Navegando Posts publicados em fevereiro, 2020

Quando um acontecimento permanece ao longo da existência

A virtuosidade é enobrecida, ou melhor, desaparece,
para não ser senão música,
o que significa uma virtuosidade superior.
Yvonne Lefébure (1898-1986)
(depoimento sobre Alfred Cortot)

Ele tocava Schumann como ninguém,
absolutamente divino.

Vladimir Horowitz

Consagrado no mundo inteiro, reverenciado por suas interpretações personalíssimas dos românticos, mormente Chopin, Schumann e Liszt, assim como dos franceses Fauré, Debussy e Ravel, Alfred Cortot, quando em viagem ao Brasil no início dos anos 1950, despertou interesse inusitado. Naqueles tempos do pós-guerra, os grandes mestres que nos visitavam já haviam transposto a sétima década. Para nossa geração, Alfred Cortot era uma dessas lendas que prosseguiam a encantar um público já habituado a ouvir os denominados “monstros sagrados”. O notável pianista franco-suiço nasceu em Nyon na Suiça.

O ilustre pianista quando em São Paulo para recital, ouviu-nos antes de seu ensaio, mercê da intercessão do Presidente da Comunidade Francesa do Rio de Janeiro, Monsieur Yves Mainguy, amigo de meu pai. Foi em uma manhã. Tínhamos, João Carlos e eu, 11 e 13 anos, respectivamente. Quis ouvir-nos interpretar duas obras cada um. Ao final, apenas uma despedida formal e voltamos à rotina de estudos. Dias após, Monsieur Mainguy recebeu carta do insigne pianista datada de 12 de Fevereiro de 1952, reenviando-a ao meu pai. Na adolescência as dúvidas quanto ao futuro são muitas, a não ser que fato singular, aliado à vocação imperiosa, torne-se guia pela vida. Sempre que períodos de incertezas durante a juventude surgiam, a carta de Alfred Cortot era-me um farol a indicar o destino. Um parágrafo do notável músico me foi decisivo: “Malgrado minha repugnância, ou talvez malgrado meus escrúpulos em envolver os pais para que dois jovens membros de uma mesma família abracem uma carreira da qual conheço todas as dificuldades atuais, fiquei muito impressionado com os dons evidentes dos dois jovens pianistas, estimulando M. e Mme da Silva Martins a fazê-los prosseguir seus estudos em Paris, no momento que julgarem oportuno”. Guardo o manuscrito autógrafo como relíquia preciosa. Após láurea no Iº Concurso Nacional da Bahia (1958) e consequente bolsa do governo francês, permaneci anos em Paris prosseguindo estudos.

Apesar de adolescente, lembro-me de seu recital em São Paulo e ficou-me na memória a sonoridade inefável que extraía do piano do Cultura Artística. Nenhum malabarismo, nenhum excesso, tampouco gestual. E tudo lá estava. Décadas distantes da atual civilização do espetáculo.

Suas gravações, em LPs que ouvíamos à exaustão, traduziam flexibilidade singular da frase musical. Harold Shonberg sintetiza dados concernentes à interpretação de Cortot, comentando não apenas as qualidades (“The Great pianists”, 1963): “Cortot cometia erros e por vezes tinha falhas de memória, problemas para um pianista de menor envergadura. Em relação a Cortot, essas falhas não tinham importância. O público as aceitava como se aceitam cicatrizes ou defeitos de um quadro de um dos antigos mestres da pintura. Pois, apesar desses equívocos, era óbvio que Cortot possuía uma grande técnica e era capaz de qualquer tipo de fogo de artifício quando a música assim o exigia, como se torna evidente na fabulosa gravação da Rapsódia Húngara nº 11, de Liszt. Como artista interpretativo, foi uma das mentes mais capazes de sua época. Em sua execução havia a combinação de autoridade intelectual, aristocracia, virilidade e poesia”.

Clique para ouvir a gravação, datada de 1925, da Rapsódia nº 11, de Liszt, na interpretação de Alfred Cortot:

https://www.youtube.com/watch?v=TSDhxxB_IyQ

Um grande mestre do piano, mas também excelso professor, conferencista, regente, camerista e literato com inúmeras obras sobre música. Suas edições de trabalho de inúmeras composições do período romântico são extraordinárias, pois penetram no universo poético e imaginário tantas vezes insondável para o intérprete.

