A percepção do Perigo

Remédio é para o acidente, não para a essência.
Agostinho da Silva

O post a comentar o poema de Ruy Proença,  Anotações para uma Biografia da Terra (11/06/11), despertou vivo interesse nos cidadãos conscientes. Tendo deixado claro que estava a centralizar o tema em termos cruciantes e endogênicos que infestam o Brasil, chamaram-me a atenção e-mails vindos do Exterior, a evidenciar que Nos 60 segundos seguintes/ O homem conseguiu/ transformar um paraíso/ num lixo, versos finais do poeta, tornaram a mensagem planetária.
A ilustre amiga portuguesa Idalete Giga escreveu com rara acuidade “Mais uma vez, escolheu uma citação sempre lúcida de Agostinho da Silva para coroar o texto! Contudo, o que nos impressiona e entristece, de imediato, é o que representa o desenho de Luca , que sintetiza, na perfeição, o final do texto do poeta paulista Ruy Proença, ‘Anotações para uma Biografia da Terra’. Na realidade, a decadência da Terra e dos seres que nela habitam começou com a desumaníssima Revolução Industrial. Em poucos segundos, o homem conseguiu transformar um paraíso num gigantesco caixote de lixo onde cabe a Terra toda. Desde então, tal decadência nunca mais parou. Até quando, meu Deus?” Espiritualista, a professora entenderia o materialismo pragmático como o princípio dessas alterações que alterariam de maneira decisiva o homem frente às classes sociais.
O notável músico e pensador francês François Servenière continua a fazer a tradução de meus posts via programa encontrável na internet. Pontua, ao analisar o post em questão, aquilo que entende como a deterioração de uma sociedade voltada ao lucro, na qual os valores humanísticos têm sido progressivamente abandonados. Seu longo e-mail é cáustico, forte, cético, mas leva à esperança: “Lendo seu post concernente a poluição que o ‘homem, principal predador da Terra’ vai deixar para a natureza, para o biosistema que a alimenta e para as gerações futuras, eu me inquieto, aturdido, consciente, colérico, escandalizado, tão horrorizado quanto você. Que dizer dos desenhos de Luca Vitali, que são não apenas o produto de um mestre do crayon, mas também do gênio da inspiração que sabe sempre encontrar a imagem que nos toca, aquela que ilustrará com maior percepção uma situação complexa? Que espírito de concisão e de síntese em todas suas obras? O post, a poesia precisa de Ruy Proença, colocando em evidência a aceleração geométrica do tempo que passa desde as origens da Terra, impressão que não é apenas mera especulação intelectual. Constata-se esse crescimento também no século XX, em diversos aspectos até positivos (!!!), mas também suas consequências nefastas, como a explosão demográfica e a poluição resultante. O homem mata a Terra que o alimenta. Ambições, multinacionais, corrupção em todos os níveis, avidez da modernidade que gostaria de impor seu modelo ao resto do planeta sem se dar conta de que as necessidades para o acesso ao ‘progresso igualitário’ para toda a humanidade necessitaria de três planetas como o nosso…” Após pormenorizar diversos filmes que trazem o impasse de nossa Terra, focalizando tantos temas críticos, observa que todas essas reações são “consequências intelectuais dos fenômenos que nos fazem mal, aumentam nosso stress e a concorrência sem piedade entre os homens. E mais, nações e multinacionais tendo como meta a sobrevivência, o dinheiro e o acúmulo visando à guerra, jamais o equilíbrio e a felicidade dos povos e dos indivíduos. O cinismo atinge seu limite quando escutamos comunicações benevolentes de empresas (do petróleo aos laboratórios de medicamentos…) que nos deixam horrorizados e que fazem eco com as obras literárias mais pessimistas frente ao comportamento contemporâneo mais abjeto. Clonagem, robotização, poluição, dinheiro, corrupção, destruição do biosistema, os trangênicos, aumento dos dejetos biológicos que poluem as águas, e mais, a presença da carnificina a céu aberto. Leva-se a crer serem todos temas de rotina quando na realidade nos preparamos para o retorno à idade das cavernas como solução última para a loucura