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André Posman e um de seus promissores gêmeos

A grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir,
que fazem e não esperam ser feitos;
que são sempre voz ativa, não passiva.

O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens;
é tê-las feito.
Agostinho da Silva

Inúmeros blogs foram dedicados, desde o longínquo Março de 2007, à Bélgica Flamenga, precisamente Gent e Mullem, afetos, música e geografia. André Posman – fundador da De Rode Pomp, gravadora que lançou muitos CDs meus gravados em Mullem sob a supervisão do extraordinário engenheiro de som Johan Kennivé – jamais deixou de acalentar os programas que eu apresentava para a sua gravadora. Amante inveterado do inusitado, acolhia o repertório tradicional, mas proporcionou em sua sala de concertos recitais memoráveis, camerísticos e instrumento solo, interpretados por músicos europeus e tantos outros da Rússia, a preferenciar programação pouco frequentada, do barroco à contemporaneidade mais hodierna. Naquela sala de cerca de 200 lugares, aproximadamente, promovia cento e tantos concertos todos os anos.

Infelizmente, De Rode Pomp teve suas atividades encerradas anos atrás, como aliás muitas associações de concertos e selos seletivos europeus, esses cuidadosos, de pequenas e significativas tiragens. A indústria cultural é implacável e dificilmente organizações pequenas e voltadas unicamente à qualidade subsistem. Sempre confessei que os anos a gravar para a De Rode Pomp foram os mais felizes de minha atividade musical. André Posman, professor de história aposentado, fundador da De Rode Pomp e da galeria de artes La Perseveranza, também desativada, continua sempre um entusiasta apaixonado pelas artes. Sou-lhe eternamente grato, pois foi dele o convite para que desse anualmente recitais em sua sala de concertos a partir de 1996 e gravasse para seu prestigioso selo.

Creio já ter narrado em blog bem anterior episódio ocorrido logo após ter interpretado, em recital na sala de concertos da De Rode Pomp, os 12 Estudos para piano de Debussy, que gravaria nos dias subsequentes em Mullem. Para os recitais especiais, André oferecia ceia de quinta a sábado para frequentadores que reservavam mesas. A ceia se dava na sala da galeria La Perseveranza, sob os cuidados do grand chef Philippe. Após meu recital, jantava com amigos quando se senta à nossa mesa o representante de um selo mundial de grande tiragem. Disse-me que gostaria que eu fizesse parte da lista dos pianistas que gravam para a empresa. Fiz-lhe três perguntas: “poderia escolher o programa do CD, gravar em Mullem com Johan Kennivé – meu templo mágico e engenheiro de som de alto nível -, escrever texto do encarte? O cidadão disse-me que a empresa escolhia o programa dos integrantes da lista, a cidade para a gravação, que poderia ser na Europa, Ásia ou América do Norte, e que muitos CDs saiam inclusive sem texto a explicar o programa. Acabara de falar e meu diletíssimo André, flamengo fisicamente avantajado, passava frente à mesa. Levantei-me, dei-lhe um beijo na face e disse-lhe que nossa amizade era eterna. André sorriu abertamente e o cidadão que me convidara levantou-se polidamente e se retirou.

Estou a me lembrar da gestação de alto risco de Jamila, dedicada  esposa e colaboradora de André, que esteve meses num hospital público – excelente padrão belga – para acompanhamento. Fui visitá-la nesse difícil período. Os gêmeos, Yassine e Taha, nasceram saudáveis e desde a tenra infância revelaram dons musicais inequívocos, Taha ao piano e Yassine na clarineta, hoje saxofone. Acompanhei o desenvolvimento dos gêmeos, pois todos os anos, quando em Gent para recitais e gravações, ouvia-os e observava o rápido evoluir dos irmãos.

Frisei inúmeras vezes nesse espaço a importância da formação dentro do lar. Taha e Yassine nasceram em berço propício, pois Jamila é mãe devotada, que acompanha atentamente o desenvolver de seus filhos.

