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As Várias Manifestações Gestuais

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus próprios estados de alma.
Tão pouco a exibição de si mesmo, ou seja, a auto-exibição.
É dever sagrado do intérprete comunicar
de maneira intacta o pensamento do compositor,
pois ele não é que intérprete, apenas.
Claudio Arrau

Dividi em duas partes o blog sobre o gesto. Este segundo post coloca-se em dois momentos: apresentar a continuação das considerações de François Servenière sobre o gesto, mormente na modernidade e, depois, tecer reflexões pessoais sobre gestualidade, concentração, mídia, tradição e modernidade, já externadas homeopaticamente em tantos posts anteriores.

Ao regressar ao pianista Lang Lang, nascido na China em 1982, Servenière comenta: “Vejo em sua maneira de interpretar algo muito original, fundamental para a maestria do futuro, mas iconoclasta para a geração mais purista, nascida sob os fundamentos batismais da rádio, onde apenas a audição era importante. Consideravam que a transmissão áudio iria travestir e trair a tradição dos intérpretes mediúnicos, podendo ‘matar’ os poucos intérpretes ungidos num panteão ainda em vida. Eram eles os únicos que poderiam se opor a esse fervilhar multifacetado que surgiu com as novas gerações de pianistas, produzidos em massa pelos conservatórios mundiais. Essa assertiva pode ser constatada através de caminhos percorridos por essa legião de intérpretes.

Por que fiquei emocionado com a interpretação de Lang Lang do famoso concerto de Tchaikovsky? Ele teria compreendido que a música de tradição, habitualmente denominada clássica ou erudita, muitas vezes com desprezo, necessitará de nova metodologia para poder concorrer com as insípidas presenças na web, que deploramos amargamente, você e eu. Lamentamos a capacidade perdida da música erudita de poder seduzir o espectador frente ao desarranjo infinito que nos é proporcionado por esses espetáculos de vídeos YouTube sem pé nem cabeça, pela apologia insana à pornografia, sem contar sexo, assassinatos e a decadência  mais estereotipada, salvo em Roma antes da queda. Até mensagens bárbaras de fundamentalistas são apresentadas! Lang Lang compreendeu que, para concorrer com a web atual, em batalha aparentemente perdida para o besteirol, seria necessário mostrar movimento, vivacidade, teatralidade, mise-en-scène e qualidade vivificada e renascida, pois a imagem alimenta-se ‘bestamente’ de movimentos e vida. Ação de muitas câmaras e gestos, montagens sofisticadas, pois, mesmo que o purismo o contradiga, evidentemente o progresso passa por uma análise de fundo e de forma! Orquestras e metteurs en scène compreenderam essa tendência. Talvez estejamos nessa fase necessária – mas não o suficiente – da transição, onde intérpretes aprendem uma nova linguagem, justamente essa da cena frente à câmara quando, pouco a pouco e por vezes tateando, compreendem a necessidade atual, vital e irreversível, dessas técnicas inovadoras. Acredito, em contrapartida, que haverá uma volta à verdade da linguagem essencial entendida por você.

