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Um pianista não reverenciado à altura

Egon Petri não foi apenas um grande pianista,
mas um dos maiores de seu tempo.
Rudolf Firkusný (1912-1994)

Regina e eu colocávamos em ordem documentos  relacionados à sua atividade musical quando nos deparamos com um autógrafo do grande pianista Egon Petri, infelizmente não cultuado à altura. Em 1953, aos 12 anos de idade, Regina participou do “First Annual Junior Bach Festival” em Berkeley, na Califórnia, apresentando recital. Dias após, na Mills College em Oakland, também na  Califórnia, Regina participaria de masterclass oferecida por Egon Petri. Indeléveis lembranças ficariam retidas, motivo justíssimo para inserir, na lista dos mestres maiores do piano de antanho, Egon Petri.

Filho de alemães, nasceu em Hanover, mas logo a família mudar-se-ia para Dresden. Seu pai foi violinista renomado que estudou com o célebre Joseph Joachim, tendo integrado, como spalla, orquestras maiores, como a Gewandhaus e a de Leipzig. Egon Petri estudaria com músicos insofismáveis: Teresa Carreño (1853-1917) e Ferrucio Busoni (1866-1924). Com o mestre italiano apresentar-se-ia em Londres (1921) e colaboraria com Busoni na edição de obras de J.S.Bach. Egon Petri foi seu mais importante aluno. Daria recitais pela Europa e pela Rússia. Seria a partir de 1929 que Egon Petri mais efetivamente se dedicaria também às gravações.

A partir de 1906 seria reconhecido igualmente como professor de mérito, tendo lecionado em importantes instituições na Inglaterra, Alemanha e Polônia. Um dia antes da invasão das tropas nazistas a este último país refugia-se na Inglaterra. Durante o resto da existência, nunca mais tocou ou visitou a Alemanha.

Ao emigrar para os Estados Unidos, lecionaria em prestigiadas instituições de ensino musical, entre as quais destaca-se a prolongada ligação com o Mills College em Oakland, na Califórnia (1947-1957). Entre seus alunos mais proeminentes, salientem-se John Ogdon e Earl Wild.

Egon Petri possuía um repertório imenso e a influência de Busoni na escolha de determinados autores é evidente. Intérprete singular de muitas criações de Liszt, unia o notável esmero técnico-pianístico que lhe era peculiar à visão integral da partitura. Há em suas execuções das mais virtuosísticas obras uma nítida sobriedade, que não exclui a fantasia. O recato no seu cotidiano e as reservas quanto à celebridade são traduzidos em suas interpretações impecáveis, sem arroubos exagerados. São modelos para os pósteros.

Quanto às transcrições, como aluno preferencial de Ferrucio Busoni, Petri altera por vezes obras desse gênero. Vale a pena considerar que uma obra original não deve ser alterada arbitrariamente pelo intérprete. Trata-se até de um posicionamento moral frente à criação. Todavia, a transcrição que “oficialmente” poderia até ser entendida como uma transgressão, mas que na verdade é uma ampliação ou não de obra já criada, permite alterações por parte do intérprete. Benno Moiseiewitsch, György Cziffra, Vladimir Horowitz, entre outros, assim o fazem em tantas transcrições, e Egon Petri insere-se nesse grupo de exímios, mormente em determinadas passagens ou na duplicação das fundamentais.

Clique para ouvir, na interpretação de Egon Petri, de Bach-Busoni, Toccata, Adagio e Fuga (gravação 1958):

https://www.youtube.com/watch?v=EQlaFq6uKNE

Todos os grandes pianistas do passado reverenciados neste espaço eram possuidores de qualidades inalienáveis e tantas das obras do repertório tradicional receberam leituras por vezes bem diversas, mas o fio condutor da tradição, mesmo que “ondulante”, esteve quase sempre presente em sua integridade.

Têm interesse frases de Egon Petri publicadas por Michaeli Benedict, que estudou com Robert Sheldon, que por sua vez foi orientado por Egon Petri, tendo recolhido alguns dos pensamentos do mestre destinados aos pianistas:

“Conheço todas as regras, mas, se elas não se encaixam, eu as quebro ao invés de quebrar a música.

