Navegando Posts em Música

Recitais de piano a comemorar lançamento de CD

Escuta, escuta: tenho ainda
Uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Eugénio de Andrade

O selo SESC está a lançar gravações que realizei na Bélgica com obras de Henrique Oswald (1852-1931), o mais importante compositor romântico brasileiro. Recitais foram agendados pelo SESC em três cidades: Santos (15 de Junho, sábado, às 20h, R. Conselheiro Ribas, 136), São Paulo (18/06, terça, às 13h, Igreja da Boa Morte, Rua do Carmo, 202, Centro), São José dos Campos (22/06, sábado, às 19h30, Av. Dr. Adhemar de Barros, 999).

Insiro o texto que escrevi, incluso no bem cuidado encarte que acompanha o CD:

“Vinte anos separam dois segmentos do presente CD. Um breve apanhado de sua biografia torna-se necessário, mormente aos leitores que têm acessado mais recentemente meu blog.

Henrique Oswald nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai suíço-alemão e de mãe italiana. Viveu a infância e a adolescência em São Paulo, partindo com a mãe para Florença, onde estudaria e viveria durante décadas. Casou-se e teve quatro filhos, entre os quais o pianista Alfredo Oswald e Carlos Oswald, que se tornaria o pioneiro da gravura em metal no Brasil. Em 1902 receberia o primeiro prêmio por sua composição “Il Neige”, láurea recebida do jornal “Le Figaro” em Paris, em concurso em que concorreram 647 peças de autores de todo o mundo. Após breves viagens ao Brasil, retornaria definitivamente ao país em 1903, onde inicialmente dirigiu o Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro. Permaneceu no Estabelecimento durante décadas, tendo orientado gerações de músicos que se destacaram no cenário brasileiro. Faleceu em 1931 no Rio de Janeiro. A obra de Henrique Oswald abrange vários gêneros: sinfônico, camerístico, coral e sobretudo piano solo.

Primeiramente temos obras para violino e piano, gravação realizada em Bruxelas para o selo PKP em 1995. O violinista belga Paul Klinck e eu gravamos a integral para violino e piano do notável compositor. Em 2015, também na Bélgica, na pequena cidade de Mullem, gravei obras de Oswald para piano solo.

Selecionamos, do CD de 1995, a “Sonata op. 36”, de 1908, e três peças avulsas. A “Sonata op. 36” em mi maior tem quatro andamentos, sendo das mais significativas Sonatas do período em termos mundiais. Composta em 1908, foi apresentada em primeira audição em 1912 no INN do Rio de Janeiro, tendo o compositor ao piano e Ricardo Tatti ao violino. Dos seus quatro andamentos contrastantes, o terceiro, “Andante, molto expressivo”, fora composto anteriormente. Das nove peças avulsas que integravam o CD de 1995, separamos três, nas quais a filiação romântica é plenamente detectada. A “Romance op. 7 nº 2” é uma transcrição de uma “Romance sans paroles” para piano, enquanto a “Romance” (andante con moto) é original para violino e piano (1904). Bem posteriormente Henrique Oswald comporia o expressivo “Nocturne” (1926).

As obras para piano solo foram gravadas na Capela Saint Hilarius em Mullem, Bélgica Flamenga, em 2015. A destinação para piano solo é nítida em Oswald. Foram dezenas de pequenas peças para o instrumento, que se apresentam reunidas em coletâneas de até seis peças, como Suítes e Feuilles d’Album, ou mesmo no formato miniaturas, como as “Machiettes” (12 peças) ou “Bluettes” (10), estas presentes no atual CD. Há também criações curtas avulsas. Essas composições destinavam-se a saraus da classe social que cultuava a criação de curto fôlego, tanto na Europa como no Brasil do século XIX às primeiras décadas do século XX.

