Navegando Posts publicados em outubro, 2017

Atitudes frente à existência

… Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Fernando Pessoa
(versos do “Poema em Linha Reta”)

Novamente o post anterior teve recepção a promover opiniões de interesse. Posições limites existem e, entre elas, várias intermediárias. O artista voltado intensamente à mídia, não podendo passar um dia sem que alguma notícia sobre suas performances aconteça, contrasta com atitudes daqueles que apenas focalizam seu trabalho, conhecendo o papel da mídia, mas sabedores de todas as implicações para que algo seja divulgado. Outros tempos aqueles em que o mercantilismo não invadira tantas penas. Graças a essa última postura, figuras mais reservadas, quando eventualmente dão entrevistas, mantêm certos receios. Espontaneamente não buscam a mídia. Há que se considerar nesse item aquele entrevistador despreparado para o mister. Infelizmente ele existe e todo o mal estará feito. Louvem-se os raros culturalmente aptos. No extremo oposto há o artista “eremita”, que sob nenhuma hipótese se aproxima da mídia. Esse estaria a produzir uma arte destinada a si próprio. Fecha-se e aguarda que o post mortem lhe faça justiça

Pareceria claro que a vocação narcisista tende a sedimentar-se com o passar dos anos, podendo exacerbar-se a depender das circunstâncias. Em uma das entrevistas colhidas ao longo, intérprete voltado ao holofote proclama peculiaridades de sua presença frente à plateia. Essas “substanciam” a identidade aceita doravante pelo público. Percebe-se que a necessidade imperiosa, nessa busca frenética pela notoriedade, faz com que tantos, em tantas áreas, utilizem-se de fórmulas as mais heterodoxas para o reconhecimento. Algumas características desse permanente “ator” estariam na peculiaridade do traje a evidenciar de maneira excêntrica sua “personalidade”; no viver o cotidiano, onde o sensacionalismo está sempre à espreita; no desempenhar sua atividade panfletariamente. Já abordamos, em blog bem anterior, o gesto exagerado como elemento chamariz de um público ávido pelo inusitado artificial. Numa outra área “artística”, a somatória dessas características apontadas compõe o caldo grosso. O público-leitor das inúmeras colunas de nível deplorável nos portais internéticos e frequentador de tantos programas televisivos alimenta a falta de cultura de eleitos e de seus entrevistadores, dedicando às “celebridades” a idolatria que apenas agrava o próprio vazio interior do “artista” e, por consequência, daquele que o cultua. Realmente, aprofundamo-nos num abismo cultural sem fundo previsto.

Regressando à música erudita, clássica ou de concerto, há aquele que se serve da música para, apesar da presença do talento, fixar uma imagem singular. O que pareceria também evidente é a ausência quase absoluta em sua fala durante entrevista da essência essencial da obra que ele interpreta. Comentei em blog passado o excepcional livro de Wilhelm Kempff (1895-1991), no qual o grande pianista aborda sua juventude (vide Cette note grave – les années d’apprentissage d’un musicien. Paris, Plon, 1955. 03/10/2009). Em toda a narrativa há o culto à criação musical e a juventude se amalgama amorosamente à música, suas estruturas e interpretação. Poder-se-ia acrescentar, no caso, a Música como Missão.

Separei duas mensagens, uma com forte dose de humor, mas a bem traduzir realidades. São tantas as notícias rigorosamente inúteis e frívolas publicadas ad nauseam nos portais de grande frequência, narrando as “entranhas” das vidas vazias de tantos daqueles denominados “famosos”, que o arquiteto Marcos Leite, com agudeza, escreve: “Mais uma vez perspicaz e acertando na mosca. Sucesso fazem as moçoilas de coxas grossas que contam nas entrevistas o segredo de quantas horas de academia por dia para ficarem ‘fortinhas e definidas’; mas incapazes de ler uma pauta ou distinguir uma nota musical. Faça- as usar saias longas e serão esquecidas pela plebe ignara”.

O compositor e pensador francês François Servenière está sempre atento aos blogs, o que muito me honra. Escreve:
“Passo ao seu artigo. Você descreve o real. Adorei particularmente o último parágrafo: ‘Servir à música ou dela servir-se’. Torna-se evidente que obter a celebridade interpretando um texto de compositor consagrado pela história, mesmo que bem difícil, a fim de chegar mais rapidamente ao pináculo e após, em letras grandes, fazer inserir seu nome como intérprete, relegando ao compositor e sua obra caracteres pequenos… o que dizer? Inútil criticar essas práticas odiosas e pouco respeitosas com o pensamento do mestre criador absoluto pelo necessário controle das flatulências do ego. Inútil falar ou denunciar, pois essas vaidades pairam no grotesco e no ridículo. O mais grave é que esses stars tratam aqueles que se insurgem como invejosos!!! Certo, a celebridade é um olimpo desejado que poucos atingem!!! Certo… Mas quantos (todos, salvo exceções) usam métodos absolutamente abjetos para se manter no pináculo. Sim, há exceções como Barenboim, que graças ao talento incrível, um denodo sem trégua ao serviço da arte (em Berlin, na semana passada, diretamente por canal a cabo, ouvi a 9ª de Beethoven, extraordinariamente interpretada por ocasião de reabertura de instituição após reformas), realiza proezas magníficas sem qualquer gesto supérfluo. Uma verdadeira e autêntica glória esse músico descomunal”. Resenhei dois livros de Daniel Barenboim neste espaço (vide La musique Éveille le Temps, 17/09/2011 e La Musique est un Tout, 25/10/2014). Barenboim conceitua permanentemente. Haveria a necessidade de se autoelogiar? Não o faz, felizmente.