Na realidade, a gestualidade de Lang Lang não é tão diferente daquela de músicos clássicos de todas as gerações, que adentravam o palco diferenciando-se da concorrência mostrando personalidades expansivas, diferentes daquilo visto até então. Estive presente em numerosas premières de jovens. A teatralidade mais ou menos excessiva, a depender da personalidade, perturbava-me, como o perturba.Compreendi com o tempo que se tratava de natural inclinação ao inusitado nesse vislumbrar da carreira. Como você demonstra com eloquência, o intérprete regressa naturalmente à tradição mais comedida e sábia de sua arte quando sua personalidade acaba sendo aceita e adubada pelo público. Stravinsky foi radical ao compor ‘A Sagração da Primavera’ e resultou, o mesmo fazendo Pierre Boulez, ainda mais radicalmente! Conheci os primórdios da carreira do pianista François-René Duchâble. Era eu ainda um menino. Extrovertido e expansivo no palco àquela época, Duchâble era de estatura pequena. Quando assisti a um seu concerto – ele deveria ter 50 anos – presenciei o sábio sobre a montanha, já sem a necessidade de fazer acrobacias e gestualidade excessiva para deslumbrar multidões. Duchâble encarnou dois personagens, o gênio precoce e o sábio. A primeira atitude, para se fazer conhecido, a segunda, para transmitir. Toda essa metamorfose em apenas uma personalidade desejosa de imortalizar a verdade da música em lances largos, elegância, profundidade. A verdade estaria nessa transformação. Penso que Lang Lang tem suficiente talento e inteligência para traçar o mesmo caminho percorrido pelos grandes mestres. Os excelsos compositores também não trilharam sendas que se metamorfosearam?  Aí estão Debussy, Mozart, Ravel, Stravinsky, Beethoven, mestres absolutos, para mais não dizer” (tradução: J.E.M.).

A tradição obedece à constância, dela é integrante. Porém, fluxos motivados pela passagem do tempo, não a tornam imutável. Impossível seria tratando-se de interpretação. A tradição pressupõe pequenas flexibilizações. Se assim não fosse, estaria embutida, aprisionada. Contudo, a espinha dorsal – mercê da partitura, das fontes, do debruçamento de estudiosos e da oralidade – é salvaguarda para que a continuidade tradicional permaneça. Se a modernidade e a tecnologia sempre in progress avançam para cenário cada vez mais exposto, intérpretes adeptos da tradição no suceder de gerações não têm essa preocupação com o efeito gestual e a transmissão da mensagem musical. Antolha-se-me que o gesto expõe o carimbo rigorosamente individual quando dos excessos nos tempos atuais. Insubstituível, personalíssimo, o gesto mediático exacerbado não encontra imitadores. Ele é efêmero, pois estiola-se com o “criador”. Tem, sim, descobridores de outras “técnicas” de expressão corporal. Seria do mais extremo mau gosto uma réplica de Lang Lang em suas transformações corpóreo-faciais, como beiraria o grotesco a adoção postural excêntrica de Glenn Gould frente ao piano. Os gestuais do virtuosístico e estereotipado Lang Lang e os praticados por Glenn  Gould, artista de raríssima inteligência, não têm e não tiveram, respectivamente, seguidores, mas servem e serviram para autopromoção. Impossível a indiferença ao vermos essas duas personalidades em ação. Não obstante, é fácil entender que há fundamental diferença entre os dois, pois no pianista canadense, apesar das excentricidades, a presença da plena convicção quanto à interpretação meticulosamente planejada torna-se transparente.

Esse debate me fez percorrer vídeos de alguns pianistas, do passado ao presente. Apresento alguns links que poderão ser acessados pelo leitor. Acredito que a economia dos gestos, quase que sine qua non no passado, ajudava a transmissão da mensagem musical nesse respeito absoluto à tradição. Se houve exceções bem anteriores, inclusive a de Franz Liszt (1811-1886), frise-se que o extraordinário pianista e compositor húngaro teria sido o primeiro a apresentar recital sem partitura e parte essencial de suas récitas era constituída de obras de sua lavra. Seu gestual era único, segundo relatos. No meu entender, ratifico, torna-se improvável o não contágio do gesto sobre a transmissão. Interfere na frase musical, nas acentuações, sensivelmente na agógica e no estilo. Certamente o intérprete de gestual exacerbado, que está a “transmitir-se”, preferencialmente à mensagem musical, não deverá ser aquele que carrega a chama olímpica da tradição. Daí minhas observações no e-mail a Servenière, postado no blog anterior. Porém, ele tem razão em suas considerações. Tempos modernos clamam pelo gestual. E não apenas isso. Empresários, que visam obviamente ao lucro, plateias que se empolgam com o virtuose “fenômeno”, que entendem a gestualística como meio fundamental, sociedades de concerto que aceitam ser aquele o “cara” a ser cultuado, pois adorado pelo público que acorrerá numeroso ao evento, mídia “comprometida”. Todo um esquema estaria montado e tende à aceleração. Essa tendência hodierna, regada fartamente pelas câmaras onipresentes, favorece o gesto. Intérpretes se submetem. É a lei do mercado. Todavia, tantos da média e nova geração não são atraídos pelo canto das sereias. A meu ver, felizmente. Questão de estilo.