Na configuração miniaturas, a coletânea “Bluettes” (Dix petits morceaux pour piano) representa quadros de flores e foi composta entre 1887-1888 em Florença. O manuscrito autógrafo, que me foi presenteado pela neta do compositor, Maria Isabel Oswald Monteiro, apresenta as peças de nº VII e VIII anuladas pelo autor através de riscos precisos. Um estudo mais acurado, contudo, levou-me a considerá-las válidas, pois estão rigorosamente perfeitas na escrita. Essa assertiva preserva a bela coletânea, portanto dando vida às flores “Bluet” e “Pervenche”. Posteriormente, Oswald editaria seis das “Bluettes”, mas não mais com nomes de flores e sim de sentimentos, num álbum denominado “Sept Miniatures”.
As duas “Valsas op. 25” tipificam a destinação da pequena peça para apresentação em saraus de uma sociedade florentina burguesa com olhar aristocrático. Essa prática era bem sedimentada em alguns países europeus. Comunicativas, as duas “Valsas” foram editadas no período.

“En Rêve” é composição idílica e foi dedicada à aluna e admiradora Leozinha Magalhães, primeira biógrafa do compositor. O filósofo e musicólogo francês Vladimir Jankélevich considera que “Noturno”, “Berceuse”, “Barcarola” e “Revêrie” fazem parte de um mesmo universo ondulante. Aliás, são inúmeras as criações de Oswald obedecendo a essa dedicação precisa. Os dois “Nocturnes op. 6” situam-se entre o que de melhor no gênero foi escrito no período. Faz-se presente a influência francesa. Oswald, em muitas de suas composições para piano, evidencia a nítida admiração por César Franck (nascido na Bélgica), Camille Saint-Saëns e Gabriel Fauré.

Dos “Trois Études” para piano de 1910, Oswald realizaria versão orquestral do primeiro, sob o título “Paysage d’Automne”. Do segundo “Étude”, duas versões, sendo a segunda editada juntamente com os dois outros “Études”. Optei pelo primeiro manuscrito, não editado. Neste, Oswald não emprega o ritmo sincopado na melodia encontrável na segunda versão. Como é o único dos três “Études” sem indicação de andamento, a rítmica utilizada no manuscrito primeiro tende para uma interpretação mais cômoda.

Encerra o CD a extraordinária “Valse-Caprice op. 11 nº 1”. Temas contagiantes e virtuosidade caracterizam a “Valsa-Caprice”. Juntamente com a “Polonaise” de 1902, dedicada à pianista Antonieta Rudge, tem-se, possivelmente, as duas criações mais esfuziantes para piano de Henrique Oswald”.

Recentemente em Paris entreguei ao compositor François Servenière o CD “O Romantismo de Henrique Oswald”. Recebi sua apreciação, que transmito ao leitor. Ela diz muito do resultado da escuta de parte considerável da obra do ilustre compositor pátrio homenageado no CD:

“Ouvi atentamente o CD dedicado a Henrique Oswald. Sobre o duo, apenas retomo minhas considerações airosas já expressas em meu livro Réflexions. O piano solo está incluso na mesma linha filosófica e intensamente sensual. Afigura-se-me Oswald como um compositor fora do campo histórico, mesmo valendo-se, evidentemente, da linguagem de seu tempo. Ouvindo através de seus dedos, invade-me a ideia que tive quando na Piazza Navona, a degustar um daqueles Gelatos que fazem a notoriedade do lugar, na contemplação simultânea do maravilhoso lugar sob o sol romano. A cada peça do CD há a mudança do perfume, da mistura das cores e, durante todo o transcurso da audição até a nota final, a sensação da escuta deliciosa”.

No dia 17 de Junho, segunda-feira, darei entrevista para a Rádio USP (93.7 FM) no programa das 12:00. Comentarei a escolha do repertório do CD “O Romantismo de Henrique Oswald”. Algumas obras constantes do CD poderão ser ouvidas.

