Navegando Posts em Artes

Imagens Ilustrando o Desenrolar das Histórias Bíblicas

Johann Kuhnau era possuidor de uma profundidade de sentimento
e, ao mesmo tempo, de uma beleza quanto ao tratamento formal,
uma graça feita de força e claridade,
que ainda hoje poderiam tornar o seu nome popular.
Romain Rolland (1866-1944)

Salientamos anteriormente a intenção de colocar à disposição pública, via YouTube, as seis “Suonatas Biblicas” de Johann Kuhnau (1660-1722), antecessor de J.S. Bach como Kapellmeister na Igreja de São Tomás, em Leipzig (vide post de 04/10/2014). O presente texto anuncia a inclusão completa da monumental obra do compositor alemão, a primeira grande criação programática composta para teclado. Kuhnau, ao ter a ideia de explorar temas do Velho Testamento, incluiu frases em italiano para determinar cada ação da história. Lembremos que a língua da península itálica era basicamente a “oficial” para determinar andamentos, dinâmica, gêneros e intenções outras referentes à escrita musical.

Se um primeiro passo para a apresentação das “Sonatas Bíblicas” fora dado em 1972 em recital que apresentei no MASP de São Paulo, com texto e imagens de slides projetados em uma tela e preparados pelo então jovem músico Rodolfo Coelho de Sousa, é certo que não repetiria a experiência, diga-se, ousada para a época, mas não a atender o sentido das Sonatas em suas implicações. Em um segundo passo, em 2007, o datashow preparado pelo ilustre musicólogo português e dileto amigo Prof. José Maria Pedrosa Cardoso teve guarida em várias cidades portuguesas em que as “Sonatas Bíblicas” foram apresentadas. As frases lá estavam, traduzidas para nossa língua mãe e o objetivo música e texto foi devidamente cumprido.

Várias foram as razões que me fizeram recorrer às ilustrações ditadas pela tradição pictórica estabelecida pelas iluminuras medievais, vitrais de capelas e catedrais e pelas pinturas da Idade Média ao romantismo. Escolhemos aquelas que melhor pudessem  exemplificar a carga emotiva de cada situação bíblica proposta por Kuhnau, geralmente com títulos das cenas indicados pelos próprios artistas.

A ausência de imagens artísticas mais recentes se deu, mercê de direitos autorais que poderiam estar inseridos. Inviabilizou-nos, pois, o emprego de magníficas telas ou gravuras bíblicas de Marc Chagall (1887-1985), como exemplo. Sob aspecto outro, inúmeras gravuras extremamente bem cuidadas e retratando “fielmente” a ação bíblica e existentes em inúmeras bíblias, livros ou folhetos cristãos, mormente publicados nos Estados Unidos, poderiam estar incluídas nessa inviabilidade graças aos possíveis direitos autorais. Diga-se, tantas dessas gravuras cairiam como uma “luva”, ilustrando frases precisas propostas por Johann Kuhnau.

Os artistas que, desde a Idade Média, souberam criar pinturas para dar um sentido às narrativas do Velho e Novo Testamentos nem sempre foram precisos ao se confrontar com a tradição judaico-cristã. São inúmeras as situações típicas de cada Testamento evidenciando interpretações análogas. Personagens com vetustas barbas e anjos em tantas outras situações possibilitam leituras diversas. Nesse sentido, buscamos sempre a intenção da frase literária a desaguar no discurso musical. Para a “Suonata Sesta”, quando da frase “pensano alle consequenze di questa morte”, fixamos a imagem do quadro de Vincent van Gogh, “Sorrowing old man” (“At Eternity’s gate”), que traduz o total desalento. Nessa sonata, a epígrafe a induzir “la sepoltura d’ Israele, ed il lamento dolorosissimo fatto da gli assistenti”, pinturas de Rembrandt (1606-1669), Nicolaes Maes (1634-1693) e Antoon van Dyck (1599-1641) induzem-nos ao sentimento da oração, essencial nessa tradição judaico-cristã. Para fugas dos inimigos de Israel  na “Suonata Prima”  e na “Suonata quinta”,  após derrotas a eles infringidas, telas representativas de batalhas  de Pandolfo Reschi (1643-1699) e Nicolas Poussin (1594-1665), respectivamente, ou mesmo iluminuras medievais da Bíblia Maciejowski ou Bíblia dos Cruzados (século XIII) e a de Étienne Harding (século XII) ilustram frases de Kuhnau nessa busca da aproximação música e imagem. Todavia, majoritariamente, as ilustrações dos renomados mestres da pintura estão acompanhadas de títulos precisos desses pintores e referentes à ação bíblica que inspiraria o compositor.

