Navegando Posts publicados em setembro, 2019

Competência em vários gêneros musicais

A entidade musical apresenta
essa estranha singularidade de revestir dois aspectos,
de existir sob duas formas separadas uma da outra
pelo silêncio do nada.
Essa natureza particular da música
comanda sua vida própria e seus reflexos na ordem social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o intérprete.
Igor Stravinsky

Bem anteriormente saudava neste espaço CD com obras de um dos mais destacados compositores brasileiros, Ricardo Tacuchian (1939- ) (vide blog “água-forte”, 21/10/2017). Dele recebi três outros CDs, nos quais obras para piano solo, viola e piano e quarteto de cordas demonstram aspectos essenciais de seu caminhar composicional.

Um primeiro CD foi gravado em 2013 – “Quarteto Radamés Gnatalli interpreta Ricardo Tacuchian” – e apresenta quatro quartetos de cordas a atravessar período extenso, de 1963 a 2010. Trata-se de conjunto expressivo, que indica parte considerável das opções escriturais de Tacuchian. O quarteto de cordas nº1, Juvenil, foi escrito em 1963, aos 23 anos. A escritura já demonstra o domínio da técnica da composição e a presença de forte índole nacionalista através da utilização de rítmica a gosto das danças populares, mas que não oblitera a preocupação com a forma. Ao escrever em 1979 o Quarteto nº 2, com o título Brasília, há uma guinada escritural e Tacuchian explora com rara eficácia a problemática da dinâmica, trabalhando os limites sonoros explorando os harmônicos. Trata-se de uma técnica empregada por determinados autores no período, como o mexicano Mario Lavista (1943- ) no seu quarteto de cordas Reflejos de la noche (1984). Louve-se a magnífica interpretação dos músicos do Quarteto Radamés Gnattali, pois a execução, a manter equilíbrio sonoro, unicidade e “identidade” entre os instrumentos, mereceu cuidado especial. Ricardo Tacuchian criou o Sistema-T, que, segundo ele: “é uma técnica de controle de alturas no processo de estruturação musical”, sendo que aplica o Sistema no Quarteto de cordas nº 3, Bellagio, criado em 2000. Tem-se uma escrita distinta daquela dos dois Quartetos precedentes. Ao compor o Quarteto nº 4, Trópico de Capricórnio, 2010, Tacuchian empreende nova viagem escritural. A obra teve como inspiração basilar o círculo imaginário do Trópico de Capricórnio e a incidência solar no solstício, quando o sol se projeta verticalmente ao meio dia. O conjunto de Quartetos é extraordinário e a riqueza escritural, a indicar a longa senda trilhada pelo compositor, dá a medida de seu valor como músico criador.

O CD “O piano de Sérgio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian” tem interesse maior por apresentar obras de dois compositores amigos, mas com linguagens diferenciadas. Sérgio Roberto de Oliveira (1970-2017), falecido precocemente, deixou criações importantes para instrumentos solistas, conjuntos de câmara, música coral, música sinfônica e ópera. Louvável o seu empenho como fundador do coletivo de compositores, “Prelúdio 21”, que durante 10 anos apresentou mensalmente estreias contemporâneas de seus integrantes. A pianista Miriam Grosman interpreta Brasileiro, três Prelúdos Tijucanos e, ao piano, Ingrid Barancoski executa Atonas. Todas as peças muito bem elaboradas, sendo que Atonas revela-se como criação bem singular. Quanto às obras de Ricardo Tacuchian, tem-se Ernesto Nazareth no Cinema Odeon, com Miriam Grosman ao piano, e a coletânea A Bailarina, interpretada por Ingrid Barancoski. Ao penetrar no multum in minimo, Tacuchian empreende viagem ao universo lúdico com especial cuidado e extrema sensibilidade. Fizera-o ao compor Este verão eles chegaram (2012), já comentado no blog citado acima, “10 pequenas joias”, como salientei. As também 10 pecinhas que compõem A Bailarina são encantadoras. À primeira, A bailarina e o jardineiro, seguem-se e o… motorista, mendigo, médico, mágico, poeta, pescador, alpinista, pintor e, a finalizar, Felipe e a bailarina. Como no CD “água-forte”, relevantes as interpretações de Miriam Grosman e Ingrid Barancoski.