Os links levam aos vídeos. Intercalo atitudes frente à transmissão da mensagem musical.

Vladimir Horowitz (1903-1989)
Schubert-Liszt / Soirée de Vienne – Valse Caprice nº 6

 

Lang Lang (1982- )
Scriabine / Étude op. 8 nº 12 – Patético

A não compreensão do mood do  Estudo – a sinfonia nº 6 de Tchaikovsky também leva o nome de Patética – é clara. O termo patético, ligado aos afetos, estaria mais próximo do drama ou mesmo da tragédia. O gestual totalmente voltado às câmaras contradiz intenções contidas na palavra.

Arturo Benedetto Michelangeli (1920-1995)
Domenico Scarlatti / Sonata in B minor

 

Mitsuko Uchida (1948- )
Mozart / Concerto in D minor / K466

A interpretação, nitidamente voltada às câmaras traduz, inclusive, paradoxos. A pianista está a reger e sendo amplamente filmada. O gestual exagerado não combina com a atitude dos ótimos músicos, inteiramente voltados à partitura. Praticamente não olham para os gestos de Uchida quando a reger! A regência mostra-se, pois, “virtual” a enfatizar a regente-pianista.

Glenn Gould (1932-1982)
J.S.Bach / Partita nº 4 / Sarabanda

 

Jean  Doyen (1907-1982)
Chopin / Fantaisie-impromptu Op.66

 

In today’s post I resume François Servenière’s views on pianists that act dramatically to dazzle audiences, followed by my own comments on the subject. As illustration, a series of links with videos of pianists of different personalities and styles, so that readers can compare them and draw their own conclusions.

 

 

 

Leonor Alvim e a Arte Tri-dimensionada

Amor é sentir o universo
Pequeno para tanta estrela
Leonor Alvim

Conheci Leonor Alvim (1935-2012) no final da década de 1970. Chegara ao Brasil, vinda de Portugal, para fixar-se em São Paulo com toda a família após a “Revolução dos Cravos”, de 25 de Abril de 1974. Nesse período, nosso país receberia inúmeras outras famílias portuguesas. Privei da amizade de todo o clã dos Alvins, principalmente de meu saudoso amigo Rui Pereira Alvim, intelectual e poeta, marido de Leonor. Os filhos do casal tornaram-se amigos diários de nossas duas filhas. E concretizava-se uma amizade que perduraria…

Lutando com intrepidez, Leonor operou tripardidamente. Foi professora de piano no Conservatório Musical Brooklin Paulista e no Conservatório de Pouso Alegre em Minas Gerais, dedicar-se-ia com maestria a arte invulgar, grandes painéis tecidos, e escrevia seus poemas veladamente, sem contudo divulgá-los. Agitada, impulsiva a defender suas ideias, era sempre um prazer estético acentuado a discussão com a saudosa Leonor sobre o ato artístico. Diria que foram anos de intensa confraternização, expandida pelo relacionamento fraterno entre nossos filhos. Sob outro contexto, minha mulher Regina e Leonor chegaram a se apresentar várias vezes em recitais de piano a quatro mãos.