A inclusão no YouTube da integral das “Sonatas Bíblicas” de Johan Kuhnau para teclado traduz musicalmente a primeira gravação realizada ao piano da coletânea fundamental para o conhecimento de rico período da música na Alemanha. Gravei-a em 2007 na mágica capela Sint-Hilarius em Mullem, Bélgica, sob os cuidados de um dos mais destacados engenheiros de som do planeta: Johan Kennivé.

Clique para o acesso às seis “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau. Piano: J.E.M.

  1. Suonata prima – Il Combattimento trà David e Goliath
  2. Suonata seconda – Saul malinconico e trastullato per mezzo della Musica
  3. Suonata terza – Il Maritaggio di Giacomo
  4. Suonata quarta – Hiskias agonizzante e risanato
  5. Suonata quinta – Gideon Salvadore del Populo d’Israel
  6. Suonata sesta – La Tomba di Giacob

Desde os blogs iniciais (2007) devo aos diletos amigos Regina Pitta (revisão e abstracts) e Magnus Bardela (suporte técnico) a continuidade dos textos. Deles recebo parte essencial da tranquilidade, pois tenho a certeza de que não falham, mercê de qualidades intransferíveis, generosidade e paciência com o velho músico. Em 2009 conheci Elson Otake nos treinos semanais pelas redondezas de minha cidade-bairro. Maratonista ranqueado, deu-me conselhos fundamentais para o treinamento e para as corridas. Seguindo sua trajetória profissional, hoje mora em Sumaré e trabalha para importante multinacional. Não obstante o distanciamento geográfico, encontramo-nos em muitas corridas de rua. Desde 2010 Elson aconselhou-me a inserir no YouTube algumas gravações. Já são mais de 70. Após profícuo diálogo, decidimos colocar as “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau. Fiquei responsável pela escolha das imagens e Elson, pela inserção. Selecionadas as ilustrações e indicadas as cronometragens, Elson, em Sumaré, realizou o sensível trabalho da montagem e, como um artífice, esteve sempre atento. Fica neste espaço meu agradecimento aos três grandes amigos. A foto, tirada recentemente na corrida do Shopping SP Market, apresenta Elson Otake e seu amigo em plena ação.

This week’s post resumes the “Biblical Sonatas” of Johann Kuhnau. Now the complete series of sonatas (six) can be found on YouTube. Kuhnau relies on words taken from the Old Testament, summing up the stories with subtitles in Italian. My videos posted to YouTube are illustrated with works of painters from the Middle Ages to Romanticism, including the Flemish school of painting, medieval illuminations and stained glass windows. My friend Elson Otake was responsible for the video editing.

 

 

 


Aspectos da Divulgação

Nunca vemos fenómenos puros;
todo o fenómeno que nós observamos e que descrevemos para os amigos,
excepto quando é matemática pura, nunca é um fenómeno.
É uma autobiografia nossa,
é uma confissão
daquilo que nós somos e que vemos tal coisa desta ou daquela maneira,
diferente de outros.
Agostinho da Silva

Tenho apresentado ao longo desses anos posições a respeito da obra  e da sua divulgação. Incluo a produção artística, literária e o intérprete, no caso da área da música. Incontáveis as mensagens recebidas comentando a ventilação maior ou menor da obra conclusa ou do intérprete que a divulga. A sociedade, voltada mais aceleradamente à massificação, tende a concentrar seus interesses em nomes precisos. A proliferação dos criadores da produção artística não impacta vivamente os mantenedores do status quo. Preferem o aumento do público àquele de quem cria. Resulta na concentração de nomes. Divulgar autores “seletivos”, tantas vezes impostos por interesses de toda ordem – empresários, mídia, editoras, gravadoras -, tem sido constante, mormente a partir da segunda metade do século XX, marcada por progressiva edificação de “ídolos”, muitos deles com pés de barro. Descoberta a mina, essa é explorada à exaustão.