Essa ligação amorosa com Gent e diletos amigos persiste há mais de 23 anos e teve fatos marcantes. Em 1996 recebi de André a chave de sua morada. Quando chegava à Gent para atividades musicais, tinha livre acesso aos pianos da casa, inclusive à geladeira. Ficava hospedado a cento e poucos metros, na casa dos sempre amigos Tony e Tania Herbert, e dirigia-me à sala de concertos, contígua ao prédio da residência dos Posmans, para estudar durante a alta madrugada. Realmente André é figura rigorosamente singular. Quanto a Yassine e Taha, raramente encontrei jovens tão bem educados e respeitadores de valores hoje raros em nossa sociedade. E não estão numa torre de marfim, pois praticam esporte, lutas marciais e logicamente, de maneira preferencial, música no melhor sentido, instrumental e coral. Quanto aos estudos escolares, são ótimos alunos.

Vem-me à lembrança divertido acontecimento que se deu em 2008 ou 2009. Após recital à noite na De Rode Pomp, André perguntou-me se podia, pela manhã seguinte, dar um recital especial dedicado aos colegas de classe de seus gêmeos. Aquiesci com prazer e, ao tocar Viva-Villa de Gilberto Mendes, peça minimalista com muitos ritmos brasileiros, espontaneamente a gurizada subiu ao palco e começou a dançar.

Em Maio último retornei à região flamenga – creio que pela 25º vez – para recital e gravação, que se deram em Mullem. Em Gent, tive a grata oportunidade de ouvir Taha, que preparava o Concerto nº 2 para piano em Fá Maior op. 102, de Dmitri Shostakovitch (1906-1975). Pediu-me para que o ouvisse e qual não foi meu prazer ao verificar a evolução desse talentoso jovem.  Preparava-se para apresentação em Junho.

Taha estudou inicialmente com Elisa Medinila, filha de meu dileto amigo e pianista Alfonso Medinila. A seguir, com Timur Sergeyenia, pianista de vastíssimo repertório nascido na Bielorússia. Ao ser aceito no Conservatório de Bruxelas, ficou sob a orientação de Boyan Vodenitcharov e Hans Ryckelinck.

Foi pois com prazer inusitado que ouvimos, Regina e eu, pelo vídeo que me foi enviado por Lucien Posman – irmão de André e compositor de mérito, de quem dele gravei, para o selo De Rode Pomp, Le conte de l’étude Modeste, que faz parte do CD New Belgian Etudes – a apresentação de Taha Posman a interpretar o Concerto nº 2 para piano e orquestra de Shostakovitch. Tendo conhecido seus pais bem antes de seu nascimento, ouvi-lo nesse desabrochar seguro é motivo de emoção.

O Concerto nº 2 (1957) tem um caráter poder-se-ia dizer didático, e o compositor pensou em seu filho Maxime, de 19 anos, que teria realizado a primeira audição. Shostakovitch expõe um piano basicamente integrado à orquestra e durante quase toda a extensão da obra o instrumento participa, salvo em momentos precisos, mormente no segundo andamento. O primeiro, Allegro, pleno de vivacidade, possibilita ao intérprete verdadeiro prazer na execução. Bem digital, técnica dos cinco dedos, ele evolui basicamente com poucas interrupções e sua cadência apenas ratifica essa técnica digital. O segundo andamento, Andante, extremamente lírico, proporciona ao pianista a exploração de belos matizes sonoros. Quanto ao terceiro andamento, Allegro, Shostakovitch faz alusão a Charles-Louis Hanon (1819-1900), pedagogo francês, cujo método é mundialmente frequentado por todos os que iniciam o estudo de piano no que concerne à técnica dos cinco dedos, empregando algumas de suas “fórmulas” copiadas ou modificadas. No todo, a notoriedade desse jovial Concerto para piano e orquestra vem, em parte, da engenhosidade da construção, mesmo que voltada à tradição; da destreza digital e de uma esfuziante jocosidade.