Em um contexto bem diverso, tem-se o recentíssimo CD “Tacuchian e a Viola”. Uma outra concepção exploratória da textura musical está presente. Contrariamente à formação violino e piano, a criação para viola e piano é bem inferior quantitativamente no repertório mundial. Tacuchian encontra no duo, formado por Fernando Thebaldi (viola) e Yuka Shimizu (piano), a oportunidade de propor CD dedicado a essa formação. Reuniu composições anteriores ao duo, inseriu criação endereçada ao violista e outras cinco pequenas peças, igualmente ofertadas ao duo Burajiru (Brasil em japonês). CD bem diversificado no conteúdo. A Toccata (1985) para viola e piano apresenta elementos contrastantes e a utilização de dinâmica e rítmica que lhe dão vivacidade e marcante pulsação. Xilogravura (2004) comporta no título características que Tacuchian transforma em poética controlada, dir-se-ia, numa textura gráfico-sonora simbólica. O Trio das Águas (2012) para viola, clarineta e piano é marcante. Do Mar, Dos Rios e Da Chuva não escondem a preocupação com o descritivo, ondulações do mar, certa nostalgia dos rios e impetuosidade da chuva por vezes interrompida, respectivamente. Não sem razão, Tacuchian compõe a obra para uma tríade ao acrescentar a clarineta, muito bem realizada musicalmente por Cristiano Alves. Expandindo o conceito do Trio das Águas, quantos não foram os compositores que buscaram, através da história, interpretar essas características da aqua em constante mutação na natureza? Tomilho, para viola solo, emprega processos técnicos pouco explorados que, sob outra égide, enfatizam as qualidades do violista Fernando Thebaldi. Finaliza o CD a encantadora pequena coletânea  composta pelas Cinco Miniaturas (2018) para viola e piano.

Tacuchian está sempre propenso a não se repetir, mas a seguir serenamente o caudaloso curso da existência, atento observador das imagens e das tendências. A metamorfose escritural constante não se olvida, contudo, da memória retida. Ouvindo-se as composições de Tacuchian, há nas tantas inovações a presença de um elo sutil a ligar passado e presente, jamais ruptura completa, mesmo em criações diferenciadas espaçadas pelos decênios. Impressões digitais deixadas no percurso que não se apagam, apesar da densa neblina do tempo.

This post addresses three CDs with works by Ricardo Tacuchian (1939 – ), one of themost prominent contemporary Brazilian composers: “Quarteto Radamés Gnattali Interpreta Ricardo Tacuchian”: string quartets played by Carla Rincón and Andréia Carizzi (violins), Fernando Thebaldi (viola) and Hugo Pilger (cello). “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”: piano pieces played by Miriam Grosman and Ingrid Barancoski. “Tacuchian e a Viola”: works for viola and piano played by Duo Burajiru ( FernandoThebaldi, viola – Yuka Shimizu, piano). The works illustrate essential characteristics of Tacuchian’s musical writing. Never repeating himself, his style shows new features in each album, but this does not imply a rupture with the past. The subtle link between yesterday (the retained memory) and today (new experiments and trends) is there: fingerprints that do not fade despite the dense mists of time.

 

Sylvain Tesson a buscar correspondência hodierna

Quando se tem um diamante nas mãos,
não nos fascinamos pela estrutura molecular do carbono,
mas sim, primeiramente, pelos seus reflexos.
Sylvain Tesson

Nos anos da juventude, a leitura da Ilíada e da Odisseia em edição reduzida, foi realizada com entusiasmo, a provocar admiração por todos os personagens que percorrem pelas magistrais criações atribuídas a Homero. Leitura que fez a mente viajar naquela magia da Grécia Antiga. Os poemas, que perduram há cerca de 2.500 anos, causam debruçamento contínuo de estudiosos e leigos, aqueles abordando-os sob as mais diversas orientações, literárias, sociais, geográficas, históricas, mitológicas…, estes buscando o convívio imaginário com os personagens extraídos da mitologia grega – deuses, demiurgos, heróis, homens, mulheres belas ou odientas, assim como animais e monstros -, todos desfilando pelos poemas de Homero.

Sylvain Tesson esteve presente neste espaço desde o início da presente década. Foram 15 livros resenhados ou comentados. Sua intrepidez, ao percorrer o planeta a pé ou de bicicleta, narrando suas aventuras em livros consagrados, tornaram-no um dos mais ventilados escritores franceses. É um dos meus autores preferidos no gênero.