Depois dos anos tumultuados pós Revolução, regressaria a Portugal em 1989, a continuar sua atividade como professora na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa e a realizar seus já famosos painéis tecidos, expondo-os em alguns espaços referenciais, como a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Estive umas poucas vezes com Leonor em Lisboa, que por vezes assistiu meus recitais de piano na capital portuguesa. Em uma das noites, após meu recital no Conservatório Nacional de Lisboa, jantamos com o saudoso compositor e amigo Jorge Peixinho em restaurante caro ao notável músico, “Toni dos Bifes”, ao pé do Saldanha. Noitada não esquecida. Dos seus cinco filhos, três permaneceram no Brasil, um deles, Rui, músico, outros dois, Tomás e Luiz, dedicando-se à editoração de livros de arte, sendo que as duas filhas singraram mares. Leonor Alvim Brazão, ativa publicitária e artista plástica nos Estados Unidos, primogênita dos Alvins, foi uma das organizadoras do comovente evento “Obrigado, Sígrido”.

Qual não foi nossa alegria ao recebermos das mãos de Leonor o livro de poemas e ilustrações de panos-collage “Palavras Soltas” (São Paulo, BEI, 2010). Encantaram-me os poemas, pois seus painéis tecidos já me eram familiares e os admirava imenso.

Confesso que jamais Leonor me apresentou um só de seus poemas e apenas conhecia os dons poéticos de Rui, com quem esteve casada por mais de duas décadas. Literatura portuguesa era a temática das conversas diárias mantidas com Rui (Os Alvins eram nossos vizinhos), pois com Leonor música e painéis preponderavam em nossos diálogos.

A poesia de Leonor Alvim tem a sua impressão digital. Aquela mulher artista que caminhava sempre agitada assim procedendo durante toda a existência, na busca frenética de horizontes não vislumbrados, mas que sabia entender a sua prole à sua maneira, refugiar-se-ia no solilóquio, recanto íntimo insondável para os outros. Anos de convívio e a criação poética de Leonor manteve-se não revelada para este amigo confidente, mormente naquele período de intensas discussões em torno da arte.

Os poemas de Leonor se processam em situações confluentes. A metáfora lhe é familiar e sabe dela servir-se com maestria. O amálgama panos-collage e poema se dá a todo instante. Em “Panos”, revela origens:

Panos

“A minha Mãe ensinou viver sem a cópia da obrigação

Onde os tecidos viraram a pele que me cobre, a sensação
Feita posse da luz que os ilumina, uma longa estrada
Brincando no espaço que se recria
Caleidoscópio de outra dimensão

A minha Mãe ensinou-me a ser livre
A ser um livro de capas da minha pele
Que ambas costuramos a vida inteira”

No poema “Noite”, Leonor ratifica a trajetória “Sou noite na madrugada e a minha pele é a Terra!”. Essa “pele”, elaborada no útero, não sofre metaforfose, pois revelaria a integração plena e harmoniosa com todo o trabalho vindouro, a feitura dos painéis tecidos. Em cada tira, na junção dos tecidos, é essa pele que, por osmose, penetra a obra de arte multicolorida – sua alma assim não era? -, intrigando o observador, mercê do propósito da artista de revelar segredos, mas a guardar mistérios, esses insondáveis. Impossível não sentir impacto frente aos seus painéis tecidos, que servem a tantas interpretações. O filósofo e musicólogo francês Vladimir Jankélévitch já escrevia que o segredo pode ser descoberto, jamais o mistério.

Não obstante imagens figurativas e abstratas fundirem-se tantas vezes num delírio onírico, seria a leitura do poema que traria subsídios ao observador para  apreender ao menos uma centelha das verdadeiras intenções da artista.

Em “Amanhecer” Leonor capta a explosão da natureza, dissipados os resquícios da penumbra, aspiração em direção à luz numa visão heliotrópica. Bastam uns versos para a apreensão do todo:

Amanhecer

“Em tons ciclâmen e rosa tinge a noite seu manto de sombras
Lilases e magenta espalham-se sobre os prados
Que se espreguiçam sobre a Terra
Brilhos sob os véus que se esboroam
Nos sons do amanhecer

Raios de luz acordam a Natureza
Deslizam no espaço que se dilata, freme
A claridade avança e mistura os timbres da aurora
Às sombras da Noite… que se dilui!