humana, cuja decorrência poderá ser um incêndio planetário. Habituei-me metaforicamente a falar do futuro das multinacionais, tendo produtos úteis, mas criminosas em suas filosofias e responsabilidades nessa desregulamentação generalizada. Eu as comparo a uma espécie desaparecida, a dos dinossauros. Os imensos conglomerados se comportam como os tiranossauros, ávidos de sangue novo e liquidando tudo o que se move e o que se opõe às suas políticas financeiras vergonhosas, produzindo a pobreza em todos os lugares onde o modelo é implantado… Nós conhecemos o destino dos animais monstruosos substituídos por pequenos mamíferos que, por sua vez, tornaram-se monstros pela ações globais e individuais com consequências desastrosas. A vida em si se caracteriza, em sua programação básica, pela luta pela sobrevivência. Só a filosofia e a religião nos livraram até agora do impasse, entenda-se, quando não instrumentalizadas por indivíduos ávidos pelo poder e a riqueza. Sob aspecto outro, o século XX nos mostrou um aumento da barbárie e de movimentos destinados ao extermínio de coletividades inteiras. Os combates dos últimos senhores todo-poderosos do dinheiro fazem-me lembrar a luta dos últimos tiranossauros… E as sociedades modernas são frágeis nas mãos desses predadores sem piedade que contaminam tudo. As revoluções futuras estão em curso e são germes evidentes de todos os problemas, que vão da explosão demográfica e suas resultantes diretas, ao crime generalizado que nos obriga em São Paulo e Rio, mas também na França, a não mais poder sair de casa após 22hs, mercê do medo da morte à espreita… diferentemente do que ainda se pode fazer nas cidades da Bélgica e nas províncias francesas. Nesses últimos espaços, nenhuma relação com as periferias dos grandes centros, que se tornaram hoje fogo e sangue, sob o domínio do Terror e das Máfias da droga. Comparo a droga à última arma destinada a corromper a juventude, como outrora os conquistadores fizeram com as armas de fogo massacrando os indígenas, a fim de subjugá-los… O retorno à borduna? As guerras e os massacres desaparecerão um dia? O planeta sobreviverá ao ultraje que destruiria seus hóspedes invasores? A Terra sobreviverá à humanidade. Temos de acreditar… A Arte poderia, na escala humana, ajudar através da linguagem pacificadora, dando espaço à beleza, à bondade, e ao amor e à divisão das riquezas, propiciando um sentido superior ao futuro do homem? Estou profundamente convencido que sim.
É por isso que o seu post sobre o poema de Ruy Proença adquire uma importância crucial. Transmitem, texto e poema, uma visão do mundo que não é estreita, que apela à não violência. Uma visão do futuro à qual agregamos nossas palavras, nossos desenhos, nossas notas musicais, nossos sons. Sabemos que poder possuem essas linguagens comparadas a outras. O balanço mínimo da Música em termos monetários atingiu US$ 1,5 bilhões nos anos 2.000. Um grão de poeira, se comparado à indústria do petróleo, mas uma influência muitíssimo maior sobre todos os espíritos no sentido da transmissão de mensagens de paz e de amor. Quase à imagem da religião cristã, que foi durante séculos pobre, mas muito mais eficiente no sentido de enraizar mensagens no coração dos homens de que qualquer potência política ou financeira. Nós somos, sim, os músicos do belo, os herdeiros da longa tradição. Nosso poder de transformação e influência é enorme, muito maior do que podemos admitir numa primeira reflexão. Foi isso a motivar meu trabalho crítico sobre sua discografia e a amplidão que resultou através de nossa correspondência futura. Escutando-a, tive o sentimento de estar diante de algo superior. É assim que trato também minha obra musical, a buscar transmitir àqueles que a escutam eflúvios da criação em direção ao melhor de cada ouvinte. Não deixo de sentir essa sensação ao ouvir ‘Ó meu Menino (Magnificat em talha dourada)’ de Eurico Carrapatoso. Que chance participarmos dessas convicções conscientes e inconscientes após termos nos conhecido.
Poderia parecer que somos nefelibatas. É possível. Mas acreditar ainda é salvaguarda”.