Ao escrever “Un été avec Homère” (France, Équateurs/Humensis – France Inter, 2018), Sylvain Tesson, já no prefácio, precisa o roteiro basilar: evidenciar que o todo da Ilíada e da Odisseia chega a nós como prenúncio da história da civilização, decorridos 25 séculos, dando ênfase às últimas décadas. Para o leitor, necessária se faz a inserção de dois parágrafos que indicam o roteiro dessas projeções propostas por Tesson. Escreve:

“Século XXI: O Oriente Médio se dilacera, Homero descreve a guerra; Os governadores se sucedem, Homero pinta a sanha devoradora dos homens; os curdos combatem com heroísmo em suas terras, Homero conta a história de Ulisses para retomar seu poder usurpado; as catástrofes ecológicas nos aterrorizam, Homero pincela o furor da natureza diante da loucura do homem. Todo evento contemporâneo encontra eco do poema ou, mais precisamente, cada sobressalto histórico é o reflexo da premonição homérica.

Abrir a Ilíada ou a Odisseia corresponde a ler um jornal. Esse diário do mundo, escrito de modo definitivo, fornece a certeza de que nada muda sob o céu de Zeus: o homem continua fiel a si mesmo, animal grandioso e desesperado, inundado de luz e recheado de mediocridade. Homero permite a economia de uma assinatura de jornal.”

Seriam pertinentes essas adequações à nossa realidade? Se considerarmos o todo das duas obras de Homero em dois temas essenciais, o longo embate troiano (Ilíada), assim como o labiríntico retorno de Ulisses a Ítaca (Odisseia), não é difícil entender que as condições essenciais do homem moderno frente às mais complexas situações lá estariam. O teatro de William Shakespeare, dois mil anos após, não pode igualmente favorecer aproximações com a realidade atual, visto que os ingredientes basilares de hoje lá estariam configurados?

Para realizar “Un été avec Homère” Tesson refugia-se numa pequena ilha, Tino, no mar Egeu, a fim de, em outro contexto, ao do teatrólogo russo Constantin Stanislavsky, viver o clima dos dois poemas épicos de Homero. Afirma: “Basta estagiar algum tempo ao vento sob uma luz cambiante para sentir-se isolado numa ilhota do arquipélago das Cíclades.”

Sendo Ilíada e Odisseia livros referenciais da cultura humanística universal, seria compreensível a vastíssima literatura sobre a temática. Ao se desviar de exposição acadêmica, antagônica à sua formação e à prática voltada à aventura pelo planeta, o caminho empreendido por Tesson no sentido de “decifrar” conteúdos, “atualizando-os”, apresenta armadilhas. Seu entusiasmo fá-lo afirmar: “Um conselho dadaísta: deixemos nossas preocupações acessórias! Lavemos nossos pratos amanhã! Apaguemos nossas telas! Deixemos chorar nossos bebês, e abramos sem tardar a Ilíada e a Odisseia para ler as passagens em alta voz, diante do mar, à janela do quarto, no cume de uma montanha. Deixemos que cresçam em nós os cantos desumanamente sublimes. Eles nos ajudarão nessa neblina do nosso tempo, pois séculos horríveis avançam. Amanhã, drones policiarão um céu poluído de dióxido, robôs controlarão nossas identidades biométricas e será proibido reivindicar uma identidade cultural”. A admiração incontida afasta-o da imparcialidade no julgamento. Falha na apreciação das obras? Em sendo “Un été avec Homère”, originalmente, programas transmitidos em 2017 pela France Inter, a transcrição, escrita na tranquilidade de Tino, mereceu talvez o aprofundamento no conteúdo e, na admiração ascendente, afastou-o do viés acadêmico. Eclode o olhar fantasista de Tesson, distante do olhar objetivo encontrável nas andanças como peregrino, vagabond e contínuo observador. Os poemas eleitos estabelecem visão inédita e reverencial. Tesson se desnuda e as mazelas do homem ao longo dos séculos frente a todos os problemas pareceriam refluxo dos espetáculos mitológicos propostos por Homero. Uma plêiade de figuras atuantes na vida política e empresarial da atualidade é mencionada, a fim de ratificar a posição de Tesson relativa à “paternidade” dos poemas de Homero com a realidade presente. Frases do autor francês com o intuito de firmar posições, por vezes soam arbitrárias ou mesmo como boutades, mas fazem parte de sua memória como aventureiro andarilho: “Homero – antes de ser personagem de biografia (que chatice!) – é uma voz, dando chance aos homens de compreenderem como eles se tornaram aquilo que são”; “A Odisseia é a narrativa de um perpétuo naufrágio”; “Odisseia, réquiem de homens perdidos”; “Odisseia é a narrativa marítima estremecida por convulsões que convergem em direção à flecha lançada por Ulisses”; “Odisseia é o pior manual de navegação jamais publicado na história da humanidade”; “Ilíada soa atual pois é o poema da guerra. Em dois mil e quinhentos anos, a sede de sangue pulsa sempre. Só o armamento mudou”; “Homero é o músico. Vivemos no eco de sua sinfonia”; “O herói de Homero se caracteriza pela força. Seu vigor é a sua nobreza. Esta permite ao herói agir e atingir seus fins. No mundo homérico, não há ação sem pujança. Nesse caso, não haveria que intenções. O herói avança como uma fera, pois feito para a guerra e o movimento”; “Ser uma vítima, eis a ambição do herói de hoje”.