O tema vem a propósito de pergunta que me foi colocada por uma das senhoras integrantes da Associação de Escritores de Bragança Paulista. Lera o prefácio de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes  Alves, publicado no último blog.  “Se Norberto é tão bom em tantas obras, como de fato é, não pareceria injusta a pouca divulgação em outros meios de comunicação?”. Só posso tristemente concordar. Razões são muitas, a partir da geografia.

O eixo São Paulo-Rio de Janeiro prioritariamente abriga considerável porção da atividade artística em suas programações, assim como das editoras mais afamadas. Decorreria a permanência junto à mídia daqueles “protegidos” por esse sistema centralizado. Espaço menos amplo tem sido destinado para a divulgação não apenas da produção artística como da editoração dos “não abrigados” pelo sistema. Recolhem-se estes às pequenas salas de espetáculo, diria espaços de “resistência” e às editoras pequenas, que lutam com dificuldades. Esforços hercúleos podem ser sentidos em numerosas cidades de nosso extenso mapa. Mantêm  orquestras, corais, “importando” intérpretes daquele eixo, assim como dão guarida às minúsculas editoras, tantas delas de grande mérito. E o que se assiste, em acréscimo, é a visita a essas editoras de escritores e poetas de grande mérito, que sabem não ter acesso às grandes empresas editoriais. É um círculo bem vicioso. Reúnem-se esses autores dessas cidades menores, à semelhança das capitais e cidades com maior adensamento populacional, em meritórias Academias de Letras. Melhores ou piores? Diria que, mesmo na Academia Brasileira de Letras, tantos por que lá passaram estão “imortalizados” apenas nas atas e nos números das cadeiras que ocuparam. As pequenas Academias, proporcionalmente, obedecem ao mesmo fluxo da meritocracia maior, menor ou até inexistente. Todavia, a exemplo de nosso personagem real Norberto de Moraes Alves, quantos não foram realmente bafejados pelas musas?

No que concerne a literatura, o que se assiste nos países de língua portuguesa, de maneira bonita, despojada, saudosista e, paradoxalmente, esperançosa, é a presença de inúmeros autores de raro valor que permanecem com obras editadas em pequenas tiragens, que testemunham o pulsar poético-literário que jamais fenece. Tive a oportunidade de ler livros de poemas de minúscula tiragem editados em Portugal – incluindo o fertilíssimo veio poético dos Açores -, assim como em Cabo Verde, Moçambique e Angola e impressiona-me a natural inclinação ao verso. Infelizmente, muitos autores desaparecem levados pelas torrenciais chuvas da vida cotidiana. Por vezes, um é pinçado, mercê do acaso ou de tantos outros fatores claros ou estranhos. Em recente post abordei “O Canto da Palavra”, de Idalete Giga, alentejana como Florbela Espanca, esta que tem sido, felizmente, estudada e divulgada mais acentuadamente. Idalete Giga, em versos despojados, conta-nos o pulsar alentejano. Entre outros poetas e contistas de tendências várias já resenhei livros de José Paulo Paes (extraordinário poeta e tradutor, tão pouco mencionado atualmente), do catalão Joan Reventós i Carner (o magnífico “Os Anjos não Sabem Velar os Mortos”), do português António Menerez (“Crônicas contra o Esquecimento”), dos irreverentes Betho Iesus  (“A Casa de Vidro”) e Luca Vitali (“Amo-Te-Me”). Claramente, na categoria da ampla divulgação, autores são “ungidos” pela mídia graças a um sem número de fatores influentes, não se descartando as possibilidades financeiras. Expostos ao público, são ventilados e recebem atenção. Melhores dos que os tantos meritórios das pequenas tiragens? Tenho lá minhas dúvidas. Esses permanecerão ocultos e, raramente, a história, em seu fluxo “arqueológico”, redescobre e revela com trombetas obras de valor. Cora Coralina (1889-1985), poetisa da gema, não poderia estar esquecida não tivesse a segunda edição de “Poemas de becos de Goiás e estórias mais”, de 1978, saudada pelo extraordinário Carlos Drummond de Andrade em 1980? “Se há livros comovedores, este é um deles”, escreveria o poeta. Quantas sensíveis Coras não existem nos rincões que abrigam a língua portuguesa? A notoriedade, nem sempre merecida, leva à acolhida de escritores, pintores e músicos. Seriam necessárias as apreciações de outros Drumonds, assim como razões várias para que haja recepção por parte dos produtores.