Nesse aspecto, tão fulcral para o entendimento de uma partitura sob todos os ângulos possíveis, se a edição URTEXT, fundamental para que a leitura de uma partitura não transgrida o que está proposto pelo compositor, a edição comentada por mestres das dimensões de Alfred Cortot (Chopin, Schumann, Liszt), Arthur Schnabel (Sonatas de Beethoven), Ferrucio Busoni (J.S.Bach), como exemplos, recria a essência criativa, imaginária, espiritual, poética e, mesmo que por vezes o pensamento do revisor-editor estabeleça contornos outros no sentido de impedir uma execução apenas linear, essa percepção extramusical estimula o voo sereno e seguro da execução. Quantas gerações não sorveram essas “viagens” desses grandes mestres? As obras comentadas por esses três luminares do piano foram e continuam faróis sempre revisitados. Como não apreender a mensagem de Cortot ao passar a uma aluna sua visão de O poeta fala, última das peças das Cenas Infantis, de Schumann?

https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=aWr36hIgIuU

Chopin foi um de seus eleitos e suas gravações, mesmo as quase centenárias, são ainda hoje referências. Clique para ouvir a Fantaisie Impromptu op. 66 de Chopin:

https://www.youtube.com/watch?v=7Chn0qYtpkM

Nos diálogos com o crítico musical de Le Figaro, Bernard Gavoty (“Alfred Cortot – Les Grands Interprètes”, texto de Bernard Gavoty. Genève-Monaco, René Kister, 1953), o entrevistador colhe determinadas frases incisivas do pianista. Perguntado sobre seus mestres, revela-os, mas ressalta dois momentos decisivos. Ao tocar, nos seus 15 anos, a Sonata Appassionata, de Beethoven, para o grande pianista russo Anton Rubinstein (1830-1894), mercê da intercessão de seu mestre Louis Diémer (1843-1919), recebe daquele a seguinte observação: “Beethoven não se toca, reinventa-se”. Cortot diz a Gavoty que a frase o salvara para toda a vida. Gavoty insiste: “Rubinstein o liberava de um escrúpulo?”, ouvindo de Cortot: “Em presença de uma obra-prima, há duas atitudes: respeito ou violação. Tocar segundo o desejo do autor, ou na tradição de seus alunos, o que isso significa? O que é necessário é dar curso à imaginação, recriar, fazer reviver a obra. Interpretar é isso…”. Uma segunda frase jamais esquecida pelo pianista. Dias após a morte de Claude Debussy, a viúva Emma convida Cortot para lhe tocar os Préludes de seu marido. A filha do casal ouviu atentamente e, ao final, Cortot pergunta à Chouchou (Claude-Emma) se era assim que seu pai tocava, recebendo como resposta da menina: “Oh! Não, papai escutava preferencialmente”. O pianista, intérprete das obras de Debussy e seu amigo, lembrar-se-ia de frase do compositor “… as lições do vento que passa e nos conta a história do mundo…” Uma jocosa resposta a Bernard Gavoty revela que, apesar de ter sido pianista excelso, tem certo “desprezo” pelos apenas virtuoses: “Não me fale dos virtuoses! São muitos – e tão pouca coisa… Fazem-me pensar nos galos…Os infelizes acreditam que basta um cocorico para que surja o sol”.

Bernard Gavoty entrevistou Alfred Cortot em 1953. Uma sua opinião, passados quase setenta anos, soa perene: “Maneira única de interrogar o teclado, de emocionar um aparelho composto de cordas e martelos, destinado pois à secura, esse dom de fazer cantar aquilo que deve soar, esse arco invisível, esses traços multicoloridos, esses acordes de veludo, essa neve em flocos… – o milagre de Cortot é que o piano cessa de ser piano!” Como camerista integrou um dos mais importantes trios da história: Alfred Cortot (piano), Jacques Thibault (violino) e Pablo Casals (violoncelo).

 

Em 1952, Alfred Cortot, após tournée pelo Japão, recebeu da imperatriz uma ilha de presente, Cortoshima. O ilustre agraciado soube do significado em japonês: “Solitário na ilha dos sonhos”.

In this post I write about the Franco-Swiss pianist Alfred Cortot (1877-1962), world-renowned for his very personal interpretation of Romantic composers such as Chopin, Schumann and Liszt, as well as the French Fauré, Debussy and Ravel. His visit to Brazil in the early fifties stirred vivid interest. On that occasion, my brother and I, then 11 and 13, had a chance to play for him, who wrote an encouraging letter shortly afterwards. Pianist, chamber music player, conductor, teacher and writer of valuable books on musical interpretation, Cortot knew how to extract unusual sonorities of his instrument without unnecessary gestures and grimaces, a kind of piano playing that is disappearing. In spite of memory lapses and clinkers in later years, he was one of the most celebrated classical musicians of the 20th century. To date his Chopin recordings are considered essential. I have kept his handwritten letter as a precious relic, a beacon showing me the way in moments of doubt.