 Readers of my post about a poem by Ruy Proença  (Notes for a  Biography of Earth) sent me e-mails going deeper into the subject. I selected two of them for this week’s post.

 

As Esperanças de um outro Polegar

A mente a guiar os atos das mãos.
Provérbio vietnamita

Pouparei o generoso leitor. Não exibirei as fotos da intervenção cirúrgica no meu polegar da mão direita, três dias após o recital no Instituto Dante Pazzanese. As da esquerda estão fixadas em blog anterior (vide Cirurgia da Mão – Rizartrose, 09/10/10). O problema também era o da Rizartrose.

A cirurgia do polegar esquerdo, realizada pelo ilustre cirurgião Prof. Dr. Heitor Ulson, alcançou os mais esperançosos resultados. Diria eu que, hoje, minha mão esquerda está como sempre, antes da evolução da Rizartrose que se instalou lentamente até o impasse. Só de lembrar que todas as minhas gravações no Exterior, desde 1995, foram precedidas por intensas doses de antiinflamatórios, causa-me estranha sensação. Se o polegar da mão esquerda está sem qualquer problema, o da direita, sobrecarregado neste último ano, trazia-me a presença diária da dor quando dos estudos pianísticos, pois, por instinto, levava-me à comparação. Sem as dores na região do polegar esquerdo, acentuaram-se – é mentalmente natural – os incômodos do polegar direito. Igualmente o recital do último dia 3, com obras de forte impacto, teve a tranquilizá-lo fortes doses de medicamentos. As radiografias, tiradas em meados de Maio, não deixavam dúvidas. O quadro atingira um limite e a cirurgia fazia-se necessária, sempre sob os cuidados do Dr. Heitor Ulson. Um pianista tem de pensar muitas vezes antes de escolher o cirurgião preciso. Lembro-me sempre, hoje com certa galhofa, de consulta realizada quando o mal estava a se instalar em meus polegares. “Especialista” em outra área aconselhou-me a parar com os recitais e as gravações. De maneira “segura” e sem rubor, observou: “O Sr. já tocou muito até hoje. Recolha-se e toque para si e para seus familiares”. Saí quase a correr ao ouvir vaticínio contra natura. E na realidade “especialistas” diariamente emitem diagnósticos que podem, até, ter consequências catastróficas.

A Rizartrose instala-se pouco a pouco. Sem contar fatores genéticos, na medida em que as causas não são abolidas, como o impacto dos dedos e dos polegares sobre o teclado em determinadas obras nas quais, in adendo, haja abertura excessiva das mãos, as cartilagens tendem à deterioração, e esse contato direto osso x osso torna o ato de tocar bem doloroso. O temor frente à primeira cirurgia, apesar de insistentes conselhos do Dr. Ulson desde a década de 90, fez-me sempre protelar a decisão. Os paliativos antiinflamatórios conseguiram “anestesiar” os polegares em desempenhos públicos e gravações que poderiam ser realizados em circunstâncias  muito dolorosas. Todavia, não utilizava medicamentos no dia a dia dos estudos pianísticos. Logicamente, outras são as gradações de intensidades, desde os sons menos intensos aos mais impactantes, durante o ato diário de tocar piano. Mas não houve um só dia, nesses 15 ou mais anos, em que a dor deixasse de ser minha “companheira”. E a decisão inalienável foi sempre adiada, até 2010. A recuperação total após a primeira cirurgia levar-me-ia à certeza da segunda.