Chame a sua atenção para a vibração das cordas e não para a batida do martelo sobre elas.

As pessoas estão mais interessadas no início dos sons e não na sua continuação.

Nunca tente obter mais volume batendo sobre as teclas.

Numa execução em baixa intensidade, quanto mais firmes estiverem as mãos, mais controle se tem.

O mais importante é o que acontece no fim das pontas dos dedos.

Tem-se que acomodar as coisas na mente até que se tornem automáticas.

Não tente em vão superar as dificuldades, mas encontre outra abordagem para superá-las.

Ao tocar pense sempre em curvas: sem ângulos, sem paragens.

Este é um princípio de vida: A calma é baseada na confiança.

Pedal: Um instrumento muito bonito, mas perigoso.

Rubato é como um homem a passear o seu cão. Por vezes o cão está à frente, outras vezes atrás, mas ambos vão e voltam juntos, (meu saudoso professor José Kliass – 1895-1970 – comparava o rubato ao cambalear de um bêbado, ele dá passos rápidos para um lado, equilibra-se e retorna ao ponto inicial).

O medidor é algo inventado pelo homem, como o metrônomo, o relógio, etc…

A frase na música é como falar ou ler, pois observa-se a pontuação; a dinâmica é como a inflexão da voz. Não se deve exagerar.

Estou aqui para defender o compositor.

Clique para ouvir, na interpretação de Egon Petri, de Liszt-Busoni, Valsa Mefisto: Considere-se que, nas primeiras décadas do século XX, as gravações eram precárias sob a ótica atual, e assim mesmo podemos ouvir as interpretações singulares de Egon Petri em 1929. Os sons sempre são interrompidos abruptamente ao final das peças, não havendo a reverberação tão necessária, maior presentemente quando realizada em teatros ou templos com acústica impecável:

https://www.youtube.com/watch?v=2a5RS0NBI4U

Reitero que os grandes intérpretes do passado deveriam ser mais cultuados. Partir-se de uma estação ferroviária pressupõe o conhecimento do roteiro anterior, pois é possível que se percam as referências do todo. Na fronteira dos 83 anos, mais acentuadamente verifico que, nesta civilização do espetáculo, mesmo que extraordinários pianistas surjam sob o aspecto técnico-pianístico, mais claramente apreendo que câmaras e holofotes têm provocado nos executantes gestuais histriônicos e procedimentos interpretativos duvidosos. Ouvir o passado é fonte segura, que deveria ser mantida com desvelo.

Recentemente foi publicado livro de Alfred Kanwischer “Egon Petri – Musician to the world” (Cuvillier, 2019). O autor recupera entrevistas que manteve com Petri entre 1960 e 1962. Merece leitura.

Clique para ouvir, na interpretação de Egon Petri, as seguintes obras: Paganini-Liszt, Estudo nº 5; Liszt, Dança dos anões; Wagner-Liszt, O holandês voador; Schubert-Liszt, A trutaPara ser cantado na água (gravação 1929).

https://www.youtube.com/watch?v=0ikiYdM29eE

Estava em supermercado quando encontro com Marcelo. Questionador, pergunta-me: “de todos esses pianistas, qual o melhor?”. Respondo-lhe que um juízo de valor é perigoso. Todos os que desfilaram em posts, que datam de Março de 2007, tiveram qualidades insofismáveis. Sob outra égide, nem sempre um pianista é suficientemente especializado em determinado compositor, sendo contudo extraordinário ao executar tantos outros autores. Melhor, todos eles têm méritos que os fizeram reverenciados por aqueles que apreciam as grandes interpretações, apesar da mutação do espetáculo na atualidade.

Egon Petri was one of the greatest names of the piano in the 20th century. The best pupil of Ferrucio Busoni, he collaborated with him on editions of J.S.Bach. Petri became a respected model of tradition, leaving a legacy through his recordings, not forgetting to mention his teaching activity in several music education centers, mainly in the United States.