Em sua leitura das duas obras capitais de Homero, Tesson pormenoriza, no segmento “L’Hubris ou la chienne égareuse”, com seis subcapítulos, o conceito húbris, oriundo da Grécia Antiga, com uma das tantas definições existentes da palavra: “a interrupção desregrada do homem no equilíbrio do mundo, injúria feita ao cosmos”. Os deuses do Olimpo, sempre a interagir com os mortais, saberiam o momento de castigar o prepotente. Aplica o conceito de húbris em tantas passagens de Homero.

O herói, tão presente na Ilíada como na Odisseia, teria chegado aos nossos tempos, como afirma Tesson: “Sua pujança metafísica alimentou a cultura europeia. Ela continua a irradiar nosso consciente coletivo. Em cada época um novo herói surge, encarregado de encarnar os valores do momento e essa figura eterna se torna doravante um tipo a abranger vários aspectos da vida social”. Presente na arte da Roma Antiga, na Renascença e na atualidade, os heróis gregos, na visão de Tesson, tem nossa guarida pelo fato de que nenhum deles é perfeito. “O tempo do Deus monoteísta distante e abstrato ainda não chegara. Vivíamos a Idade das divindades falíveis, envolventes, pois elas dançavam às margens de seus próprios abismos”.

A devoção de Tesson às duas obras referenciais de Homero fá-lo acrescentar que “Homero convoca numa corrente de palavras as imagens da natureza. As analogias elegíacas ajudam o poeta a romper a tensão narrativa. Elas assinalam que o mundo é uma vibração única onde animais, homens e deuses embarcam numa mesma aventura, complexa e explosiva. A beleza da revelação pagã se desnuda: tudo está ligado e unido nesse múltiplo viver. Um Grego não teria jamais o espírito carregado, tampouco a alma sem beleza se decretasse que um deus pudesse ser único e exterior à sua criação”. (Tradução: JEM).

A recepção pública da obra de Tesson decorre do seu olhar reflexivo a partir do contato humano com geografias e raças as mais diversas (vide lista no menu do blog: “Livros – resenhas e comentários”). Ilhado em Tino, com o mar, o céu e o vento como constantes daquele espaço reduzido, seria decisivo para o entendimento de seu pensamento incisivo, claro, poético tantas vezes, que buscou, bem voluntariamente nos poemas homéricos, as comparações com a realidade de nossos dias como temática essencial. É esse processo válido? É-o na medida em que Tesson encontra nas obras homéricas a base sólida para estabelecer sua crítica plena à atualidade como um todo. Seria possível entender que não poucas vezes a aproximação da narrativa de Homero com a atualidade tenha sido “forçada”, fruto provável de uma louvação ilimitada, como afirma: “Quinze mil versos da Ilíada, doze mil da Odisseia: para que escrever ainda!” No todo, suas afirmações são pertinentes, pois a índole do ser humano em seu caminhar pela existência tem analogias com as ações dos personagens das duas obras capitais da Antiga Grécia. Afinal, o homem continua o mesmo, voltado ao bem ou ao mal e às paixões mais complexas que norteiam seu caminhar no tempo.

A diagramação de “Un été avec Homère”, com as inserções dos textos de Homero em caracteres menores e na coloração azul, facilita a leitura, a possibilitar transições. A presença dos versos e a identificação exata das citações contribuem para que a consulta às criações de Homero possa ser ampliada.

In this post I comment on the book “Un été avec Homère” (A summer with Homer), in which the French adventurer and writer Sylvain Tesson studies carefully the events of the Trojan War (the Iliad) and the return of the hero Ulysses to his homeland, the island of Ithaca (the Odyssey) — two ancient Greek poems traditionally attributed to Homer —, pondering the relation of such events to present days challenging realities. The book is good and encourages further reading on the subject, though I think some of Tesson’s analogies between past and present sound arbitrary. However, he is right in his belief in the invariability of men: their virtues and vices remain unchanged since the Trojan War.