Sentir segurança. No recital do dia 3 externei em público a minha convicção e confiança no cirurgião competente, presente ao evento. Doses fortes de antiinflamatório me dariam a efêmera garantia de não sentir dores durante a apresentação. E chegou o dia 6. Cirurgia delicada precedida de anestesia geral, mas a esperança como norte. Só de vislumbrar a ausência de poderosos medicamentos no futuro já é uma dádiva, sobretudo ao adentrar os 73 anos. Para este ano, as apresentações deverão privilegiar programas de menor impacto, pois seis meses são necessários para a plena recuperação. Todavia, riqueza repertorial permite a diversificação e a escolha, a depender das situações. A longa tournée em Portugal em Novembro deste ano terá, do compositor português nascido nos Açores, Francisco de Lacerda (1869-1934), as Trente-Six Histoires pour Amuser les Enfants d’un Artiste, com apresentação de datashow preparado pelo ilustre professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso e mais desenhos do excelente Luca Vitali. Dois compositores de grande mérito escreveram obras a homenagear o grande músico açoriano: Eurico Carrapatoso e François Servenière, e essas criações serão apresentadas em première.

Se no post mencionado apresentei fotos da cirurgia, no presente apenas flash das mãos, quinze dias após a intervenção. Cicatrizes: a recente e a de 2010, esta concernente ao polegar da mão esquerda. Para os instrumentistas ficaria o depoimento a respeito de solução que se pode dar ao problema. Que não aguardem três lustros, como o fiz, e que busquem orientação precisa, sem confundir reumatologista ou ortopedista, com cirurgião da mão,  especialistas em áreas distintas. Há casos que apenas a cirurgia resolve.

Ficaria sempre o meu agradecimento ao Dr. Heitor Ulson, Prof. Dr. do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNICAMP, Coordenador da àrea de Cirurgia da Mão e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Cirurgia da Mão. Como bem dizia a minha legendária professora de piano em Paris entre os anos 1958-1962: “Nada resiste ao estudo e à competência”.

For many years I’ve been suffering from rhizarthrosis, a chronic and progressive wear of the cartilage of the joint at the base of the thumb. The extreme exposure of my hands during piano practice made the surgery unavoidable. Last year I was operated on the left hand, with excellent results. Two weeks ago, on the right hand, once again by the hand surgery specialist Dr. Heitor Ulson. This post Is an account of the surgery and the post-surgery treatment.

Oxalá Esteja a Acontecer

Il faut avoir vis-à-vis de l’oeuvre que l’on écoute,
que l’on interprète ou que l’on compose,
un respect profond comme devant l’existence même.
Comme si c’était une question de vie ou de mort.
Pierre Boulez

Les instruments, quels qu’ils soient,
ne sont là que pour restituer l’énergie engrangée,
de quelque manière que se soit et la projeter vers l’extérieur,
quel que soit le talent mis en oeuvre. Il n’y a de beauté à mon sens
uniquement quand ce talent s’efface
au profit d’une compréhension intime et d’une expression parfaite de l’univers,
comme si un langage divin passait par l’impétrant qui n’avait qu’à se laisser porter.
François Servenière

Foram inúmeras as vezes em que escrevi sobre a ausência de crítica especializada em música na cidade de São Paulo. Em tempos da Universidade, pleiteei junto a colegas a inclusão de curso específico para crítica de Arte, a partir da premissa que o possível ingressante tivesse o conhecimento básico da área a que se destinasse. No campo da Música, como intérprete,  teórico ou até jornalista, a ter como conditio sine qua nom conhecer as estruturas musicais básicas e possuir escuta acurada, únicos caminhos viáveis para uma avaliação crítica a partir do entendimento competente.

Infelizmente os meados do século XX ficaram esquecidos. Período em que a cidade contou com mais de dez críticos de música de concerto, sendo que muitos com currículo de mérito. Entre eles: João Caldeira Filho de “O Estado de São Paulo”,  H.J. Koellreutter e L.C. Vinholes do “Diário de São Paulo”, Dinorah de Carvalho do “Diário da Tarde”, Diogo Pachedo de “O Tempo”,  Arthur Kauffman da “Folha da Tarde”, Lilly Wolf do “Jornal Alemão”, Cyro Monteiro Brisolla “Correio Paulistano”, Odette de Faria do “Shopping News de São Paulo”. Todos conhecedores das estruturas que regem composição-interpretação.  Estiolou-se a crítica musical e o Maestro Júlio Medaglia faz-se exceção no desolador quadro que nos é apresentado. Escrevem, alguns com “verniz” musical ou realmente a desconhecer o que se passa numa partitura, o que invalida conceitos emitidos tanto na apreciação crítica como em artigos versando sobre música.