 

 

 

 

 

 

 

200 casos verídicos narrados por Jorge de Souza

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de navegar
Sobre as ondas azuis o nosso pensamento!
Miguel Torga
(“História Trágico-Marítima” – Alguns Poemas Ibéricos, 1952)

Na adolescência fascinavam-me os livros de biografias e as aventuras reais. Meu saudoso pai incentivava as histórias de figuras que permaneceram na história, pois as entendia como exemplos norteadores. As epopeias e grandes aventuras pouco a pouco também preenchiam minhas estantes. Marcas indeléveis permaneceram. Nos blogs, que remontam a Março de 2007, há inúmeros livros que, após leitura, resenhava ou comentava, mormente os relativos à cadeia de montanhas do Himalaia e seu pico maior, o Everest. Com a “vulgarização” das subidas ao pico, movidas por organizações especializadas nesse mister, centenas de “curiosos” sobem anualmente e não poucos sucumbem. Perdeu-se a magia, profanaram a Deusa Mãe do Céu Sagarmatha, segundo os nepaleses, desvirtuaram o alpinismo, hoje, de turismo. Apesar dessa realidade, ainda me entusiasma a leitura dos acessos ao K2, duzentos e pouco metros menos elevado, muito mais perigoso e, por não ser o maior, pouco visitado.

Nesses últimos dez anos entusiasmaram-me as aventuras do extraordinário aventureiro francês Sylvain Tesson e resenhei mais de dez livros (vide Resenhas e Comentários no menu) em que o autor descreve com agudeza suas andanças pelo planeta, quase sempre solitário.

Nessa interminável pandemia, li em um dos portais instigante artigo sobre um navegador que, em barco pequeno, realizou a circum-navegação do planeta sem parar em terra alguma. Ao fim da matéria havia publicidade de um livro: “Histórias do Mar – 200 casos verídicos” (São Paulo, Agência 2, 4ª edição, 2020). Interessei-me e adquiri-o via internet. A conta-gotas fui lendo as duas centenas de aventuras que se estendem do início do século XVI à atualidade. O autor, jornalista Jorge de Souza, é especialista em fatos, aventuras e histórias ligadas ao mar. Criou revistas afins e tem atuação permanente na mídia.

O notável navegador Amyr Klinck opina sobre o “Histórias do Mar”: “Sensacional! Livro viciante, daqueles que a gente não consegue parar de ler”.

Rigorosamente leigo na matéria, só entrei em um barco pequeno, o famoso pô-pô-pô – denominação simpática devido ao barulho do seu motor -, abundante nas águas do rio Guamá, para uma travessia de Belém à ilha do Cumbu. Comungo a opinião do pianista René François Duchâble (vide blog: “René François Duchâble”, 30/01/2021), que tem medo de viajar de navio e que jamais o fez. Esse é meu temor também, mas o fato não invalida assistir a documentários sobre barcos pesqueiros no mar do norte, ou aventuras marítimas pungentes. Recordo-me das duas leituras, uma na juventude e outra faz alguns anos, de “A expedição Kon-Tiki” (vide blog: 29/09/2018).

Amyr Klinck, tantas vezes navegante solitário, tem toda a razão sobre o livro. Centrei-me em poucas histórias diariamente, mas a vontade era prosseguir.

Jorge de Souza é um expert na temática “mar” sob os mais variados aspectos. Historicamente narra desde aventuras, naufrágios, pirataria e aspirações que remontam aos primórdios do século XVI. Torna-se evidente que a documentação desse período e os subsequentes é bem mais escassa, mas o autor, com perspicácia, consegue imprimir “atualização” a essas aventuras marítimas de antanho.

À medida que nos aproximamos do século XX e que a navegação se torna bem mais intensa, relatos ganham configuração mais abrangente, a não ser quando há misteriosos desaparecimentos de comandantes e seus adjuntos no mar, mas não das embarcações. Não são poucas essas narrativas. Pirataria em alto mar, revolta de tripulações que, após eliminarem comandantes e ajudantes, evadiram-se em barcos salva-vidas e igualmente deles não restariam traços. Jorge de Souza sempre enfatiza essas situações. Navios fantasmas.