Se Norberto de Moraes Alves é admirado pela comunidade dessa Bragança Paulista, pela qual particularmente tenho um afeto especial, urgiria divulgar seus livros. Como e quando? Pergunta que ficaria sem resposta, hélas.

Talentos existem espalhados pelo imenso país. Escritores e poetas têm a possibilidade de realizar prazerosas tertúlias em incontáveis cidades menos adensadas e não raramente desponta um mais privilegiado pelas musas. Essas reuniões os motivam ao constante ato de escrever. Na música e na pintura a proximidade dos centros maiores torna-se imperativa para a divulgação. O intérprete tem de estar em constante contacto com centros maiores, sob o risco de estiolar-se, mormente na juventude. Poder-se-ia dizer o mesmo em relação à pintura e à escultura. Contudo, os mecanismos que levam ao conhecimento público são basicamente idênticos, a envolver empresários, mídia, profissionais de divulgação, marchands, patrocínio, recursos… Se o mérito intrínseco independe tantas vezes dessas convergentes, intérpretes musicais meritosos podem passar a existência numa nostálgica penumbra, se não estiverem em contato permanente até a juventude da idade madura com centros avançados, quase que obrigatoriamente do Exterior. Seria claro entender também que a índole do músico intérprete pode estar voltada unicamente à qualidade, distanciando-se voluntariamente da cultura de massas. Na Europa, como exemplo, quantos não são os intérpretes excepcionais que preferem o aprimoramento apenas e não a busca dos holofotes, restringindo-se suas apresentações a territórios por eles escolhidos. Mestres impecáveis vivendo em cidades pequenas, vilas ou aldeias. Frise-se que essa atitude individual, intransferível e voluntária só é possível após a assimilação plena da linguagem musical, ou seja, na maturidade do ser.  Não obstante o fato do dirigismo acentuado proposto pelo sistema, temos que reconhecer que os intérpretes mais ventilados que circulam pelo planeta têm qualidades fundamentais que os recomendam.

Seria utópico pensar numa abertura a visar à meritocracia. Essa implicaria a introdução no mercado de quantidade de escritores, poetas, pintores e músicos rivalizando com aqueles, que o público conhece. E isso, nulamente, não interessa ao sistema. Lamentável, mas é fato.

The release of the book “Domador de Sonhos”, written by Norberto de Moraes Alves, in the city of Bragança Paulista last week was the starting point of this post: a reflection on the existence of talented artists whose work, by lack of distribution channels to reach wider audiences, remain hidden within the limits of their own cities.

__________________

No link abaixo o leitor terá acesso à “Suonata Terza” das “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau, sempre sob os cuidados de meu amigo maratonista Elson Otake. Belíssima obra que ilustramos com imagens referenciais.

Clique para ouvir a “Suonata Terza” das “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau. Piano: J.E.M.

 

 

 

Primeira Sonata “O Combate entre David e Golias”

Penso que se ocupar unicamente de hábitos históricos
e querer reproduzir a sonoridade de práticas musicais mais antigas
é restritivo e não é sinal de progresso.
Daniel Baremboin

Motivo de um dos primeiros posts publicados (vide Johann Kuhnau – “Sonatas Bíblicas”. 28/03/2007), a obra de Johann Kuhnau  me fascina desde a década de 1970. Apesar de não frequentada pelos pianistas, a coletânea integra a vasta produção para teclado composta principalmente na primeira metade do século XVIII e que se adapta melhor ao piano moderno mercê da escrita. Mais e mais assiste-se à revisitação de pianistas ao repertório desse período, basicamente interrompida durante poucas décadas do século XX pelo pensamento de adeptos da música antiga voltados à autenticidade dos instrumentos, mormente ao cravo, “redescoberto” nas fronteiras dos séculos XIX-XX, após um século de silêncio. Como bem afirmou o notável musicólogo francês François Lesure em 2000 “O tempo do Barroco integrista passou. A utilização de instrumentos de época deixou de ser um dogma ao qual os músicos são obrigados a aderir sob pena de serem tratados de heréticos… não é mais o instrumento que assegura a priori a autenticidade da obra, mas o estilo do intérprete”. Daniel Barenboim segue esse raciocínio “A visão puramente acadêmica do passado é perigosa, pois ela está ligada à ideologia e ao fundamentalismo, mesmo na música”. O fluxo pianístico desse repertório, registrado em gravações memoráveis por tantos pianistas excelsos da primeira metade do século XX até os anos 1960, aproximadamente, retomou vivamente seu curso e tanto em salas de concerto como em registros fonográficos J.S.Bach, Jean-Philippe Rameau, D.Scarlatti, Carlos Seixas e outros mais têm entusiasmado intérpretes ao piano e o público de concertos. Tendência alvissareira.