This month SESC (Serviço Social do Comércio) label launches a CD entirely devoted to works by Henrique Oswald (1842-1931), the most important Brazilian romantic composer, with recitals in Santos, São Paulo and São José dos Campos. In the first segment of this album we have works for violin and piano recorded in Brussels in 1995, when the Belgian violinist Paul Klinck and I registered Oswald’s entire repertoire for violin and piano. In 2015, also in Belgium, I recorded his works for solo piano. These integrate the second segment. From 1978, when I started my research into Oswald’s work, to this date large steps have been taken towards the promotion of his work, now on rise in Brazil and abroad.

 


Razão a determinar caminhos

O público imaginário
ao qual o intérprete se dirige em uma gravação
é infinitamente vasto, anônimo e, na verdade, eterno e ideal:
é um público de todos os países e de todos os tempos,
tendo exigências exorbitantes.
Gisète Brelet
(“Linterprétation Créatrice vol II)

É necessário que um dia todos os homens vejam
que o desejo de chegar mais longe,
a atenção à crítica, a calma ante o que fere,
nada têm a ver com a força e a fraqueza:
são qualidades da alma.
Agostinho da Silva

Desde 1995 visito Gent, na Bélgica, sempre a pensar e agir musicalmente. Já àquela altura um registro permaneceria, a gravação em Bruxelas, para o selo PKP, da integral para violino e piano de Henrique Oswald com Paul Klinck ao violino. Sucessivamente as idas a Gent foram se acumulando e, desde 1999, começaria a gravar para o seletivo selo De Rode Pomp, apresentando-me na pequena e aconchegante sala de concertos da organização até a sua desativação por volta de 2012. Contudo, as gravações continuaram, sempre sob a supervisão técnica do engenheiro de som Johan Kennivé cujas excepcionais qualidades tenho comentado ao longo dos anos. Sob os cuidados de Kennivé, gravei posteriormente para outros selos, PortugalSom e ESOLEM, este francês, e SESC (tema do próximo blog). Portanto, a gravação que se deu em fins de Maio na pequena cidade de Mullem, perdida na planura flamenga, foi a derradeira, justamente quando Johan Kennivé e eu completávamos 20 anos de uma parceria irretocável. O lançamento do CD em pauta deverá ocorrer em data não prevista em 2020 pelo selo francês ESOLEM.

Sempre entendi a Música como parte fundamental de minha vida, mas a jamais obstaculizar outros olhares. Ela os substancia, pois a visão que posso depreender de minha formação sonora transforma a observação, dando-lhe talvez, sem qualquer sentido de empáfia, um caráter mais lírico. É possível que assim seja. Regressar a Gent pela 25º vez ou a Paris por mais de 30 vezes faz com que retornos se tornem mais tranquilos. Gent, que entrou em minha vida em 1995, recebe o olhar carinhoso para com amigos que habitam o meu de profundis e que, a cada visita, é mais intenso. Não há como negar essa interação. Creio ser essa a razão de entender a Música como elo de ligação e jamais ter me achado não pertencente a essa categoria de low profile. A interpretação pianística, mormente nas gravações, a ser pensada como fator preferencial a visar à perfeição, miragem inatingível, mas senda a ser seguida sem esmorecimento. Daí só gravar em condições rigorosamente de primeira qualidade. A Música a fazer parte do todo, a gravação a buscar esse totum sempre esperançoso.

A exibição de algumas fotos, testemunhos de integração afetiva, é consequência da interação com meu leitor que semanalmente tem acompanhado e entendido esses momentos, digitalizados sempre durante as madrugadas, quando a serenidade se impõe sem distrações. A viagem anual para as gravações transforma-se num ato de amor à vocação que acredito ter recebido de um Poder Maior. A dimensão do talento depende de fatores misteriosos, daí entendermos a presença de compositores e intérpretes rigorosamente únicos. De minha parte, almejo apenas realizar o melhor possível com os dons econômicos recebidos, mas resultando com disciplina, perseverança, concentração e labor, sem os quais nada realmente válido permanece. Deixar um legado. Meus blogs recentes tratam desse tema. Como o filósofo Eduardo Lourenço tem razões! Buscamos deixar algo. Recitais passam como o vento, com maior ou menor intensidade. A gravação fica. O respeito dessa fixação permanente só o entendo se em condições absolutas. Enfim, é o que podemos realizar.