Mítica luz que se espalha pelo espaço
Azul turquesa, preciosa gema, cristal facetado
Desta divindade que brilha ao nascer do Sol”

A noção do regresso, seja ele geográfico ou afetivo, move-a em direção ao geotrópico, característica visceral em tantos painéis:

Torno à velha casa donde parti

Torno à velha casa donde parti
À minha volta apenas o mar e a terra que me rodeia
O ar espesso de ausências sorvo – banquete amargo de saudades
Ser adiado, vida contida que no entanto jorra
Destes campos e colinas que me cercam
Fui embora… só este corpo resta, esvaziada a sede
Que me devora
Livre e solta, partirei agora. Outros espaços aguardam
Sem som, sem cor
Só a água clara que brota de meus olhos em prantos já antigos
Torno à velha casa donde parti outrora tão só e triste como agora

Como não pensar no soneto “Visita à Casa Paterna”, de Luiz Guimarães Junior (1844-1898), nascido no Rio de Janeiro e falecido em Lisboa?  “Como a ave que volta ao ninho antigo, / Depois de um longo e tenebroso inverno, / Eu quis também rever o lar paterno, / O meu primeiro e virginal abrigo: // Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, / O fantasma talvez do amor materno, / Tomou-me as mãos,-olhou-me grave e terno, /E, passo a passo, caminhou comigo.// Era esta a sala (oh! se me lembro! e quanto!) / Em que, da luz noturna à claridade, / Minhas irmãs e minha Mãe… O pranto // Jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de? / Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade.” O regresso não passaria impune nos dois poemas.

Em texto curto e exemplar, “A Patria dentro da Pátria”, a imensa poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004),  nascida no Porto como Leonor Alvim, já escrevia: “Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e todas as angústias”. Seria essa “O Porto” que faz Leonor tão bem expressar na série de painéis tecidos a representar o Douro: “Não vejo mais o espaço, sou cada uma, áspera, lúbrica / Violenta ou doce feito mel / Gerada neste berço de família de pedras em cadeia / Esculpidas pela Natureza”.

Privilegiados os que conheceram Leonor Alvim, que perdurará através de seus painéis carregados de emoção, de lirismo e da força interior. Seus poemas seguirão como a segunda via, necessária, imperiosa até, nessa integração plena cor e palavra, vida e o amor.

From Leonor Alvim Brazão – who organized the event “Obrigado, Sígrido”- I have received the poetry book “Palavras Soltas” (Loose Words), written by her mother, the late Leonor Alvim, a dear friend who lived in São Paulo for some years, fleeing from the Carnation Revolution (1974) in Portugal. Leonor was a multifaceted artist: talented pianist and teacher, visual artist (her fabric collages are spread through private and public collections in various countries) and also a poet. This last talent was unknown to me, though we’ve been friends for more than twenty years. This post is a brief appreciation of her book, in which the amalgamation between her paneaux collages and her thought-provoking poetic language is a constant, as evidenced by the book’s magnificent illustrations. Leonor passed away in 2012, but she will remain with us through her collages charged with emotion, lyricism and inner strength. Her poems are a second path, necessary, even imperative, for merging into a single art color-word, love-life.

 

 

 

 

 

 

 

 

O Olhar de Lince e a Escrita Inteligente

Pouco nos importa o modo de expressão
que colocou em movimento a sensibilidade de um artista.
O que desejamos em troca de nossa  “incuriosidade”  respeitosa
sobre  processo emotivo
é que ele não introduza maneiras estranhas
nos modos de expressão que lhe são peculiares.
Georges Migot

Inúmeros foram os posts nos quais inseri considerações do dileto amigo e ilustre compositor e pensador francês François Servenière. A temática gravita preferencialmente em torno da Música, mas tantas vezes, devido ao direcionamento dos posts, Servenière demonstra todo seu vastíssimo acervo cultural que o torna um pensador de estirpe.