Foi o acaso que me levou a conhecer a monumental coleção das “Sonatas Bíblicas”, de Johann Kuhnau. Estava a transitar em rua da Vila Nova Conceição, em uma manhã de Agosto de 1972, quando encontro o saudoso amigo José Luís Paes Nunes, personagem que unia o espírito de agitador cultural com arguto senso educacional, pois esteve ligado à Juventude Musical, associação que permanentemente via suas realizações publicadas na coluna de José Luís mantida em “O Estado de São Paulo”. Comparecera em 1971 à integral para teclado de Jean-Philippe Rameau por mim interpretada ao piano e realizada em dois recitais no Auditório Itália. Propunha-me outra integral, a das “Sonatas Bíblicas” de Johan Kuhnau, para Novembro, pois asseverou que eu deveria estar “experiente” nesse repertório. Despertou-me a curiosidade. Conhecia Kuhnau através de livros sobre J.S.Bach, seu sucessor no órgão da Igreja de St. Thomas, em Leipzig, após a morte daquele em 1722. Retinha também as referências contundentes em obras do grande musicólogo Adolfo Salazar (1890-1958) sobre o autor, bem antes do “abrupto” convite de Paes Nunes. A seguir, o dileto amigo levou-me à sua casa e ofereceu-me a partitura das “Sonatas Bíblicas”, a fim de que a interpretasse três meses após, nas comemorações dos 250 anos da morte do compositor. Aceitei o desafio, e ao começar a leitura da obra, simplesmente fiquei deslumbrado com a qualidade daquela coletânea, dedicando-me com afinco naqueles pouco mais de três meses pela frente. Não por outro motivo J.S.Bach teria copiado o manuscrito de Kuhnau. Entendera a monumentalidade e o propósito dessa primeira obra programática escrita para teclado. Inspira-se Bach nessa criação do gênero programa ao compor o “Capriccio sopra la lontananza del fratello diletissimo”. Lembraria que a apresentação em São Paulo em 1972 se fez acompanhar de slides selecionados pelo então jovem Rodolfo Coelho de Souza, com narração do saudoso Ademar Francisco Lopes. A crítica mostrar-se-ia dividida quanto à apresentação da obra e do áudio visual. Caldeira Filho, de “O Estado de São Paulo”, escreveria aos 26 de Novembro de 1972: “A obra foi redescoberta e reapresentada. Logo, esteve escondida e muda. Por quê? Por não possuir condições de sobrevivência, entre estas a validade, não relativa mas intrínseca e absoluta”(sic). Ficaria claro que, bem anteriormente àquela apresentação e até o presente, toda redescoberta pode estar cercada de resistências. Verificam-se, 42 anos após, inúmeras outras gravações das “Sonatas Bíblicas” realizadas por cravistas, organistas e pianistas, ratificando a importância do conjunto. José da Veiga Oliveira, após elogios à apresentação das “Sonatas Bíblicas”, considera  “… o ângulo exclusivamente artístico, o único que verdadeiramente interessa” (Diário Popular, 03/12/1972). Não obstante elogios ou desacordos, os críticos paulistanos não pouparam o audiovisual. Creio que a apresentação nessa configuração atendia às nossas expectativas daqueles tempos. Não mais a repetiria, mas há sempre impulsos durante a juventude da idade madura…

Nascido na Alemanha, Johann Kuhnau foi um sábio e erudito de estirpe. Músico, advogado, escritor, matemático, poliglota. Conhecia muitos idiomas: inglês, francês, italiano, espanhol, grego, latim. Seu romance satírico “Der musicalische Quacksalber” (O Músico Charlatão) obteria êxito. Organista da Igreja São Tomás em Leipzig desde 1684, torna-se Kantor da Igreja, cargo que manteria até a morte em 1722. Foi autor de Cantatas e Motetos, assim como de outras criações para teclado.