A amizade com personagens de Gent, que há mais de duas décadas pertencem ao meu universo afetivo, é entendida no primeiro olhar trocado. A alegria transborda e essa sensação é inigualável. Como não sentir contentamento ao verificar que casais como André Posman e Jamila, assim como Tony Herbert e Tina, que conheci ainda sem proles, estarem hoje com filhos na faixa dos 15-17 anos e já com projetos precisos? Taha e Iassim, filhos do casal Posman, já são músicos e Taha apresentou-se durante minha curta estadia interpretando Concerto para piano e orquestra de Shostakovitch. Iassim é clarinetista de talento. Tycho e Trixie, filhos de Tony-Tina já têm planos claros. É o passar do tempo a trazer descortinos.

Em Paris, os afetos são intensos e perduram há seis décadas. Pertencemos a uma geração que está nos estertores. Sabemos disso e o fato acentua o prazer imenso do encontro. Não há palavras para exprimir essa fusão renovada. Rememorar episódios vividos na empolgação da juventude que adentrava a idade madura; situações alegres, divertidas, emotivas. Com a excelente pianista Odile Robert conversamos sobre tantos recitais e concertos assistidos com entusiasmo e apresentados pelos nomes basilares da história do piano: Arthur Rubinstein, Wilhelm Kempff, Wilhelm Backhaus, Clara Haskil, Marguerite Long, Jean Doyen, Claudio Arrau, Sviatoslav Richter, Emil Gilels e tantos outros. Lembrarmos de aulas e colegas, muitos já desaparecidos, e o momento atual em que insistimos, por devoção, nessa caminhada sem fim dedicada a uma arte que amamos. Comungamos as muitas dúvidas a respeito de legião de intérpretes orientais que invadem o continente europeu, munidos de grande virtuosidade, mas nem sempre com ideias musicais baseadas no conhecimento das Culturas do Ocidente.

Antoine Robert, irmão de Odile, aos 87 anos, é amigo pelo qual tenho a maior gratidão. Foi ele que me introduziu na riquíssima literatura francesa e, sem exagero, cerca de trezentos livros foram lidos naquele período que se estendeu de fins de 1958 a meados de 1962. Passamos um dia a conversar sobre passado e presente, adentramos livrarias e adquiri alguns livros, entre os quais três novos de Sylvain Tesson, autor aqui resenhado em mais de dez blogs dedicados às suas obras. Em noite de confraternização pura, o reencontro com outros familiares Roberts, Chantal e Daniel, ratificou emoções.

O compositor e pensador francês François Servenière, tantas vezes presente em meus blogs através de seus longos comentários sobre os posts publicados semanalmente, propiciou-me imensa alegria ao vir de Le Mans a fim de passarmos o dia em que temas musicais foram abordados. Ao final da tarde juntou-se a nós o compositor Maury Buchala, meu ex-aluno na Universidade de São Paulo. Residente em Paris há 30 anos, desenvolve bela carreira como compositor e regente. Obras dos dois estarão presentes nesse meu derradeiro CD gravado na planura flamenga.

Pela primeira vez, a visita a Paris foi apenas de confraternização com amigos, entre os quais Myriam Chimènes, Secretária Geral do Centre de Documentation Claude Debussy, e Anik Devriés-Lesure, membro do Conselho Administrativo do Centro e viúva do grande musicólogo e maior referência sobre Debussy na segunda metade do século XX, meu saudoso amigo François Lesure.

O reencontro com o professor e poeta português Fernando Rosinha e sua esposa Marina, com Emanuel Billy e sua esposa, a expressiva violinista Nicole, ratificaram amizades que perduram.