Não há como pontuar algumas das 200 histórias, tantas trágicas, outras dramáticas e algumas hilárias. O texto de Jorge de Souza tem teor jornalístico, é leve, agradável, sem quaisquer requintes literários mais sofisticados. Talvez seja essa apreensão, independentemente de algumas histórias mais longas e elaboradas, que tornam a leitura tão agradável. Se não aborda o Titanic (mais de 1.500 vítimas), pois já se tornou um enfado retornar ao tema, creio que um pormenorizar maior sobre a tragédia marítima que atingiu 9.300 pessoas e que, no livro, tem como título “O triste fim do Titanic de Hitler”, enfatizaria ainda mais a insanidade das guerras, quando o transatlântico alemão Wilhelm Gustloff foi torpedeado por submarino russo em 30 de Janeiro de 1945, nos estertores da IIª Grande Guerra. O Titanic, cercado de glamour e aura de navio perfeito, foi a pique ao chocar-se com um iceberg; quanto ao segundo, superlotado por civis alemães em fuga e soldados feridos do regime nazista, dos certamente mais de 10.500 “passageiros” apenas 1.239 sobreviveram.

Um sobrevivente dirá décadas após: “os mortos estão tranquilos, mas nós, sobreviventes, morremos a cada dia”. Pungente documentário traduz a maior tragédia marítima em termos de vidas perdidas:

https://www.plongee-infos.com/chaque-jour-une-epave-30-janvier-1945-le-wilhelm-gustloff-la-plus-grande-tragedie-maritime-de-tous-les-temps/

A contrastar com essa magnitude, em “Histórias do Mar” Jorge de Souza conta casos até bizarros de viajantes solitários que, atingindo ou não seus objetivos, arriscaram-se pelos mais variados motivos: aventura, fuga, diversão, notoriedade, furto. Alguns se deram muito mal e levaram seus sonhos para o fundo do mar. Impressionam determinados casos de aventureiros que contam unicamente com o alimento extraído do mar — peixes, tartarugas — e do espaço, quando aves migratórias ou distantes de terra firme encontram um lugar para descansar. Nas “histórias” de Jorge de Souza sobre esses navegadores solitários o que não falta é a diversidade de condutas.

Jorge de Souza alerta sobre o descaso das autoridades que permitem que barcos superlotados de turismo ou de viajantes naveguem pelas águas brasileiras. Menciona a tragédia “do barco Novo Amapá na foz do rio Amazonas, onde morreram mais de 250 dos 600 passageiros – embora ele só tivesse capacidade oficial para 150 pessoas”. Oito meses após seria o Sobral Santos II, característica gaiola amazônica (Setembro, 1981), igualmente naufragando por falta de fiscalização, superlotado, a deixar dezenas de desaparecidos. O autor insere no livro a tragédia do  Bateau Mouche, também superlotado, que naufragaria na noite de 31 de Dezembro de 1988 na saída da Baia de Guanabara. Não há necessidade de profetizar, mas por desleixo na fiscalização tantas outras tragédias como essas serão tratadas pelo autor futuramente, hélas.

Pela abrangência, tem interesse especial o relato sobre o submarino alemão U-507, que, durante a IIª Grande Guerra, com seus torpedos afundou vários navios brasileiros em 1942. Comenta: “Foi ele, também, que decretou o trágico destino de mais de 600 brasileiros, muitos deles mulheres e crianças, ao torpedear navios de passageiros sem nenhum aviso. Foi Harro Schacht (comandante), enfim, que fez o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial, após a nação, indignada, romper sua neutralidade”. Meses após, em 1943, o submarino voltaria aos mares do sul e encontraria seu fim causado por bombas de profundidade lançadas por um avião Catalina, que escoltava comboio de navios.