O belo Concerto nº 2 de Shostakovitch tem inúmeras notáveis gravações no Youtube, inclusive a realizada pelo próprio autor ao piano. Foi um excelente desafio para o jovem Taha, que à altura tinha 17 anos. Ao longo de toda a apresentação realizada no dia 16 de Junho deste 2019, junto à Sonores Symphoniorkest Gent conduzida por Joeri van Hove, mostrou-se rigorosamente à vontade, realizando com estilo definido os três andamentos do Concerto. Se nos Allegros demonstrou maturidade invulgar no tratamento proposto por Shostakovitch quanto às passagens virtuosísticas e suas flexibilizações dinâmicas, seria no segundo andamento, Andante, que Taha Posman revelaria a presença do músico sensível que sabe conduzir a frase musical com raro cuidado. Quanto ao terceiro andamento, Taha Posman transmitiu o frescor inerente na partitura. Apesar de ter mostrado ainda uma certa timidez, antes e depois da expressiva apresentação, muito descontraída, diga-se, o que é raro nesse primeiro contato com a obra junto à orquestra, Taha Posman já é uma realidade promissora. O público que lotou o Groene Zaal, a Sala Verde da Escola Católica de Saint Bavon, testemunhou, através de longos aplausos, a convincente apresentação.

Clique para ouvir o Concerto para piano e orquestra nº 2 em Fá Maior op. 102 de Dmitri Shostakovitch, tendo ao piano Taha Posman.
Áudio e vídeo preparados por Johan Kennivé, tendo a ajudá-lo Yassine Posman.

https://www.youtube.com/watch?v=Pk-IXInukwk

Um longo e esperançoso caminho se abre para Taha. Tenho a convicção de que deverá ter brilhante carreira e será mais um pianista a manter a excepcional tradição pianística da Bélgica.

Many times I’ve mentioned in this blog my love for Belgium and for the friends I’ve made there, among them André Posman and his family. André is the founder of the label De Rode Pomp, which released most of my CDs recorded in Mullem. Unfortunately De Rode Pomp does not exist anymore, but the years I’ve recorded for this label were the happiest of my musical career. I still remember the high-risky pregnancy of Jamila – André’s wife – that culminated in the birth of the twins Yassine and Taha, whom I’ve known since babies. Now young adults, they are a result of their good upbringing: polite, responsible, productive, both having revealed an early talent for music (Taha piano, Yassine clarinet and saxophone). It was with emotion and delight that I watched the video sent by composer Lucien Posman in which Taha performs, as a soloist, Shostakovich’s Piano Concert nº 2 in F major with the Sonores Symphonieorkest Gent conducted by Joeri van Hove. In this Concert, the piano is almost integrated with the orchestra and participates virtually throughout the entire piece. Taha plays with competence and ease, confirming he is a promising young talent with a brilliant career ahead of him, in the best tradition of great Belgian musicians.

Imenso compositor a revelar interioridades

É o povo russo que eu quero pintar.
Quando eu durmo, eu o vejo nos meus sonhos,
quando me alimento, é nele que eu penso;
quando bebo, é ele que aparece em toda a sua realidade,
grande, enorme, majestoso, magnífico, sem fardo e sem disfarce.
Modeste Moussorgsky

Após comentar as vastas relações epistolares de Beethoven, Liszt e Wagner, anunciava que ainda trataria de duas outras expressivas e distintas, as de Modeste Moussorgsky (Moscou, Éditions Radouga, 1987) e as de Claude Debussy (1862-1918). Através das cartas podemos melhor entender diversificados caminhos enveredados pelos músicos em apreço.

A vida de Moussorgsky é um longo caminhar em direção ao trágico. A ascendência nobiliárquica remonta ao século XV e, apesar de uma infância sem transtornos quanto à sobrevivência, Moussorgsky foi péssimo administrador de seus bens e em sua curta existência teve reiteradas vezes a ajuda de amigos. Integrou o Grupo dos Cinco, compositores autodidatas que buscavam se expressar musicalmente voltados às tradições populares russas, sem desmerecer o romantismo, mas adequando-o aos ideais nacionalistas. Foram eles: Alexandre Borodine, César Cui, Mili Balakirev, Modeste Moussorgsky e Nikolaï Rimsky Korsakov, todos basicamente da mesma idade. Em carta a seu fiel amigo e confidente, Vladimir Stassov, Moussorgsky escreve já nos estertores da ação do grupo: “Anunciei [com toda a delicadeza de que sou capaz] a Korsinka (Rimsky Korsakov) e a Borodine que, para salvaguardar a pureza virginal do círculo, para não nos prostituirmos, tenho a intenção de dar ordens no que concerne a nosso trabalho coletivo, ao invés de recebê-las; de colocar questões e não ser obrigado a responder; tudo isso, é claro, unicamente com a permissão de Korsinka e Borodine e em nosso nome” (31/03/1872).