Adentrando os 81 anos encerro as gravações, mas continuarei a tocar. Há que se saber o momento de encerrar uma atividade. Faço-o com paz interior. Estou consciente de que, para transmitir minhas ideias a partir da interpretação, busquei nestas mais de duas décadas a mais apurada qualidade de captação sonora. A surda alegria de ter escolhido sempre meu repertório para as gravações, nas quais tantas composições extraordinárias foram redescobertas ou interpretadas pela primeira vez, leva-me a considerar fato corrente que conduz intérpretes a se submeterem a obras impostas pelas grandes gravadores. Entendo meu posicionamento como uma espécie de desbravamento. Alpinistas, navegadores e aventureiros sentem algo especial ao chegar a termo. Creio que tenho a mesma sensação após a gravação do 25º CD. Convido o leitor a ouvir no YouTube cerca de 100 composições que gravei ao passar dos anos. Legado? Talvez.

Back in São Paulo, I recall my trip to Belgium and France, two countries I feel bound to by ties of deep friendship. In Gent, where I went to record my 25th CD, it was a pleasure to see so many old friends and faces throughout the week. In Paris, I’ve been with friends of decades, a chance to recall episodes of our youth, when I was there with a scholarship from the French government. From Le Mans came composer François Servenière and we’ve spent a day together discussing musical issues. Composer Maury Buchala, my former student at Universidade de São Paulo now living in Paris, joined us in the afternoon. At 81, I put an end to my recordings happy for being always able to choose my own repertoire and conscious I’ve been a kind of pathfinder, choosing the seldom-used path, unveiling and fostering piano works from the past and the present.

 

 

 


Derradeira gravação

Não tocando para o que está a ouvir,
liberto do contato e da pressão do público,
o intérprete, invisível,
a endereçar sua mensagem a um ouvinte ideal,
universal, reencontra em sua solidão
a essência mesma da obra
e de sua personalidade de intérprete,
uma execução universal, ideal, típica de si mesmo,
e mais essencialmente musical que em um concerto.
Gisèle Brelet
(“L’Interprétation Créatrice” – vol. II, 1951)

Não poucas vezes nesse espaço, que remonta a Março de 2007, coloquei a posição da sacralidade da gravação, que deveria ser considerada pelo intérprete, em conditio sine qua non, como fixação definitiva de seus anseios e que para tal desiderato ter-se-ia de buscar as condições impecáveis para que o registro se dê. Qualidade insofismável do engenheiro de som, local com a melhor acústica possível, piano sem máculas. Esses aspectos só podem ser previstos se houver por parte do executante a certeza plena de que a mensagem do compositor foi absorvida após o mais intenso debruçamento sobre uma obra.

Intérprete e condições para a gravação têm de se amalgamar e, por mais que a indústria mundial onipresente estimule registros fonográficos preparados em curto tempo, escolhendo as obras a serem gravadas e nem sempre os melhores locais para o fim desejado, mesmo para os grandes intérpretes, que se engajam com essas empresas para esse mister, faltará a integração absoluta, a anima que vem de leituras sucessivas, prolongadas e pormenorizadas de uma partitura. A gravação estará disponibilizada no mercado, mas o açodamento será detectado através do passar dos anos. Gravações antigas, já na época dos LPs, apresentam luminares da interpretação em obras que integravam seus repertórios há longo tempo. A decantação é fundamento tanto para a música como para o vinho. Gravações hodiernas existem, extraordinárias sob os aspectos virtuosidade e impecabilidade técnica do intérprete, este a aprender de maneira rápida e habilíssima uma determinada partitura consagrada. Quantas não são as vezes em que a audição revela o vazio de ideias, mercê do imediatismo progressivamente mais presente ditado pelas gravadoras? O grande pianista Glenn Gould (1932-1982) tinha estúdio em sua morada, e as obras por ele escolhidas para gravação sofriam inúmeras seções de registro, a fim de se chegar ao ideal por ele proposto. Uma mesma obra era gravada à exaustão até o desiderato final de Gould ser atingido.