Estou a me lembrar de personagem que se outorgava o título de “crítico” e que, nos intervalos de recitais ou concertos, buscava auscultar opiniões de músicos. Certa vez emiti meu posicionamento a respeito de uma apresentação de artista estrangeiro. Dias após, assinado e “autenticado”, li com espanto a minha avaliação, que transmitira ao personagem, transcrita na íntegra.

Qual não foi minha surpresa ao ler pela manhã e-mails recebidos durante a noite, um de ex-aluno da Universidade de São Paulo e que, presentemente, tem sido assistido em minha casa. Teceu crítica de meu recital do dia 3 de Junho. Nele busca comentar as obras que foram executadas. Mesmo considerando a natural posição favorável de um jovem que periodicamente tem aconselhamento com o velho professor, assim como uma sua primeira incursão na área da crítica, ainda envolvida em aura romântica, resolvi colocar no post semanal a apreciação de Paulo Marcos Filla, na esperança de que, se espaço encontrar em nossa mídia já rarefeita, tenha ele a possibilidade de exercer, na competência, a rara atividade de crítico musical que conhece Música. Caso não encontre, haverá sempre a internet como atual força maior de divulgação. Mencionaria uma vez mais posição que sempre defendi, a de que minha ação nos tempos da Universidade foi a de formar o músico na acepção e jamais o tecladista em particular. Sem a apreensão humanística, o pianista, mesmo que extraordinário instrumentista, terá lacunas, por vezes, perenes. Pedi consentimento a Paulo Marcos Filla e transcrevo o e-mail completo:

Prezado Prof. Jose Eduardo, bom dia.

Estou-lhe escrevendo porque acredito não ter conseguido, pessoalmente, expressar toda a gratidão pelos momentos sensíveis e pela aula espetacular de interpretação e de vida proporcionados pelo senhor durante o recital de piano do dia 03/06/2011, no Auditório Cantidio de Moura Campos Filho, do Instituto Dante Pazzanese. As suas palavras iniciais  foram realmente marcantes, principalmente quando mencionada aquela fase de superação de um problema tão difícil. Naqueles poucos segundos em que o senhor nos explicou a respeito de os médicos terem-lhe dado de seis meses a um ano de vida, apesar de já haver lido sobre o fato nos blogs, confesso ter sido tomado por intensa emoção. De forma involuntária, naquele momento específico, além de presenciar o grande artista no palco dando as boas vindas ao seu público, diversas imagens passaram pela minha memória, acredito que tudo numa fração de segundo: todos aqueles presentes que o senhor nos deu quando da época uspiana: as aulas excelentes sobre literatura e interpretação pianísticas, todos aqueles CDs, os livros, a divulgação de um repertório de altíssima qualidade (tanto brasileiro quanto estrangeiro), mas em grande parte desconhecido, as palavras de respeito e de consideração por todos. Inclusive as aulas de piano que o senhor continua a me proporcionar. Mas, aonde quero chegar? Explico: um ser humano dessa envergadura com uma perspectiva de vida tão curta? Quanto benefício ter-se-ia perdido? Quanto conhecimento e experiência de vida não compartilhados?