Na infância o pequeno Modeste sofre decisivamente a influência de duas mulheres, sua mãe, Júlia Ivanovna, que lhe dá as primeiras noções pianísticas, e a babá, essa Niania inseparável, “contava histórias que me impediam de dormir”, presente em tantas lembranças musicais e epistolares. Já adulto, Moussorgsky encontraria obstáculos para que tivesse uma vida ao menos normal. Entrega-se à bebida, sofre de epilepsia, compõe freneticamente e nem sempre é entendido por seus pares.

A atividade epistolar de Moussorgsky, dirigida aos seus colegas do Grupo e a poucos interlocutores, entre os quais se destaca o crítico Vladimir Stassov, aborda música, preocupação com o povo, desilusões, carência afetiva, solidão. No livro “Modeste Moussorgski” há também outros temas e depoimentos de seus coetâneos.

O povo, constante em seus pensamentos, está expresso em carta a Vladimir Nokolski, ao tratar de uma de suas criações mais afamadas, A Noite de São João no Monte Calvo: “Você está bem a par de minhas convicções musicais para não duvidar que me é extremamente importante reproduzir fielmente as criações da imaginação popular, sejam elas quais forem, bem entendido, no limite dos meios utilizados para a escrita musical” (12/07/1867). Assim como Dostoiewsky, Moussorgsky é um observador. Frisa esse aspecto em tantas missivas: “Observo atentamente mulheres e mujiks típicos: uns e outros me são úteis. Quantos não são os aspectos inéditos na alma russa ignorados na arte! Eles são extremamente saborosos e simpáticos… Reproduzi em imagens musicais uma parcela de minhas observações da realidade e da intenção das pessoas que me são caras, transmitindo a elas impressões acumuladas”. Carta à Lioudmila Chestakova (30/07/1868). Em outra carta a Stassov, Moussorianine (assim ele assina em tantas missivas) escreve, num prenúncio dos eventos do início do século XX na Rússia: “Patinamos no mesmo lugar enquanto o povo não puder verificar com seus próprios olhos o caminho que lhe é imposto; enquanto não puder escolher, ele mesmo, a sua senda! Benfeitores buscam ver suas glórias documentadas enquanto o povo geme e, para não o fazer, embebeda-se continuamente, mas contrariamente, gemerá ainda mais forte: nós estamos, pois, sempre lá!” (16-22, 06/1872).

Moussorgsky emana conceitos sobre a condição humana, mas luta igualmente: “Os homens evoluem e, como consequência, a sociedade humana também; a compatibilidade das exigências do homem evoluído [para seu tempo] com aquelas que lhe impõe a sociedade [igualmente para o seu tempo] representa a harmonia que buscamos, e a via em direção à harmonia passa por uma luta feroz, sejam quais forem as circunstâncias”. Carta a Arséni Golénichtchev-Koutousov (02/03/1874).

O escritor e aventureiro Sylvain Tesson define bem uma palavra russa traduzida em francês como pofiguisme: “O pofiguismo não toma emprestado nem à resignação dos estoicos, tampouco ao desprendimento dos budistas. Também não ambiciona conduzir o homem à virtude pregada por Sêneca, nem dispensar méritos cármicos. Os russos pedem simplesmente que os deixem esvaziar uma garrafa, pois amanhã será pior do que hoje. O pofiguismo é um estado de passividade interior corrigido por uma força vital. O profundo desprezo por toda esperança não impede o pofiguista de desfrutar ao máximo os sabores do dia que passa” (Dans les forêts de Sibérie).