Continuo a me considerar um low profile, ainda mais por minha faixa etária. A qualidade insofismável de repertório escolhido desde os anos 1970 nem sempre é conhecida do grande público, sendo um dos fatores, entre muitos, para que a divulgação inexista. Para o intérprete há opções elásticas quanto ao repertório e deve ser ele o senhor da escolha e não os detentores da indústria de gravação. Para a mídia só interessa a sobrevivência, pois ela navega sempre em mares conhecidos. O inusitado torna-se para ela um anátema. Só aceitei gravar inúmeros CDs para o selo De Rode Pomp, da Bélgica, mercê da liberdade plena que André Posman, proprietário do selo, concedeu-me, jamais interferindo em minhas opções.

No pórtico dos 81 há que se pensar nos anos que ainda restam. O “tempo insubornável” de que nos fala o grande escritor Guerra Junqueiro pode parecer às gerações mais novas como supérfluo, distante; contudo, não o é. Acredito firmemente que as décadas vividas levam à reflexão e que o tempo dita procedimentos, apesar das plenas funções físicas ainda preservadas. Não seria no declínio que resoluções deveriam ser tomadas. Decidi que o próximo CD, o 25º gravado no Exterior com as condições extraordinárias acima citadas, será o derradeiro. Não interromperei minhas poucas apresentações, hoje restritas a pequenos auditórios. Como jamais tive agente e nunca fiz concessão repertorial, caminhos se estreitaram, mas não bloqueiam as apresentações. Prefiro atualmente o auditório seletivo, pequeno, exigente, acolhedor.  As gravações poderão permanecer, como bem afirma Giséle Brelet, se cuidadas com esmero quanto à perfeição tecnológica.

Foi um longo período a pensar na decisão. Sob outra égide, que programa escolher para esse último testemunho? Resolvi prestar uma homenagem à criança que eu fui e que iniciou seu eterno aprendizado aos nove anos de idade sem se desviar do piano, exceção a curto período de incertezas. O programa do CD será todo voltado à infância, sendo que algumas das obras não foram escritas para as mãos de uma criança, porém têm presente o espírito infanto-juvenil. Anteriormente já havia gravado na Bélgica obras pertencentes ao universo lúdico infantil: Francisco de Lacerda (1869-1934), “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999);  Moussorgsky, “Quadros de uma Exposição” e Debussy, “La Boîte à Joujoux” (2003); Lopes-Graça, “Música de piano para crianças” (2012), Henrique Oswald, “Machiettes” (2010) e “Bluettes” (2015). Para este derradeiro CD resolvi inserir obras que dialogaram comigo na infância. Outras no presente, só que agora expressamente escolhidas com desiderato preciso. Gostaria de encerrar as gravações a agradecer a dádiva da vida e o que resta de esperança quanto à cultura musical erudita e a outras culturas.

Iniciarei a gravação com as “Peças Líricas” op. 12 de Edward Grieg (1843-1907). Após ter estudado brevemente com dois professores, Aída de Vuono e Antônio Giamarusti, permaneci três anos sob a orientação de um professor russo de nome Berkowitz, judeu exilado. Nada sabíamos de sua história, mas as marcações que deixou em minhas partituras evidenciavam um raríssimo conhecimento quanto ao fraseado e aos dedilhados. Foi Berkowitz que me ofereceu as oito “Peças Líricas” op. 12 de Grieg e as aprendi nos meus 10-11 anos de idade. Retomá-las é rememorar e prestar homenagem ao velho mestre. Dois anos após presenteou-me com outras peças de Grieg. A seguir, passei a estudar durante seis anos com o notável José Kliass, igualmente russo, até minha ida para Paris a desfrutar de bolsa do Governo da França, depois de prêmio no 1º Concurso Nacional da Bahia no longínquo ano de 1958.