Os dois posts a respeito de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes Alves, serviram para Servenière considerá-los sob várias facetas, a partir do “sonho” como desiderato almejado. Ao considerar frase de Norberto de que não deveríamos deixar que nossos sonhos se percam no mundo das ilusões, o mestre francês observa:

“Inicialmente, o título do livro de Norberto de Moraes Alves é magnífico, pois evoca o que todos nós somos e o percurso que empreendemos pela vida tão curta como ‘domadores de sonhos’. Deles partimos e tentamos domá-los, na medida de nossas possibilidades, trazendo-os à realidade, partindo do idealismo em direção ao realismo. Acredito que os sonhos mais loucos são realizáveis, pois, como diz meu sogro, com forte pronúncia regional, aposentado e carpinteiro de profissão, portanto muito próximo das coisas da vida, ‘quando se quer, faz-se’. Sim, a vontade é a verdadeira escavadeira da vida, que torna possível as pistas de decolagem de nossos sonhos mais absurdos. Você, eu, meu pai e meu sogro somos exemplos de ‘quando se quer, faz-se’ e estamos longe de ter esgotado essa exigência de sonhos a realizar. O que mais detesto nesse mundo é a procrastinação, tão presente nos políticos clientelistas de nossos países, principalmente nos dias de hoje, que não fazem outra coisa do que surfar sobre as mentiras, que não vivem que da ficção da vida a crédito, levando nossos países à ribanceira sob o pretexto de que a dívida será o único motor das economias modernas, quando na verdade é o principal câncer. Quanto à política e seu cinismo… eu ainda sonho combatê-los, talvez contra moinhos de vento…

A sinceridade raramente casa com a popularidade e com os negócios. Para a composição, a equação do establishment é aquela de juntar-se com as aspirações do público, ou seja, de partir dos anseios deste para a criação de uma obra. A equação do autor autêntico, do artista autêntico, é partir de sua interioridade para o nascimento de uma obra que possa evidentemente encontrar sucesso e se instalar no coração e no espírito das pessoas. A prova evidente do fato das maiores obras da humanidade tornarem-se atemporais reside não somente nesse falar direto aos corações e aos espíritos do público, não fazendo abstração da exigência. Ao acoplar-nos ao desejo do povo, tornamo-nos populistas. Ao aderirmos ao excesso do princípio da exigência, tornamo-nos, inversamente, ideólogos e incomunicáveis. A melhor fórmula já não teria sido aventada pela filosofia chinesa em sua imanente verdade ‘O espírito busca sempre caminho mais longo que o coração, contudo jamais ele irá tão longe’.

Sim, eu entendo, os apóstolos da arte contemporânea pretendem que falar com o coração é vulgar e faz parir romances vendidos nas estações ferroviárias, portanto pateticamente fracos, temática e semanticamente, segundo o princípio por eles entendido como universal ‘Não se faz arte com bons sentimentos’. Norberto de Moraes Alves pretende que ‘não deixemos nossos sonhos perderem-se no mundo das ilusões’.

Sob a égide dessa frase, e para resistir ao Maelström que representa a constatação de um de seus últimos posts, ‘a arte foi invadida pela massificação, que não subsiste que através do efêmero’; é necessário criar e escrever obra que se sustente. Essa perenidade não acontece evitando-se as tentações da sedução, escrevendo-se uma música antimusical ou antissedução, mas criando, ao contrário, uma música tão ou mais sedutora do que aquela que por vezes é encontrada no estilo efêmero e no turbilhão do alto consumo. Que fique claro, essa música sedutora e envolvente tem de possuir qualidades intrínsecas de elevada condição estrutural e semântica, repleta de prazeres e de surpresas e embasada na técnica segura. Todo o material da música atual está disponível, instrumentalmente ou sob o prisma composicional. Construir uma obra que seduza, feita sob a égide hedonista, mas a responder a critérios de qualidade extrema, tornou-se exigência para o futuro da arte renovada, em todos os seus domínios. Isso é possível, pois ‘há ainda muitas obras primas a serem escritas em dó maior’. Nossos antepassados em França, Debussy, Ravel e mais recentemente  Messiaen e Dutilleux, fizeram essa façanha, como em todos os centros. Villa-Lobos, Guarnieri, Mignone e Oswald em seu país, Lopes-Graça em Portugal, assim como tantos nos países do Leste e nos Estados Unidos… Nada é impossível, tudo se pode, em todo lugar e sempre. Nada resiste ao trabalho e ao espírito.