Em carta a Stassov, Moussorgsky traça quadro relacionado à técnica composicional, comparando-a em certo ponto à culinária: “Talvez tenha medo da técnica, pois é meu ponto fraco. Muitos me defendem sobre esse capítulo igualmente. Detesto, por exemplo, o costume de cozinheiras que dizem, falando de um paté em vias de ser cozido ou, mais precisamente, comido, que sua preparação exigiu ‘um milhão de pitadas de manteiga, quinhentos ovos, toda uma quantidade de brócolis, cento e cincoenta peixes e um quarto…’ Comemos o paté e achamos delicioso, mas desde que a cozinha é mencionada, vem-nos à mente uma cozinheira ou um cozinheiro eternamente sujo, o chapéu típico, um peixe eventrado sobre um outro, muitas vezes com as tripas à mostra. Outras vezes, a imaginação sugere um avental imundo de gordura, no qual por vezes ela ou ele soa o nariz, esse mesmo avental que serve para enxugar as bordas dos pratos, fazendo-os brilhantes… Pensando assim, o paté torna-se pior. As obras de arte acabadas possuem esse aspecto de castidade a interditar tocá-las com as mãos sujas: é repugnante”.

Se já abordei o arguto senso de observação de Moussorgsky, mencione-se exemplo em que, dessa atitude, o compositor passa à prática: “Durante o trajeto de barco de Odessa a Sebastopol, havia a bordo mulheres que cantavam; à altura do farol de Tarkhankhout [onde naufragara o iate Livadia], enquanto certos viajantes começavam a sofrer enjoos, observei que duas mulheres, uma grega e uma judia, cantavam suas canções. Juntei-me a elas, que ficaram felizes e me chamaram de mestre. A propósito, tendo assistido em Odessa a ofícios em duas sinagogas, fiquei entusiasmado. Guardei dois temas hebraicos: o do cantor acompanhado pelo coral e também o executado em uníssono”. Longa carta a Stassov (10/09/1879).

Esse relato, próprio de atento observador, corrobora outros olhares de Moussorgsky, como aqueles durante a exposição de aquarelas (1874) de seu amigo Victor Hartmann falecido em 1873. O impacto levou o compositor a compor uma das obras mais emblemáticas da arte musical, os Quadros de uma Exposição para piano e futuramente orquestrados por compositores como Maurice Ravel, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone. Escreve a Stassov aos 12 ou 18 de Junho de 1874: “Meu caro generalíssimo, Hartmann ferve em minha cabeça como ferveu Boris (referia-se à também emblemática ópera Boris Goudonov); os sons e as ideias estão suspensos no ar, absorvo-os, lambuzo-me, a chegar apenas a rascunhar sobre o papel. Escrevo agora o nº 4, as ligações são boas (tratava-se das diversas Promenades, passeios que interligam os quadros). Quero findá-los o mais rápido e da melhor maneira possível. Minha fisionomia aparece nos intermédios. Acredito que está dando certo. Dê-me sua benção” (traduzido por JEM a partir da versão francesa do original russo).  Moussorgsky comporia em cerca de duas semanas uma obra-prima, e durante esse tempo, teria ficado autorrecluso.

Detenho-me nos Quadros... pois eles representam a síntese dessa atenta observação. Não seriam os temas dos dois judeus, Samuel Goldenberg e Schmuyle, inspirados em outras escutas, Tuilleries não lhe veio à mente após presenciar miúdos brincando, A Cabana sobre patas de galinha – moradia da feiticeira Baba-Yaga não traria a Moussorgsky as reminiscências dos contos de Niania, sua babá, que “o impediam de dormir”, o tema da Grande Porta de Kiev, a finalizar a obra maiúscula, não é certamente a lembrança inconsciente de Frère Jacques, considerando-se que as melodias do cancioneiro francês eram entoados por Nianias, tantas delas vindas de França, pois o idioma de Voltaire era quase uma segunda via nas classes mais abastadas russas?