 

Gerações se hipnotizaram com sua magia

The piano is the easiest instrument to play in the beginning and the hardest to master in the end.

Vladimir Horowitz (“Evening with Horowitz – a personal portrait”. Entrevistas a David Dubal)

A recepção aos posts sobre Arthur Rubinstein e Wilhelm Kempff foi extraordinária. Leitores de gerações mais novas, que desconheceram os pianistas excelsos do passado, confessam quase unanimemente acessar intérpretes relativamente jovens, com performances tecnicamente impecáveis e gestuais que exemplificam a atual civilização do espetáculo, em vídeos tecnologicamente irrepreensíveis. Mais e mais focalizam a expressão facial e as artimanhas corporais. Essa atitude, se de um lado promove acentuadamente essa nova geração, pouco a pouco lança uma neblina sobre os virtuoses do passado. Vários leitores solicitam-me três intérpretes com mais de um “voto”. Pela ordem numérica de sugestões, Vladimir Horowitz, Emil Guilels e Alfred Cortot. Excepcionalmente, um jovem escreveu, interessado nos ilustres pianistas do passado. Acredito ser de suma importância o conhecimento desses mestres que percorreram décadas do século XX, artistas completos.

Vladimir Horowitz foi e continua a ser referência absoluta para a minha geração. Jovem, ainda em São Paulo, todos os LPs que surgiam eram adquiridos por nosso pai. Estou a me lembrar de sua interpretação personalíssima dos Quadros de uma Exposição, de Moussorgsky, onde não faltaram as suas intervenções na partitura em vários quadros. Diria que essa extraordinária criação para piano solo do compositor russo, transcrita para grande orquestra por Maurice Ravel, adquirira nessa releitura de Horowitz elementos possivelmente extraídos da versão orquestral. Logicamente não serviria como modelo a ser seguido, pois todas as interpretações que surgiram ao longo das décadas têm obedecido ao manuscrito original. Contudo, não se pode negar a performance gigantesca de Horowitz nessa releitura.

Em França, durante os anos que lá passei a estudar, Horowitz era um demiurgo para meus colegas pianistas. Estou a me lembrar de visitar frequentemente uma senhora russa em Paris, Mme Legros, com o colega e saudoso amigo Pierre Leroux, 1º prêmio em Nápoles. Dizia-nos ela que privara da amizade do jovem Horowitz na Rússia e que, quando este estava para entrar no palco, era praticamente empurrado por amigos para iniciar recital, mercê da ansiedade. Assim que começava a tocar, o maravilhamento se dava. Nossa geração extasiava-se com a fabulosa técnica a serviço de uma musicalidade extrema. Sua gama da dinâmica abrangia da mais ínfima sonoridade aos fortes mais intensos e tudo era ouvido sem quaisquer ataques abruptos.

O crítico Harold Schonberg, ao abordar dois dos grandes pianistas românticos do passado recente, Arthur Rubinstein (vide blog de 01/02/2020) e Vladimir Horowitz escreve: “Um foi Arthur Rubinstein (1886-1982), cuja carreira cresceu a tal ponto que muitos o consideravam como o maior pianista vivo… O caso de Horowitz é mais complexo. Nunca teve o aprumo e la joie de vivre de Rubinstein, nem sua saúde emocional. O que teve foi uma técnica, a mais brilhante de seu tempo e talvez a melhor em sua consistência na história do piano. Junto a essa técnica, uma sonoridade grandiosa, sem aspereza, sonoridade não ouvida desde os dias de Anton Rubinstein (1830-1994).” (The great pianists, Simon & Schuster, 1987).

O leitor terá acesso à biografia de Vladimir Horowitz através da internet. O propósito deste blog é salientar determinadas qualidades imensas do pianista considerado como aquele da técnica mais abrangente de sua época, aliada a uma musicalidade eminentemente pessoal e envolvente. Pessoal, pois distingue-se de Arthur Rubinstein, que, no trato do rubato, já citado no blog acima mencionado, foi único.