As seis “Sonatas Bíblicas” representam um conjunto monolítico baseado em histórias do Antigo Testamento e a aplicação de texto a acompanhar o discurso musical torna-as pioneiras no gênero. Frases surgem ao longo de cada Sonata, indicando ao ouvinte a intenção proposta. Como exemplo, ao sugerir na primeira Sonata o lançamento da pedra em direção à fronte de Golias, uma escala ascendente rápida indica a trajetória, seguida de longo e mais lento desenho musical descendente, a sugerir a queda do gigante. No texto publicado no blog em 2007 escrevia que as “Sonatas Bíblicas” constituem verdadeira enciclopédia dos sentimentos humanos. Estão todos lá. Do temor à alegria, do rancor à delicadeza e ao amor. Instrumentos musicais e batalhas campais citados nas frases enriquecem a obra. O piano moderno mostrar-se-ia o instrumento ideal para a realização desse universo timbrístico, pois cada um dos episódios dramáticos no cerne das Sonatas encontra no instrumento os recursos necessários sem a perda da autenticidade da partitura. Frise-se, as “Sonatas Bíblicas” foram escritas para teclado e no frontispício da edição original uma figura feminina está a tocar órgão doméstico. Em outro contexto, gravações existem a privilegiar órgão ou cravo e a interpretação ao piano apenas acompanha um desenvolvimento histórico inalienável. Creio ter sido o primeiro a gravar ao piano a integral e o registro fonográfico se deu na Capela de Sint-Hilarius, erguida na planura flamenga em Mullem, na Bélgica, sob os cuidados do excepcional engenheiro de som Johan Kennivé. O lançamento esteve sob a égide do selo De Rode Pomp, da medieval Gent.

Nesse mesmo ano realizaria uma tournée por terras portuguesas. O ilustre professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso preparou previamente um datashow com todas as frases bíblicas selecionadas por Kuhnau traduzidas para o português. A recepção foi calorosa, a proporcionar ao público a interação música-texto.

Recentemente dei uma palestra em Centro de Estudos em São Paulo apresentando comentários, gravação e o datashow mencionado. O resultado foi entusiasmante. Meu dileto amigo Elson Otake, corredor ranqueado de maratonas e meu guru nos aconselhamentos sobre corridas de rua, propôs a inclusão das “Sonatas Bíblicas” no YouTube com ilustrações pertinentes aos sucessivos episódios bíblicos. Aquiesci com alegria. Elson foi o responsável pela montagem para o YouTube de 70 músicas extraídas de meus CDs gravados no Exterior. Reunimo-nos e resolvemos utilizar as frases propostas por Johann Kuhnau em italiano, pois assim estão configuradas na edição de 1700. Frise-se que a língua peninsular exercia profunda influência na música e até o presente serve para designar andamentos, agógica, dinâmica… A inclusão da tradução em inglês, sendo essa a língua universal em vigor, ajudará ouvintes e leitores das mais diversas regiões do planeta.

Apresentamos ao leitor a primeira sonata, “O Combate entre David e Golias”, que pode ser acessada através do link abaixo. As outras cinco sonatas serão incluídas no YouTube progressivamente, sempre acompanhadas de ilustrações que fazem alusão ao episódio bíblico preciso. Elson e eu procuramos manter a maior fidelidade às muitas situações propostas pelo sábio compositor Johann Kuhnau. Divulgar as “Sonatas Bíblicas” torna-se ato imperativo, mormente nesse período histórico em que a tecnologia progride aceleradamente.

Clique para ouvir de Johann Kuhnau a Primeira Sonata Bíblica “O Combate entre David e Golias”. Piano: J.E.M.

At the suggestion of my friend and marathon runner Elson Otake I decided to post on YouTube Johann Kuhnau’s Biblical Sonatas, which I recorded in Müllem, Belgium, in 2007. Readers of my blog can already listen to the first sonata, with illustrations alluding to each biblical episode. The other five will be published progressively in the coming months.