Clique para ouvir os Quadros de uma Exposição na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

Modeste Moussorgsky, autor de obras imorredouras, como as óperas Boris Goudonov e Khovanshchina, ciclos de canções absolutos, Quarto de criança, Sem sol, Cantos e danças da morte, os Quadros de  uma exposição – um dos compositores preferidos por Claude Debussy e Igor Stravinsky -, sucumbiria no infortúnio, vítima, entre outras causas, do álcool e da epilepsia. Tem-se nos versos finais da canção escrita aos 18 anos, Onde estás pequena estrela: “A nuvem negra escondeu a estrela, e a menina foi envolvida pelo túmulo gelado”.

This post addresses the book “Modeste Moussorgsky et le drame musical russe – notice autobiographique, lettres, souvenirs de contemporains” (Éditions Radouga, Moscou, 1987), covering, among other subjects, the letter exchange between the Russian composer Modest Mussorgsky and a few interlocutors, among them the critic Vladimir Stassov and members of The Five, a group of composers that included Mussorgsky, Aleksandr Borodin, Mily Balakirev, Nikolay Rimsky-Korsakov and César Cui, all bound by the goal of creating a distinctive school of Russian music. In my view, the reading of Mussorgsky’s personal letters has particular importance if one wants to learn about his music, his psychological portrait, his shrewd understanding of the Russian people — something that has impacted on the music he wrote — or, in a word, the paths trodden by the composer in music and in life.

Francisco de Lacerda em montagem a seguir intenções do autor

Essa obra é um milagre…
Willy Corrêa de Oliveira
(após ouvir as Trente-six histoires mais de uma vez)

Há tempos, meu dileto e fidelíssimo amigo Elson Otake perguntou-me a respeito da introdução das Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste no Youtube. Razões múltiplas fizeram-me postergar a proposta. A palestra e o recital que apresentei em Outubro abordando Francisco de Lacerda, neste ano do sesquicentenário de seu nascimento, aguçaram o anseio de Elson, que já estava a preparar todo o material, o que me fez prometer ao leitor-ouvinte a introdução das Trente-six histoires… no aplicativo até o fim do ano. Tem-se, nas Trente-six histoires…, uma obra programática – frases a acompanhar por vezes o discurso musical -, o que leva o intérprete a escolher possibilidades. Para a apresentação pública dessa sensível criação de Francisco de Lacerda, miniaturas gestadas ao longo de 20 anos, há várias vertentes: interpretá-las na íntegra sem interrupção; com auxílio do power point que, a cada uma das 36 histórias, norteia o ouvinte, inclusive com as frases inseridas por Lacerda em tantas das pequenas composições, ou com um narrador a dizer cada título.

Elson Otake e eu várias vezes, ao longo destes últimos anos, introduzimos no Youtube criações de suma importância na literatura para piano ou teclado, caso das seis Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau (1660-1722) contendo o “programa” – frases a indicar situações apresentadas no decorrer da música -, ou pertencentes à coletânea que leva à sugestão, exemplificada pelas Viagens na Minha Terra, de Fernando Lopes-Graça, em que o compositor transita pelo território português, a oferecer curtas peças  evocando situações, festejos, religiosidade… Tanto as Sonatas Bíblicas como as Viagens na Minha Terra tiveram power points preparados pelo Prof. Pedrosa Cardoso e que serviram nas diversas apresentações que realizei em Portugal ao longo dos anos.

No que tange as Trente-six histoires…, realizamos em várias cidades portuguesas a criação de Lacerda (2011), tendo como suporte o power point preparado por Pedrosa Cardoso. Funcionou muito bem nos recitais, pois, ao seguir as peças através da leitura no programa impresso, o ouvinte geralmente se perde em determinado momento. Auscultando tantos desses aficionados, cheguei à conclusão de que a apresentação da obra de maneira convencional, sem suporte, mesmo a encantar o público desorienta-o, pois este pode perder-se após a escuta de algumas miniaturas. O power point funcionou bem, pois os títulos, epígrafes e frases inseridas estavam em francês – assim Lacerda os nomeou – e português na tradução do Prof. Pedrosa Cardoso. O musicólogo se valeu igualmente de algumas imagens para enriquecer o power point, desenhos de meu saudoso amigo e notável pintor Luca Vitali (1940-2013). Ao apresentar a coleção em Paris em 2012, sem qualquer suporte, alguns dos presentes disseram ter adorado a obra, mas sentiram a falta de informações que pudessem guiá-los. Era a primeira vez que as Trente-six histoires… estavam a ser apresentadas na cidade na íntegra. No recital em Outubro último no Ateneu Paulistano tivemos outra versão quanto à exposição. A esposa do compositor Willy Corrêa de Oliveira, Marta, lia os títulos e eu, antes de interpretar as peças da coleção, fazia a leitura das epígrafes ou citações contidas no texto musical. Verifiquei que essa configuração teve boa acolhida em recital.