No livro “Evenings with Horowitz a personal portrait” (depoimentos recolhidos por David Dubal, New York, Carol 1994), Horowitz se revela quase por inteiro. De grande interesse suas opiniões sobre seu entendimento da interpretação e das obras de seu repertório executadas de maneira singular. Também discorre sobre colegas contemporâneos, caracterizando-os preferencialmente em suas qualidades individuais, mas precisas na análise. Tendo gravado muitas Sonatas de Domênico Scarlatti (1685-1757), tece comentários sobre a interpretação do músico napolitano atualmente: “O cravo não pode alcançar a continuidade sonora do piano. Neste eu ainda tento tocar a música como se fazia no período de Scarlatti. Contudo, nunca desejo imitar o cravo, mas simplesmente mostrar ao público como a música soa ao piano”.

Clique para ouvir a Sonata L23 de Domenico Scarlatti:

https://www.youtube.com/watch?v=RDOLyPqd-cc

 

Seus comentários sobre a música romântica, personalíssimos igualmente, provocam reflexões. A monumentalidade de suas interpretações não impede que se pronuncie: “Toda peça é difícil. Mais você a conhece, mais complexa ela se apresenta, pois toda peça é realmente difícil”. Intérprete fantástico dos compositores russos, Moussorgsky, Tchaikowsky, Scriabine, Rachmaninov e Prokofiev.Clique para ouvir de Alexandre Scriabine o Poema Vers la Flamme. Nessa extraordinária peça escrita em 1912, executada ao vivo em sua residência, igualmente Horowitz dificulta ainda mais a já complexa escrita do compositor russo.

https://www.youtube.com/watch?v=MueioLajS2E

Das transcrições para piano de vários compositores, sempre a torná-las ainda mais complexas técnico-pianisticamente, Horowitz comenta sobre suas possibilidades e defeitos, mormente na juventude da idade madura: “tinha consciência de meus terríveis defeitos – minha negligência com detalhes, meu modo de encarar alguns concertos como um passatempo agradável, tudo devido àquela facilidade diabólica de apreender e transmitir as peças e então tocá-las despreocupadamente em público”. É desse período a “pirotecnia” das transcrições, entre as quais a da célebre The Stars and Stripes Forever de John Philip Sousa.

Ouçamo-la:

https://www.youtube.com/watch?v=2uNh3Um7LaM

A finalizar o post convidaria o leitor a ouvir a magistral performance de Horowitz do Concerto nº 3 de Rachmaninof para piano e orquestra, em 1978, sob a regência de Zubin Mehta:

https://www.youtube.com/results?search_query=horowitz+rachmaninoff+concerto+3

No próximo blog abordarei o grande pianista e músico na acepção, Alfred Cortot (1877 – 1962). Na opinião de Vladimir Horowitz, ninguém interpretava Schumann melhor do que ele.

This post is about the Russian-born American classical pianist Vladimir Horowitz (1903-1989), widely regarded as one of the greatest pianists of all time. When I was a teenager my father would buy every record Horowitz put out. Though sometimes criticized for distorting the composers’ intentions to show off his art, his outstanding technical ability combined with unlimited musicality made him an idol of my generation and he sustained his popularity until death. Thanks to the countless recordings he has left us, today we can still marvel at his masterful performances.

A corrida de rua e a inesgotável alegria do decano do circuito

E um dos privilégios concedido
aqueles que evitaram morrer jovens
é o direito abençoado de ficar velhos.
A honra do declínio físico está esperando,
e você precisa se acostumar com essa realidade.
Haruki Murakami
(“Do que eu falo quando eu falo de corrida”)

Conheci Antônio Lopes em uma corrida de rua promovida pelo SESC em 2010. De lá para os dias atuais encontramo-nos dezenas de vezes nas inúmeras provas na cidade e na grande São Paulo. Considero-o um fenômeno, pois é o decano das corridas de rua. Aos 92 anos, tem a disposição de um jovem, pois participa das provas, sem andar, frise-se, sendo que ao final de todas elas exibe o sorriso sereno a refletir a alegria de mais uma etapa vencida.

Para o leitor não afeito às corridas de rua, que agregam a cada ano número crescente de participantes com desiderato de viverem o prazer de correr e chegar à reta final, Antônio Lopes, na fronteira dos 92 anos, é atleta muito especial, raríssimo. Tenho 10 anos a menos e meu respeito por ele é ilimitado.

Encontramo-nos em muitas provas. A admiração maior vem do fato de que 10 anos de diferença pesam em nossa faixa etária, pois um ano a mais nessa categoria pressupõe paulatino tempo maior durante percursos. É o tempo “infalível e insubornável” de que nos fala o grande poeta Guerra Junqueiro. Aos 70 anos, quando iniciei a prática, fazia 10 quilômetros em uma hora e cinco minutos. Atualmente, em uma hora e vinte. São 15 minutos a mais. Antônio Lopes é apenas um pouco mais lento, mas tendo ultrapassado os 90 anos!!! Uma máquina antiga muito bem azeitada! A modéstia e a simpatia são marcas absolutas de meu querido amigo.