Creio que o leitor poderá se interessar pelas narrativas que, por vezes, em casos específicos, são abordados por Jorge de Souza com fino humor ou ironia.

Ficaria apenas uma observação, resultado de meu desconhecimento de outras obras de sucesso do autor. Gostaria que houvesse sido inserida a extraordinária façanha de Ernest Henry Shackleton, que, na expedição à Antártida (1914-15), assistiu ao esmagamento pelo gelo de seu navio Endurance, mas que, após verdadeira epopeia, salvaria a tripulação.

Since my youth I have enjoyed books based on true adventures. Many have already been mentioned in this blog, like the ones about the Himalayan mountain range or the many books by the French adventurer Sylvain Tesson. “Histórias do Mar” (Sea Stories), written by Jorge de Souza, a journalist and editor specializing in facts occurring at sea, is a book of great interest and worth of attention. A real page turner, from beginning to end a compelling read.

 

Carreira consagrada e projeto cultural a envolver a Chapelle Royale de Senlis

É certo que, para um artista que carrega uma mensagem, devolvê-la numa hora fixada
diante de um público que se pretende numeroso,
ao menor estremecimento das fibras de sua sensibilidade resultará um estado entre a ação das graças
e o suplício de Tântalo.
Transfigurado pela pujança de sua visão,
ele entra em incandescência
até se tornar a encarnação viva da revelação fugidia.

György Cziffra
(“Des canons et des fleurs”)

Neste último post sobre o pianista György Cziffra, três temas têm interesse maior: a carreira vertiginosa que assombraria plateias, o hercúleo projeto que compreende a guarda e restauração da Chapelle Royale de Saint-Frambourg em Senlis e a intensa relação com seu filho, György Cziffra Jr., regente de talento.

Fugindo do regime húngaro em 1956, no início da revolução húngara, que em poucas semanas foi sufocada pelos tanques Soviéticos, Cziffra, a mulher Soleika e o filho se refugiam na França, país que concederá futuramente a cidadania aos três. Sua primeira apresentação naquele ano foi fulminante. Impactavam-se as estruturas conceituais da denominada escola francesa de piano. Jamais tinham ouvido tão grande virtuosidade em um pianista. Alain Lompech comenta: “György Cziffra tinha um ar estranho e dez vezes mais dedos do que seus contemporâneos” (“Les grands pianistes du XXº siècle”, 2012). Doravante sua carreira foi meteórica, apresentando-se no Ocidente e no Oriente diante de plateias extasiadas por suas performances singulares.

Esse assombro persistiria durante certo tempo e, posteriormente, o conhecido esprit de corps de alguns colegas e da crítica tentaria minimizar sua atuação, mormente no fator estilo. Alain Lompech avoca: “sua colega Martha Argerich (1941-), que amou Cziffra na primeira vez que o ouviu através de discos nos anos 1950, contou que sentiu o desprezo da classe em relação a ele quando transmitiu toda a sua admiração a músicos célebres. Responderam-lhe ‘sim, o cigano…, enfadonho’ ”. No post anterior inseri palavras ácidas de Cziffra sobre a crítica. Corroborando certos posicionamentos quanto às suas performances extraordinárias, que ensejaram opiniões até desairosas devido seguramente à sua formação inicial e “autodidata”, fora dos padrões de conservatórios, pareceria inacreditável a ausência de seu nome, sequer como menção, nos livros de Harold Schonberg, “The great pianists” (1966) e de Elyse Mach, “Great contemporary pianists speak for themselves” (1991), mormente deste, sabendo-se que em “Des canons et des fleurs” Cziffra tanto escreveu! Incontáveis outros pianistas respeitáveis são mencionados, mas inúmeros sem a dimensão de Geörgy Cziffra.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de J.S.Bach a Toccata e Fuga em ré menor:

https://www.youtube.com/watch?v=0O7mb0soC3g

A atividade do pianista não se resumiria somente à vertiginosa carreira. Ao receber a cidadania francesa, passa a utilizar o prenome Georges e não György. Após as agruras mencionadas no blog anterior, busca retribuir a acolhida em França e tem interesse o diálogo com André Malraux (1901-1976), notável escritor, pensador, historiador e ministro da Cultura (1959-1969) no governo de Charles de Gaulle. György Cziffra foi aconselhar-se com Malraux, a fim de sugerir essa contribuição que entendia necessária, no caso, a restauração de um templo:

“- Seu projeto vos honra… mas não deve ser realizado em Paris, pois não mais há na cidade um pedacinho de terreno onde a intenção do homem não colocou o pé. Talvez em Senlis, que não é uma cidade como as outras. Senlis é bem mais do que isso, é o berço da França. Creio ser a mas antiga dessas igrejas, a antiga Chapelle Royale de Saint-Frambourg, obra-prima hoje periclitante. Outrora foi o feudo dos primeiros Capetianos (final do século X). Presentemente está na iminência de desabar. Vandalizada durante a Revolução, serviu de templo da Razão, forja, loja de forragem, manejo de cavalos, caserna de bombeiros e atualmente… estacionamento pago! Deus sabe como ela é bela. Se você conseguir revelá-la, a França lhe deverá uma vela honrosa, digo-lhe francamente. Mas, há necessidade de muito dinheiro. Você tem o suficiente?”

Após a negativa de Cziffra, a dizer que poderia ao menos iniciar a recuperação, imediatamente Malraux o interrompe com a afirmação de que seria necessário muito dinheiro, indagando como poderia fazê-lo: “Seria com os seus dez dedos que pensa reerguer a capela real de suas cinzas?”. “Sim, respondeu Cziffra”.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Grand Gallop Chromatique:

https://www.youtube.com/watch?v=a-fyNP7y680

O estado da Chapelle Royale era deplorável: Paredes rompidas, espaços vazios sem vitrais que se tornaram abrigo, segundo Cziffra, para “corvos, centenas de pombos, milhares de pardais e gatos negros que doravante teriam de buscar abrigo em outro lugar”. Tudo a ser restaurado e… a carreira vertiginosa a dar alento.

Ao iniciar a empreitada com seus próprios recursos, vê-se cercado por “pilha de faturas com tantos zeros que me fizeram estremecer. Sou crente e habitualmente jamais rezo para pedir algo pessoal, mas sim pela saúde e felicidade de meus familiares. Neste dia rezei para São Francisco de Sales, padroeiro da igreja justo em face de minha janela, para que me desse forças para continuar, pois somente um milagre poderia fazer com que pudesse cumprir sozinho os encargos massacrantes desse projeto, mormente naquele período em que meus compromissos pianísticos eram imensos e eu não podia parar”. Desalentado, refletia sobre os quase intransponíveis trabalhos que estavam anunciados, quando sua esposa Soleika, imprescindível na condução dos trabalhos, comunica que donativos chegavam, primeiramente para os vitrais, um a representar Santa Elizabeth da Hungria e, outro, São Francisco de Sales. Saliente-se que o escultor e pintor Joan Miró (1893-1983), amigo do pianista, ofereceria também vitrais para a Chapelle Royale. Outras tantas doações permitiram, após longo processo de reconstrução, a abertura da Chapelle Royale de Saint-Frambourg para apresentação de recitais, concertos com orquestra, corais, exposições e masterclasses. O Festival de Senlis, sonho de György Cziffra, prossegue até o presente.

A proposta de André Malraux possibilitou a utilização por 40 anos da Chapelle Royale, e os esforços hercúleos do pianista húngaro-francês no sentido de reconstruí-la foram coroados. Para tanto, foi criada em 1975 a Fundação Georges Cziffra, importantíssima para a divulgação e recepção de fundos. Somente em 2016, concretizando-se o sonho do pianista, a Fundação Cziffra adquiriu a Chapelle Royale Saint-Frambourg que, na realidade, já desde a década de 1970 era a sua sede histórica.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Franz Liszt, Valsa-Impromptu:

https://www.youtube.com/watch?v=nRD5RralCgA

Um dos grandes prazeres de Cziffra era tocar sob a regência de seu filho, György Cziffra Jr. Em 1981, o jovem regente morre em incêndio em seu apartamento. Cziffra não mais tocou com orquestra e sua carreira vitoriosa aos poucos perderia a denominada joie de vivre. O brilhantismo, sempre presente, doravante ficaria marcado pela nuvem da nostalgia. György Cziffra morreu em 1992, vítima de ataque cardíaco.