Elson Otake também é corredor de rua, tendo sido um de meus gurus nessa atividade. Em algumas provas do calendário oficial de corridas, Elson, maratonista, abdica de sua real velocidade para correr ao meu lado. Desde 2010 é responsável pela introdução de mais de 90 músicas extraídas de minhas gravações no Exterior. Diria que Elson tem faro para as situações mais complexas. A estrutura básica do power point do Prof. Pedrosa Cardoso foi mantida, inclusive as suas traduções, com raras modificações que sugeri. Elson pensou em inserir títulos, andamentos, epígrafes e frases na exata minutagem. Assim sendo, coube a mim colocar cada frase no tempo preciso. Para a apresentação no Youtube, após testes que realizamos, funcionou muito bem. Todo o material está em francês e português. Outra ideia de Elson foi prontamente aceita por mim. Propôs ele dividir as Trente-six histoires… em três partes, constituídas por 12 peças cada. Acredita que, nessa configuração, o ouvinte terá ainda maior facilidade para escutar determinada música mais de uma vez. Como sou absolutamente jurássico no mister tecnológico, para não dizer nulo, as sugestões de um expert como Elson foram benvindas. Há razões para essa divisão, pois as doze primeiras peças privilegiam pássaros, as doze a seguir, mamíferos, e as doze finais, animais de vida aquática, exceção ao Le vieux Loup gris, às Complaintes de la Chèvre e finalmente ao Pour endormir le Dragon rouge.

Finalizava o blog e recebi mensagem do compositor francês François Servenière:

“Estou ouvindo as Trente-six histoires… Sempre amei essa obra, desde a sua apresentação em Coimbra em 2011. Retomo minhas primeiras impressões, pois Lacerda, como procederia mais tarde Messiaen, cria uma obra de naturalista. Essa criação é perfeita para contemplativos nos quais eu me incluo. É a musica sonhada para integrar-se à natureza e admirar sua funcionalidade multiforme. Quando ouvimos a sequência dessas peças curtas, ficamos encantados pelo charme atemporal dessas pinturas abstratas e, ao mesmo tempo, concretas. Sentimos os animais em movimento, suas atitudes, seus gestos.  Percebemos a natureza viva , feliz, vibrante, quase espantada de assim ser, pois há também nessas notas musicais uma interrogação introspectiva sobre a existência, com seus múltiplos pontos de interrogações musicais, essas notas deixadas em suspensão.

Adoro mesmo toda a coletânea. Lógico que, sob seus dedos de ourives nadamos no caviar auditivo. Abra a tumba de Lacerda, e nela deposite seu CD e que ele ouça o que você fez com sua obra-prima…

Os filmes estão muito bem montados por Elson Otake. Que magnífico trabalho de imagens e textos!!! Descubro as águas-fortes de nosso saudoso Luca Vitali… Carinhosos pensamentos à sua memória”. (tradução: JEM).

O link abaixo copiado, leva às Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste de Francisco de Lacerda, divididas em três partes para a apresentação no Youtube:

https://www.youtube.com/playlist?list=PL1j-Jq5yk8iyblpLYazgN-iA6IyfG6eBv

Um próximo passo está a ser pensado para 2020, a introdução de La Boîte à Joujoux, de Claude Debussy. Frases e as aquarelas de André Hellé (1871-1945) deverão enriquecer a apresentação no site.

This post announces that my recording of Francisco de Lacerda’s “Trente six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” has been posted on Youtube with video editing by my friend Elson Otake and illustrations by the late Luca Vitalli, a dear friend and great artist.