Nasceu na pequena cidade de Felício dos Santos, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e ainda miúdo percorria as estradas vicinais de terra batida sempre a correr. Nascia uma paixão que se poderia considerar como vocação para as corridas. Aos oito anos trabalhou na lavoura em Minas Gerais e, jovem, mudou-se para o interior do Estado de São Paulo. Em 1956 foi morar em São Bernardo do Campo, onde trabalhou inicialmente na terraplanagem da fábrica da Volkswagen. Finda a tarefa, tornou-se metalúrgico na cidade, aposentando-se em 1983. Nessa nova fase, prosseguiu durante duas décadas a atividade de pintor de paredes. Se, durante seu trabalho árduo para sustento da família, como lavrador e posteriormente como metalúrgico, abdicou da prática esportiva, após se aposentar voltaria a correr para fugir do sedentarismo, como afirma. Primeiramente começou a andar e, a seguir, a correr, aumentando paulatinamente as distâncias e não mais interrompendo a segunda opção. Um vocacionado pode até ter tréguas prolongadas, mas habitualmente em certa etapa da vida retoma ao primeiro caminho norteador. Em entrevista ao Guia da Cidade – São Bernardo do Campo (Maio de 2011), Antônio Lopes, aos 83 anos de idade, disse lembrar-se do estímulo inicial: “… um senhor que caminhava no mesmo lugar que eu me informou de uma corrida que iria acontecer no Riacho Grande. Resolvi participar e não parei mais”.

Impressiona o número de corridas realizadas por Antônio. Cerca de 900 ou mais, pois conserva 867 medalhas, tendo oferecido a amigos muitas delas. Ao todo 25 São Silvestres, 7 Maratonas de São Paulo e 3 em Curitiba. Meus encontros com Antônio se dão nas corridas de 10k, sempre no final, pois é nesse momento que há uma confraternização. Encontro também com Hélio Toller, amigo comum, que o conduz às corridas juntamente com outros três corredores de São Bernardo e que, nos seus 75 e mais anos, é realmente bem veloz para a faixa etária.

Caracteriza a vida de Antônio um cuidado grande com a saúde, sem excessos de qualquer natureza. Para atingir os 92 anos em plena atividade há determinantes. Comedido à mesa, tem como base na alimentação: arroz, feijão, carne branca (peixe), legumes, verduras e frutas. Pela manhã: suco de laranja, mamão, banana com aveia, torrada e granola. Antônio não é hipertenso, não tem problemas físicos e cardíacos, não toma medicamento de uso contínuo. Disse-me acreditar que sua saúde é resultado do hábito de correr.

Em prova do Shopping União em Guarulhos, em 2018, subíamos uma ladeira lado a lado, o amigo Luiz Eduardo (70) e eu, quando, ao ultrapassar Antônio Lopes, nos demos conta de que exatos três decênios nos separavam, 70, 80, 90 anos. Motivo para comum alegria.

Divirto-me quando, após as corridas, recebo troféu de mais idoso. Batoré, amigo e corredor bem mais jovem e que quase sempre me acompanha até as largadas, comenta com sorriso largo. “Hoje o professor vai ganhar troféu, o nosso bom amigo Antônio não compareceu”. Em prova do Circuito da Longevidade Bradesco – participam alguns milhares de atletas amadores – estivemos no pódio a obedecer a faixa etária.

Posso afirmar que Antônio Lopes é um exemplo para mim. Vendo-o correr, o estímulo se acentua e sinto que, enquanto puder, estarei presente nas provas de rua. Sugeriria às organizações de corridas de rua que, ao saber da presença de Antônio Lopes entre os participantes, sempre o saudassem. Prestariam uma homenagem realmente a um fenômeno do pedestrianismo, como evidenciariam aos milhares de corredores de prova de rua que ali está presente uma figura singular da modalidade. Justo tributo a um atleta na acepção da palavra.

This post is a tribute to my fellow runner and friend Antônio Lopes, the dean of street runners, whom I have dubbed “phenomenon”. Having participated in about 900 races to date, he goes on with a surprisingly youthful disposition. Now 92, he is always the senior-most runner in the 80+ age group. Antônio is a well-oiled machine,an example of discipline and determination for younger runners, an athlete in the true sense of the word.