música de programa. Kuhnau, após apresentar, em alemão, um texto introdutório no qual posiciona o enredo de cada Sonata, insere na partitura frases em italiano, a conduzir, a cada cena, o entendimento do intérprete e do ouvinte. Haveria a nítida vontade de influenciar a emoção, pois o autor acreditava que as frases poderiam estimular a compreensão melhor da obra. Os títulos das Sonatas já predispõem o auditor ao clima proposto pelo autor: Il combattimento trà David e Goliath, Saul malinconico e trastullato per mezzo della Musica, Il marittagio di Giacomo, Hiskia agonizzante e risanato, Gideon Salvadore del populo d’Israel e La tomba di Giacob. J.S.Bach, quatro anos após, aos 19 anos, compõe o Cappricio sopra la lontananza del suo fratello diletissimo, criação do mesmo gênero, pois contém igualmente um programa.
As sonatas foram escritas para teclado, klavier, sendo que a primeira edição, de 1700, apresenta uma gravura na capa de rosto. Vê-se uma sala ampla e austera e uma mulher com as mãos sobre um teclado de órgão de ensaios ou de estudos, pois de dimensões reduzidas. Este fato teve diversas leituras. O klavier foi entendido pelos intérpretes em um sentido mais amplo e as Sonatas Bíblicas passaram a ser executadas ao órgão, ao cravo e ao clavicórdio. Desde os anos 50, as Sonatas têm sido gravadas nesses três instrumentos.
Necessário se faz evidenciar a estrutura formal da obra, que antecipa determinadas conquistas de K.P.E. Bach quanto à elaboração da Sonata. Pode-se, contudo, observar em Kuhnau uma notável liberdade de procedimentos quanto à forma e aos gêneros conhecidos no período. Danças que procedem das Suítes; recitativos – alguns longos – que são encontrados nas Cantatas; Corais luteranos, como Aus tiefer Not schrei’ich zu dir (Do fundo de minha angústia) e O Haupt voll Blut und Wunden (Oh! fronte ensangüentada e ferida); fugatos apropriados às cenas; fugas, entre as quais a extraordinária da Segunda Sonata, plena de liberdade de expressão, inserida no episódio inicial La tristezza ed il furore del Re, onde não faltam recitativos e passagens tecladísticas rápidas, tornando esse segmento um rico exemplo da escrita de Kuhnau. As Sonatas Bíblicas, constituem pois, uma verdadeira enciclopédia dos sentimentos. Coragem, dúvida, desconfiança, amor, rancor, desespero, medo, alegria, tristeza, rudeza, delicadeza e a crença em Deus, sempre presente. Sob outra égide, mas a caracterizar toda a epopéia, em sentido amplo, os instrumentos que se fazem presentes, nomeados ou não, nas frases do programa em italiano: harpa, tambores, trompetes, conjunto de instrumentos durante as festas, e o gesto da dança a dimensionar alegrias. Sentimentos e timbres povoam toda a extensa obra.
Por que interpretar as Sonatas Bíblicas ao piano? (Verificar gravações J.E.M., De Rode Pomp – concertagenda – vrij 27 April). Obedecendo-se rigorosamente ao texto, as Sonatas Bíblicas possibilitam, igualmente, uma leitura ao piano, mercê das qualidades polifônicas, orquestrais e timbrísticas desse instrumento. Considerando-se o fato de que as obras de F. Couperin, J-P Rameau, D. Scarlatti, J.S.Bach, Padre Soler, Carlos Seixas, entre outros, escritas para cravo, têm sido exaustivamente interpretadas ao piano desde o século XIX, a inserção das Sonatas Bíblicas de Kuhnau em leitura pianística estaria a oferecer uma opção a obedecer logicidade. Há que se compreender que existe, largamente consolidada, uma tradição real interpretativa de todo o repertório cravístico executado inicialmente ao pianoforte e, após, ao piano, que passou para esses instrumentos sonora e oralmente desde o final do século XVIII quando, mercê da Revolução Francesa, o cravo, instrumento monárquico, foi banido do Conservatório de Paris. Felizmente, o cravo veio a ressurgir nas fronteiras dos séculos XIX-XX. Em meados do século passado surgiriam fortes correntes a defender uma “reserva de mercado” relativa à música antiga, que doravante deveria ser entregue aos instrumentos de época, ou às suas réplicas. Essas tendências persistem e são benéficas sob muitos aspectos. Contudo, como bem observa o notável musicólogo francês François Lesure ( 1923-2001 ), que prefaciou o CD duplo contendo a integral para cravo de Jean-Philippe Rameau executada por mim ao piano (Gents Musikall Archief vol.8): O tempo do barroco integrista passou, o uso de instrumentos de época deixou de ser um dogma ao qual os músicos são obrigados a aderir sob pena de serem tratados de heréticos. Um dos maiores biógrafos de Rameau – Cuthbert Girdlestone – defendeu com força a idéia de que a música de Rameau ‘ganha ao ser transferida para o piano’ e que sua escrita encontra nesse instrumento, de uma melhor maneira, o seu dinamismo.
Em 2004, Coimbra festejou o terceiro aniversário de nascimento de seu filho ilustre, Carlos Seixas (1704-1742), o nome mais significativo do Barroco português. Três recitais foram agendados pelo organizador, Professor Doutor José Maria Pedrosa Cardoso, e apresentados na Biblioteca Joanina e na Capela Real da Universidade de Coimbra, abrangendo Sonatas de Carlos Seixas interpretadas ao órgão ( José Luis Gonzáles Uriol, Zaragoza ), cravo ( Ketil Haugsand, Colônia ) e piano. Tive o privilégio de ser o pianista. Essa interação provou o convívio desses três instrumentos frente ao repertório tecladístico do século XVIII. Poder-se-ia acrescentar que as Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau têm, igualmente, essa dimensão maior, a abranger a diversificação instrumental.
Apesar de, infelizmente, pouco freqüentadas, as Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau representam uma síntese de procedimentos e o exemplo perene de uma obra na qual o espírito acentuadamente eclético do autor traduz essa presença enciclopédica, característica de todo um período bem amplo.

Born in Germany, Johann Kuhnau (1660-1722) was one of the most accomplished musicians of his time, also talented as linguist, mathematician and lawyer. A predecessor of J.S.Bach as Kantor of St. Thomas Church in Leipzig, his most celebrated work – the Biblical Sonatas – is the first example of programme music for keyboard in an extensive work and, as such, virtually unparalleled before the 19th century. Originally written for keyboard, since the mid-twentieth century it has been recorded on the organ, the harpsichord and the clavichord. Unfortunately seldom performed or recorded, the Biblical Sonatas are a synthesis of musical procedures and an example of Kuhnau’s mastery of an array of styles and forms.

* O texto está a ser publicado, basicamente nesta formatação, na Bélgica, França e Portugal.