Servenière finaliza a mencionar “antigo ministro francês, amigo de Pierre Boulez, que telefonava regularmente aos periódicos para estar sempre na lista das personalidades pesquisadas quanto à notoriedade. Aliás, Boulez tem seu lado essencialmente político, fato que podia ser sentido em sua música. A história fará o seu trabalho” (tradução JEM).

Importa saber distinguir. Não é difícil. Geralmente, cada categoria de artistas vem precedida de pormenores da personalidade. Ao público julgar, se tiver o bom senso de separar o músico atuante de sua persona fora da atuação musical.

Today I publish two messages received from readers with interesting views on the topics addressed last week: hollow headed egocentric performers who use their art form just for the sake of being admired and the celebrity culture in the consumer society.

 

Saber distingui-las

Eu creio no futuro da humanidade e, essa crença,
entendo-a simplesmente de uma necessidade de minha alma.
Richard Wagner

A vaidade não é um vício, é uma doença.
Antoine de Saint-Exupéry

Acompanho com frequência entrevistas concedidas por músicos aqui e alhures. As publicadas no Exterior, em sites especializados em Música de concerto, clássica ou erudita, geralmente têm melhor condução. Nessas, não poucas vezes o entrevistado se adapta às questões formuladas, mesmo que essa postura implique o desvio de suas intenções.

Sem particularizar nomes por questões éticas, chama-me a atenção a profusão de entrevistas em que o músico – nas outras artes há semelhanças – entende sua atividade unicamente sob a perspectiva do Eu. E, contrariamente ao propósito, será praticamente ele que induzirá o entrevistador às perguntas que virão, seguindo, pois, um roteiro traçado. O entrevistador menos preparado cairia numa “armadilha” e a consequência seria um constante alisamento do ego do personagem em foco. Veio-me a ideia de abordar ainda uma vez esse tema a partir de recentíssima entrevista publicada em nossas terras, na qual o intérprete de reais méritos inúmeras vezes enaltece às alturas suas qualidades, seus sucessos. Todo o depoimento a representar uma chuva de confetes ao ego exorbitado. Conceito a ser apreendido, nenhum. Nenhuma frase a ser guardada. Já li através das décadas entrevistas, até mesmo de músicos consagrados, das quais não seria possível retirar uma só frase com conteúdo. O todo num amplo aroma do incenso. Seria esse o objetivo final do músico ou do artista em geral? A efemeridade a suplantar a perenidade.

Pouco importa, após a “consagração” desse intérprete, transmitir ao leitor método de estudo, disciplina, concentração, autoconfiança (no bom sentido), tampouco o fundamento básico, a qualidade da obra apresentada. Essas “etapas”, necessárias para o leitor avisado, não rendem créditos ao ego exorbitado. Assim, a louvação torna-se um estímulo maior às novas investidas. O leitor acostumado com a mídia voltada à frivolidade adora conhecer tudo do artista, menos sua essência essencial.

Acredito que menções às tantas apresentações podem ser saudáveis, desde que o entrevistado deixe para o leitor a apreciação crítica. Já dizia Roberto Campos que “tudo vai mal onde tudo vai bem”. Dependerá também da inteligência do entrevistador entender se aquele artista que será questionado vem acompanhado dos holofotes inseparáveis.

Sob outra égide, quantas outras entrevistas não estão carregadas de informações valiosas. O entrevistado perscruta seu de profundis e as respostas indicarão os porquês de sua missão, a finalidade da Música através da interpretação, a consequência da mensagem transmitida, a função da Música no caminho do homem pela história. Sim, há aqueles grandiosos, que se esquecem dos holofotes que para eles estão sempre direcionados, a fim de transmitir o que de real importa. E essa mensagem permanece, pois conceitual.

Quando em 1988 escrevi “As Mortes do Intérprete” para “Cultura”, de O Estado de São Paulo (vide meu site – categoria Artigos), considerava que uma dessas mortes era a inclinação por vezes obsessiva do intérprete de voltar-se unicamente para sua figura em todas as oportunidades, sendo a obra executada mero veículo para esse fim. Profusão de CDs coloca em grandes caracteres, além da imagem, o intérprete como chamariz e, em letras pequenas, o nome dos compositores e das obras. Observava àquela altura que nós, intérpretes, nada mais somos do que corredores de maratona de revezamento e que, metaforicamente, a obra excelsa é e continuará a ser o maratonista que percorre um percurso infindável.

Consideremos que Sociedades de Concerto, empresários e mídia concorrem para que o incenso continue a ser inalado. Faz-se lógico entender que, para a manutenção nos palcos, há  necessidade do mérito. Contudo, dependerá do artista o seu posicionamento frente à Música: servi-la ou dela servir-se. Creio que mais acentuadamente a sociedade atual, graças à massificação da denominada música de alto consumo e à exposição visceral de seus protagonistas, está interessada naqueles que escolheram a segunda fórmula. Nada a fazer…

There are interviews and interviews. In this post I address the issue of how inexperienced or under-prepared journalists, when interacting with someone – musician or not - with a seriously inflated ego, may let the interviewee take things in his hands and seize the opportunity to puff himself up. The result? The media relays to the public just words without conceptual content, that go in one ear and out the other.

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Motivos vários no relacionamento com a UNIBES Cultural inviabilizaram o curso “O intérprete frente à gravação” que seria oferecido neste mês de Outubro nos dias 9, 16 e 23, sendo que o recital de piano se daria no dia 31. Espero oferecê-lo brevemente em outra instituição.