Entrevista a J.E.M.

Deus não se afirma nem se nega:
Deus É, mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua extrema liberdade.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“Do Previsível e do Imprevisível”)

Sugeri ao meu irmão, Ives Gandra Martins, notável jurista, uma entrevista para o blog semanal. Motivos vários levaram-me à ideia. Primeiramente pelo fato de que Ives sofreu recentemente uma quarta cirurgia do Divertículo de Zenker (processo endoscópico), que resultaria, mercê de consequências imprevisíveis, em uma série de adversidades ao longo de prolongada hospitalização no referencial Hospital Sírio-Libanês. Restabelecia-se das vicissitudes quando contraiu o Covid-19. Apenas como referência, acrescentaria que em 2018 fui também operado do Divertículo de Zenker por endoscopia, intervenção relativamente simples, mas que imprevisivelmente provocou uma pneumonia, a me reter durante uma semana em UTI no ótimo Hospital Santa Catarina.

J.E. – Em algum momento antes da cirurgia, devido à sua faixa etária, alertaram-no sobre decorrências?

Ives – Não houve qualquer alerta, creio que pela simplicidade da operação. Os médicos esperavam que pudesse até sair à tarde.

J.E. – Naqueles angustiantes dias em que sequencialmente o seu organismo não reagia, seu genro e eu, sempre em contato, temíamos pela sua vida. Que força interior o levou a acreditar numa recuperação e em algum momento o irmão temeu a morte? É de conhecimento público sua religiosidade. Em que dimensão a situa?

Ives – Após o procedimento endoscópico tive, algumas horas depois, uma isquemia, sendo levado de imediato para uma unidade cardiológica. Na sequência, houve uma septicemia que me deixou em coma por seis dias. O estado inconsciente leva, todavia, em alguns momentos, o paciente a delirar. No meu caso, quando saía do estado comatoso, distinguia alguns elementos da família, mas voltava rapidamente a participar do delírio, revivendo fatos históricos (2ª Guerra Mundial, independência do Brasil, a guerra de secessão, etc), que desapareciam sempre que abria os olhos. Quando saí da inconsciência, contaram-me que ficara seis dias entubado e em coma. Assim que me livrei do entubamento e fui da UTI para a Semi-UTI e depois para quarto, peguei o corona vírus, ficando mais 11 dias no Hospital Sírio Libanês. Ao todo 38 dias. Nestes momentos, o importante é não desanimar, manter o espírito aberto – sempre brinquei com a enfermagem – e manter-se a par do que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Foi o que fiz. Estou, todavia, convencido de que as orações de todos e as minhas também – assistia às missas diárias na TV quando fui liberado – levaram o médico divino a curar-me.

J.E. – Ao visitá-lo por duas vezes, não entrei no espaço em que o irmão estava na UTI, pois não me ofereceram máscara, jaleco ou avental descartável. Vi familiares e visitantes que entraram no seu espaço da UTI sem qualquer proteção. Seria uma das causas dos problemas até a contaminação pelo Covid-19?

Ives – Não creio. O mais possível é que dois dos médicos que me tratavam e que tiveram o corona, tenham-me passado.

J.E. – Durante os 38 dias hospitalizado o irmão acompanhou o início da evolução do Covid-19 no Brasil, temendo-o?

Ives – Quando peguei o novo corona vírus fiquei um pouco preocupado, mas nos 11 dias isolado não tive falta de ar, nem precisei de respirador.

J.E. – Qual a sua reação, em pleno processo de recuperação pós-operatória, ao saber da contaminação pelo Covid-19?

Ives – Não foi agradável, pois já estava internado há 27 dias, mas enfrentei, com tranquilidade, pois não havia outra alternativa.

J.E. – Tenho acompanhado as pesquisas internacionais a envolver medicamentos como Hidroxicloroquina + Azitromicina e Plaquenil. Em França, resultados concretos a partir da Hidroxicloroquina + Azitromicina têm sido reais, mormente a partir do protocolo do Dr. Didier Raoult, de Marselha. Correntes do governo francês contrariam as pesquisas alvissareiras do Dr. Raoult. O medicamento não é caro, mas precisa ser indicado por médicos, pois arbitrariamente consumido pode até levar a óbito. Dado o seu estado de saúde pré-Covid-19, esse medicamento foi-lhe administrado? Teria sido igualmente prescrito à Ângela, sua filha na foto, que contraiu o Covid-19 e já está curada?