É evidente o aspecto empresarial em torno das obras atuais mais ventiladas. Seria necessário o pouco provável retorno a um renascimento artístico, único capaz de suscitar novamente grandes obras e fazer emergir grandes artistas, certamente escondidos hoje no ‘anonimato’, como você bem lembra em seu post, artistas ligados ao preceito dos antigos atenienses – ‘verdadeiro, belo e justo’-, ontologicamente impregnados da síntese e da simplicidade.

Todos os sintomas sociais estão presentes sobre a Terra para mostrar não somente a necessidade do retorno às virtudes ‘clássicas’, mas também a vital impulsão pela busca da fé em outra coisa que não os ‘produtos de consumo correntes’ – mesmo os produtos artísticos tornaram-se de ‘consumo corrente’. Não mais satisfazem parcela da população, mas enriquecem muitos. Quanto ao espírito?

Falando dos artistas que são apresentados como modelos poderosos do show-business atual, consideremos que outros extraordinários artistas não são evidentemente promovidos a contento, ou mesmo quase nunca, apesar de não termos o recuo histórico para analisar. Leis do mercado. Contudo, mesmo nos Jogos Olímpicos aquele que sai primeiro nem sempre cruza a linha final. É a fábula do coelho e da tartaruga.

O círculo é vicioso, pois perdedores e vencedores, segundo os critérios das mídias à maneira do Maesltröm, não vivem todos num mesmo planeta. De um lado, o sucesso e meios financeiros imensos, do outro uma ausência de sucesso e meios financeiros limitados que impedem a aparição pública de obras mais exigentes e inovadoras.

Malgrado todas essas constatações, os artistas, sejam eles de geografias diferentes e de talentos e méritos vários, sejam quais forem suas linguagens, gêneros ou estilos, todos estão restritos ao idêntico paradigma, aquele do ‘hic et nunc’, que demonstraria que a posteridade tem raramente a possibilidade de reavaliar méritos e talentos ‘post-mortem’ do artista. Reconhece-se a força de uma obra também através da capacidade do artista se produzir, seja lá a qual preço. Nessas circunstâncias, não há consolação ou vitória exterior, mesmo se carreiras são feitas de repescagens permanentes e os destinos do tipo fênix, que renasce das cinzas.

É injusta, mas a lei da vida estabelece a seleção natural e esta é cega. Sem concessão. Sem ter plano preconcebido, preserva contudo os melhores, aqueles que transmitirão o bastão à geração seguinte. A natureza fixa regras aplicando-as de maneira darwinista implacável , tanto nas artes como em todas as áreas. ‘Struggle for life’ é o motor central e genérico de todas as existências sobre a Terra. A concorrência é rude, mas ela o é desde os espermatozoides. Nada mais fazemos do que continuar o processo.

Uma força imensa está presente em cada um de nós. Há aqueles que sabem aproveitá-la, dominá-la e fazer da vida algo excepcional, como existem os que passam ao largo, mesmo se considerarmos que a vida não presenteia no início as pessoas da mesma maneira. Sabe, contudo, distribuir cartas ao longo da existência, ao mérito, precisamente.

A vida não é justa ou injusta, ela é. Eis o que me levou à reflexão sobre seus dois textos em torno de ‘Domador de Sonhos’, de Norberto de Moraes Alves. Continuemos a ser indomáveis e obrigado por seus artigos sinceros e lúcidos, se bem que tristes, se considerarmos certos talentos”. (tradução: J.E.M.)

Once more I transcribe e-mail message received from the French composer François Servenière, now with his views on a subject addressed  recently: our dreams and the chances of making them come true and the difficulties to determine why so many talented artists live in obscurity, while others, maybe not so qualified, succeed in capturing media attention.