Clique para ouvir, na memorável interpretação de György Cziffra ao piano, sob a regência de György Cziffra Jr. a conduzir a Orquestra Nacional da ORTF, as Variações Sinfônicas de Cesar Franck:

https://www.youtube.com/watch?v=offejPoTAzo

A interpretação de György Cziffra ultrapassa os ditames tradicionais em aspectos fulcrais. Considerando-se a atualidade que, graças à profusão de intérpretes das novas gerações, mormente da legião de pianistas do Extremo Oriente que impactam o Ocidente munidos do técnico-pianístico irrepreensível e amparados por fortes holofotes, que possibilitam às câmaras fixarem o gestual sempre mais acentuado, ouvir Cziffra, hoje, é desfrutar de algo raro. Sem contar o fenômeno absoluto que ele representa, sem explicação plausível. Há em sua execução algo de telúrico, uma anima não encontrável em outros pianistas da nova geração. A constatação de Martha Argerich se expande até os dias atuais e não são poucos os “puristas” que o veem de maneira desabonadora. Como exposto no blog anterior, Cziffra fez sua autocrítica, preparou-se leoninamente após as vicissitudes para penetrar no âmago das obras e dos autores estudados, saindo-se vencedor. O longo mergulho no de profundis da criação musical não foi realizado sem sacrifícios. Contudo, o sabido desabono de alguns intérpretes baseia-se, possivelmente, na impossibilidade de alcançarem eles próprios as performances de György Cziffra, sobretudo no quesito técnico-pianístico. Foi ele um caso à parte na história da interpretação pianística. Entre as suas incontáveis qualidades, primeiramente se destaca a virtuosidade rigorosamente singular. Acrescentem-se a clareza de sua execução, mesmo nas passagens mais transcendentais da literatura pianística; a extensão dinâmica em seus limites; a pedalização econômica nas culminâncias da virtuosidade; o senso do rubato; a sensibilidade que não esconde um passado dramático; o gestual discretíssimo; a sinceridade na execução das obras. Nada é apresentado para impactar o público, pois sua interpretação, mais precisamente nas obras de grande virtuosidade, jorra na intensidade de lavas vulcânicas.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra, de Chopin, a Fantaisie Impromptu op. 66:

https://www.youtube.com/watch?v=ow1c8esX3bQ

No pórtico dos 83 anos sensibiliza-me sempre a epopeia, o desprendimento e a generosidade de um pianista excelso que, em país que o acolheu, lega uma herança musical e física que o dimensiona como rigorosamente ímpar entre todos aqueles que se destacaram nessa “Voie Royale” (extraordinário livro de André Malraux), que também foi a grande senda percorrida pelo artista György Cziffra. Ele mesmo comparou sua futura empreitada à criação de André Malraux.

György Cziffra compôs algumas obras, assim como transcreveu para piano inúmeras outras de conhecimento público, configurando tantas delas numa escritura transcendental.

Ao finalizar o terceiro post sobre György Cziffra, exibo uma sua gravação realizada em 1934, registro incompleto, diga-se, em que o menino se apresenta com o traje de marinheiro oferecido pela irmã, tão comum nas crianças de então. Prenunciava-se a singularidade.

Clique para ouvir, na interpretação de György Cziffra aos 13 anos de idade, de Franz Schubert, o Impromptu op 90 nº 4:

https://www.youtube.com/watch?v=-rDoRRKXLSY

In this third post I address the celebrated career of György Cziffra after his escape from Hungary to France; the Chapelle Royale project in Senlis; the premature death of his only son, the conductor György Cziffra Jr., and some fundamental aspects of his interpretation.