Ives – Por lutar há 30 anos contra a artrite, tomei Plaquenil e Plaquenol durante muitos anos, que são remédios à base de Quinino. Talvez tenha havido alguma proteção pelo depósito de Quinino no corpo. No hospital, todavia, não tomei o remédio.

J.E. – Não teriam os três Poderes de se debruçar bem mais sensivelmente sobre áreas como saúde, educação, saneamento básico? O SUS, sustentáculo tênue nessa avalanche de infectados que a todo momento acorre aos seus postos, tem sofrido retração constante das verbas. Os índices estratosféricos do Covid-19 nos Estados Unidos não seriam bem inferiores tivesse o país um modelo público, tipo SUS? Não mereceria doravante o SUS uma atenção plena do governo, mormente pelo crescimento excessivo, pós-Covid-19, das classes menos favorecidas?

Ives – Passo-lhe artigo por mim escrito que saiu no Migalhas [vide link abaixo], entendendo que a união entre as três esferas da Federação seria fundamental para combater a Covid-19. Nenhum país do mundo estava preparado para enfrentar a pandemia, com “escolhas de Sofia” sendo feitas em países desenvolvidos como Itália e Espanha. No caso brasileiro, a não obediência ao confinamento tem dificultado ainda mais o combate a sua disseminação.

J.E. – Sobre a problemática confinamento-economia, quais suas perspectivas?

Ives – “É difícil dizer. Os governos estão gastando mais e recebendo menos. Se forem para um aumento da carga tributária para compensar a perda, esgotarão a sociedade e atrasarão a recuperação. Se pretenderem emitir moeda para se autofinanciar gerarão, no tempo, inflação.

A única forma seria, visto que 35% aproximadamente da carga brasileira é destinada aos servidores públicos de todas as entidades federativas e poderes, que houvesse um gesto de redução temporária de seus vencimentos, visto que está havendo redução de salários no setor privado e desemprego. Neste sentido, passo-lhe o texto de meu artigo “A omissão burocrática” publicado no “Estadão” [vide link abaixo]. O certo é que o mundo terá que repensar em nível de solidariedade e soluções econômicas e sociais a partir de agora. No Brasil, só com a redução da esclerosada máquina burocrática teremos condições de sair da crise.
Há 50 anos faço o melhor negócio do mundo: dou meia hora do meu dia assistindo uma missa e mais algum tempo entre oração, terço e poucas devoções, e recebo mais de 21h de Deus para gozar daquele dia. Nenhum banco pagou juros tão generosos, em qualquer momento da história da humanidade.

J.E. Ives enviou-me as respostas no dia 19 de Maio. Há exatamente 20 anos morria nosso saudosíssimo pai, figura emblemática na nossa formação, dias antes de completar 102 anos e um ano após nossa querida mãe. Hospitalizado, ouvi, uma hora antes do desenlace, as batidas aceleradas de um coração que batera sem cessar de 1898 ao ano 2000. Dois dias após, ouvia em uma maternidade o coraçãozinho acelerado da neta Valentina, que está a completar 20 anos. Mistérios insondáveis!

Finda a entrevista, Ives pediu-me para inserir Dumka de Tchaikowski, peça que interpretei em 1962 no Conservatório P.I.Tchaikowsky, Moscou, durante o II Concurso Internacional Tchaikovsky. Agradeço ao dileto amigo Elson Otake que atende à solicitação do irmão, introduzindo a composição no Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=S1IQtIpZCJA

“O combate ao coronavírus”

https://migalhas.com.br/depeso/326553/o-combate-ao-coronavirus

“A omissão burocrática”

https://gandramartins.adv.br/artigo/a-omissao-burocratica/

Today I publish a “conversation” with my brother, the eminent lawyer Ives Gandra Martins, who has recently been admitted to hospital for a simple and quick surgery, expecting to be discharged on the same day. However, a series of unexpected post-surgery complications including a six-day comma and later an infection by coronavirus kept him in hospital for 38 days. The family feared for his life, but fortunately he is already at home in a good general state. In this interview for my blog, Ives talks about his days in hospital and how his strong faith contributed to a positive attitude towards his health. As an expert tax lawyer, he also gives his views on the predicted economic and human chaos after Covid-19, stating that in Brazil, only with the reduction of its sclerotic bureaucracy the country will be able to get out of the crisis.