A seguir, um breve relato da apresentação:

No que diz respeito à performance pianística, a Ballade, do compositor Claude Debussy, foi simplesmente cativante, tamanha a força de expressão e refinamento sonoro do intérprete. O piano Yamaha, com sonoridade geralmente um pouco metálica em relação ao Steinway de Hamburgo, por exemplo, nas mãos do mestre José Eduardo Martins emitia  graves profundos e generosos, médios e agudos brilhantes, mas sempre aveludados. Nas Danses – Sacrée et Profane, também de Debussy, com transcrição de Jacques Durand, evidenciou-se um procedimento que tanto me chama a atenção na performance de José Eduardo: o tratamento “microscópico” da pedalização. Quando do toque de uma única nota do baixo, o pedal direito era acionado com enorme controle, de maneira a fazer o abafador sair parcialmente das cordas. Esse tratamento diferenciado resultou em efeito timbrístico único, uma sonoridade reverberativa, salientando o caráter etéreo do compositor. Puro encantamento.

Na peça seguinte, Nuages Gris, de Franz Liszt, deparamo-nos com uma obra de caráter “despretensioso” em termos de virtuosidade técnica e arrebatamento emotivo. Bem diferente do que estamos acostumados ao apreciar Liszt. Em Nuages Gris, o compositor desbrava, de maneira muito pessoal e introspectiva, um caminho sonoro bastante cromático, com um sentido bem definido rumo ao atonalismo. E a interpretação do pianista José Eduardo foi capaz de expressar perfeitamente as intenções do compositor. Quase sem interrupção, o recital prosseguiu com as Duas Lendas (São Francisco de Assis falando aos pássaros; São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas) e Funerais, todas essas obras também do compositor húngaro. Na primeira das Duas Lendas, de sonoridade bem “wagneriana”, o pianista tratou os agudos de maneira a expressarem o conteúdo descritivo  dessa peça, fazendo-nos rememorar os agudíssimos das obras mais introspectivas de Richard Strauss, sobretudo quando executadas pela Orquestra Filarmônica de Berlim, sob a regência de Herbert von Karajan. Na segunda das Duas Lendas, a generosidade virtuosística ondulante dos graves foi capaz de expressar a caudalosidade das águas e das ondas a embasarem o caminhar de São Francisco de Paula, cujo fervor foi aqui representado pela bela melodia na região central do teclado. Para encerrar a coletânea de obras de Liszt, Funerais. O toque igualmente generoso dos graves fazia ecoar sinos e ritmos marciais fúnebres e guerreiros por todo o auditório, embasando com firmeza as funções harmônicas características em Liszt nessa monumental obra onde o cromatismo é constante nas várias linhas da partitura. Durante a execução, uma força de expressão única do pianista fez ressoar, em nossa alma, o lirismo das belas melodias, nas baixas e altas intensidades. E, ao encerrar a obra, uma tremenda força de ânimo reproduziu uma poderosíssima avalanche oitavada dos graves, levando o publico a aplaudir de pé.

Na sequência, obras de Scriabin. A Valse op.38 foi substituída pelo Noturno para a mão esquerda. Nesse Noturno, verificamos a propriedade com a qual o pianista explorou a espacialização do teclado do Yamaha de 3/4 de cauda. Fechando os olhos, a sensação era a de que as duas mãos estavam sendo empregadas na execução dessa obra. Para encerrar, Vers la Flamme op.72. Nas palavras bastante oportunas do pianista, se Vers la Flamme tivesse sido composta hoje, ela seria considerada como uma bem sucedida obra modernista. Certamente uma das obras mais difíceis e emblemáticas da literatura pianística.

Aplaudido de pé durante vários minutos, José Eduardo Martins concedeu-nos, como bis, a interpretação de obras curtas (dois “atomics”) de compositor belga e o magnífico Estudo op. 42 n. 5 de Scriabin.

Recital com entrada franca e valor incomensurável.

Paulo Marcos Filla

After my recital at the Dante Pazzaneze concert hall last June 3, I received an e-mail from one of my former students at the university commenting on my performance. Leaving out the enthusiasm of a young student for his old teacher, I transcribe here his message in its entirety, for I believe he has a gift for the job and proves my point that classical music critics should possess musical knowledge – a quality seldom found  among those writing reviews and criticisms for the press nowadays.