Do compositor e pensador francês François Servenière (1961- ) gravarei   “Trois tribulations d’un écureil Lambda”, extraídas das sete “Tribulations”, que fazem menção às suas observações cotidianas  de um esquilo em parque próximo à sua morada. A seguir, “Promenade sur la Voie Lactée!”, a lembrar “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, um de seus eleitos e meu também, mercê igualmente do conjunto da obra do grande escritor francês.

Em 2011, quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Música Portuguesa” (Coimbra, Universidade de Coimbra), Servenière e o ilustre compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ) escreveram obras in memoriam do notável músico e regente açoriano Francisco de Lacerda (1869-1934), autor da obra mencionada acima. São três peças de Servenière e seis de Carrapatoso, estas inspiradas nos poemas infantis sensíveis da poetisa lusíada Violeta Figueiredo. De Francisco de Lacerda gravarei “Papillons” e “Zara” (epitáfio para uma criança).

Continua o CD com uma das composições que mais aprecio. Apresentei-a em primeira audição em 1989 e ficaria o almejo, desde aquele período, de um dia gravá-la nas melhores condições possíveis, pois um primeiro registro naquele ano, realizado em condições apenas satisfatórias no Rio de Janeiro para o selo FUNARTE, foi abortado pelo ex-presidente Collor de Mello ao desmontar a Instituição. Trata-se de “Recife, Infância, Espelhos…”, extraordinária coletânea constituída de 16 pequenas peças que reportam às encantadoras lembranças sonoras e emocionais dos primeiros anos recifenses, escritas por um dos mais importantes compositores de nossa história musical, Willy Corrêa de Oliveira (1938- ).

De um meu ex-aluno na USP e hoje radicado em Paris, onde desenvolve expressiva carreira como compositor e regente, gravarei “L’Enfant devant l’inattendu”, três brevíssimas peças de Maury Buchala (1967- ).

Edward Grieg compôs, ao longo da existência, 66 “Peças Líricas”, divididas em vários opus. O opus 12 que abre o CD foi escrito em 1867, sendo que a última das “Peças Líricas, opus 71, nº 7, em 1901. Grieg retoma em “Souvenirs” o tema da primeira peça do op.12, agora caracterizando-o numa valsa nostálgica plena de modulações. Pequena obra-prima. Encerro pois os registros para meu último CD a seguir o procedimento do grande Grieg. Começo e fim.

O CD número 25, muito longe de ser um marco em termos discográficos, significa muito para mim. Iniciei as gravações no Exterior em 1995, quando aos 57 anos. Foi André Posman que  me estimulou, após um recital na Bélgica: “Professeur, il faut laisser un héritage…” Convite aceito e anos de extraordinário convívio não apenas com André e a De Rode Pomp, mas com a cidade de Gent e muitos de seus músicos e cidadãos, que compareciam anualmente aos meus recitais que faziam parte das temporadas preparadas pelo seu diretor. De Rode Pomp promovia mais de cem apresentações anuais. A partir de 1999, todas as gravações sob os cuidados do engenheiro de som Johan Kennivé. Durante três madrugadas o pleno entendimento.

O CD, a ser gravado no final deste Maio, deverá ser lançado em França pelo selo ESOLEM, o mesmo que em 2017 produziu o CD “Éthers de l’Infini”, gravado em 2015 na sempre Mullem, na Capela Saint Hilarius, meu Templo mágico.

On my forthcoming travel to Belgium to record my 25th and last CD with works by six composers: Edvard Grieg, François Servenière, Francisco de Lacerda, Eurico Carrapatoso, Willy Correa de Oliveira and Maury Buchala.  Though I cannot deny my preferences for the traditional piano repertoire, I’ve always tried to be open to new musical languages, as far as I see in them talent and quality. All the works chosen for this CD  have a special meaning to me, some belonging to my world of affections since childhood. Beginning and ending linked through my love for music.