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A Dignidade como Respiração

Toda ascensão é dolorosa. Toda mudança traz sofrimento.
Eu não atinjo o cerne dessa música se não tiver sofrido.
Ela é fruto de meu sofrimento e não creio naqueles
que se vangloriam das provisões colhidas por outrem.
Não acredito que seja suficiente mergulhar os filhos dos homens
no concerto, no poema e no discurso
para lhes proporcionar a beatitude e o delírio do amor.
O homem é resultado do amor, mas também do sofrimento.
Antoine de Saint-Exupéry
(Citadelle, cap. XXXV)

O homem é ou não é, dizia meu saudoso pai. Na essência, não há meio termo, pois impossível tergiversar quando se é. Ao longo da existência, quão poucas vezes temos o privilégio de cruzar o caminho de homem íntegro na acepção! Neste Brasil tão conturbado, onde o desvio da verdade e a chaga da corrupção se expandem sem esperanças de estancamento, ainda mais raramente encontramos essas figuras abençoadas, diria, que semeiam o bem, vivem a generosidade, esquecem-se de suas privações sabendo que o próximo pode ter sua chance na vida, assimilam como penitência o mal físico inflexível que pode estar agregado desde a infância, sabem distribuir, são generosas e têm o olhar que não esconde intenções. Tudo é claro, translúcido, sem a menor possibilidade da névoa que encobre simulações.

Sígrido Levental  é esse homem, entre pouquíssimos. Nascido em Santos em 1941, cedo inicia seus estudos pianísticos, realizando seu primeiro recital no Clube XV da cidade aos 15 de Novembro de 1954. Em sua apresentação aos 6 de Setembro de 1957, Sígrido apresenta recital corajoso na Rádio Clube de Santos. No programa encontram-se, entre muitas obras, a Sonata op. 57 de Beethoven (Appassionata) e a Balada nº 1 em sol menor de Chopin. Dados curriculares no convite faziam antever promissora carreira “O jovem recitalista iniciou seus estudos musicais com a professora Luísa Gelli Jacoponi. Em 1953 entrou para a Escola Musical ‘São José’, na classe de D. Oraída do Amaral Camargo. Em 1955 diplomou-se, sendo-lhe conferida a Medalha de ‘MÉRITO ARTÍSTICO’ por uma banca julgadora presidida pela insigne pianista Ana Stella Schic. Iniciou, então, um curso de aperfeiçoamento com o renomado mestre José de Souza Lima, com quem vem estudando atualmente”.  Torna-se necessário esse histórico da formação de Sígrido, pois suas atividades futuras ligadas à música tiveram raízes sólidas que determinariam, em seu caso singular, decisões ponderadas, corajosas e que estimularam gerações no caminho da música.

As sendas da Música são incontáveis. Sígrido abraçaria sua missão maior, a de dirigente de estabelecimento de ensino musical. Foi na década de 1980 que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Sígrido Levental, dirigente do Conservatório Musical Brooklin Paulista, inicialmente instalado na rua Álvaro Rodrigues, frente à Paróquia Sagrado Coração de Jesus. Posteriormente o Conservatório mudaria de endereço, transferindo-se para a Rua Roque Petrella, próximo ao anterior. Admirava sua ação pedagógico-diretiva e o ambiente congraçador que formara no estabelecimento de ensino, fatos do conhecimento público. Sob nova direção, o CMBP localiza-se presentemente na Av. Portugal, 1074.

Foram as edições que me levaram ao dirigente. Imediata a empatia. Tornamo-nos amigos sem subterfúgios. Em torno de meu livro “O Som Pianístico de Claude Debussy”, publicado pela Editora Novas Metas sob direção de Sígrido em 1982, e de quatro obras de Henrique Oswald editadas no mesmo ano, contatos diários eram mantidos e aprendi, dia a dia, a admirar a altivez, a solidariedade e o despojamento do amigo, qualidades agregadas à determinação, concentração e capacidade invulgar quando tarefa lhe era apresentada. Saliente-se que Sígrido foi pioneiro ao editar compositores das mais diversas tendências abrindo-lhes caminhos seguros.

Para as novíssimas gerações, impossível entender a edição de um livro com exemplos musicais nesse início dos anos 1980. Sígrido digitou-o inteiramente em uma máquina de escrever elétrica com esferas da IBM, dernier cri para o momento brasileiro. Revisões e revisões. Quanto aos exemplos, hoje tão fáceis de serem realizados, Sígrido tinha páginas com notas set que vinham ligeiramente fixadas em folha transparente. Com uma pinça, o amigo colava nota após nota e todas as indicações contidas na partitura. Verdadeiro artesão!!! Realizava esse trabalho, mas conjuntamente resolvia os problemas do Conservatório e da Editora, assim como atendia alunos e seus pais, professores e visitantes. A dificuldade enorme de locomoção fazia-o ficar sentado durante a jornada que se estendia, por vezes, até bem tarde, sem reclamar, bebendo sua água e, hélas, fumando muito, mas abnegado a saber seu desiderato maior. Conto nos dedos de uma só mão os batalhadores de tal estirpe.

Finalizado “O Som Pianístico…”, houve lançamento concorrido e precedido por recital Debussy no então recém inaugurado Centro Cultural de São Paulo, já àquela altura pleno de insolúveis problemas estruturais. Uma curiosa situação deu-se dias após. Ao me encontrar com Ruy Yamanishi, médico e dileto amigo que estivera no lançamento, este estava a ler o livro. Abriu na página em que há uma das ilustrações do inspirado artista Johan Howard e questionou-me com a sabedoria oriental que lhe é peculiar: “Neste desenho ‘Et la lune descend sur le temple qui fut’, onde está a lua?”. A resposta veio imediata: “Possivelmente escondeu-se atrás da torre do templo”. Procurei Sígrido e lhe disse que no desenho original havia a lua. Imediatamente liga ao seu amigo Guariglia, que imprimira o livro, questionando-o. Alguns momentos de espera e veio a resposta: “o gráfico pensou que fosse uma sujeira, daí suprimi-la”. Lembro-me do sorriso contagiante de Sígrido pelo equívoco tão inusitado. Momento a não ser esquecido.

Quando Sígrido, pleno de esperanças, criou a orquestra do Conservatório formada por jovens músicos, por duas vezes me apresentei apoiando a bela iniciativa, sendo que na segunda oportunidade, sob a direção do saudoso amigo e maestro português Manuel Ivo Cruz. Essa iniciativa e tantas outras eram a razão do respirar de Sígrido Levental, que assistia às apresentações por ele imaginadas, sempre à distância, em lugar escondido das salas. A modéstia e o recato eram-lhe familiares.

Os anos se passaram. Estivemos juntos algumas vezes no segundo endereço na Rua Roque Petrella. Bem mais tarde visitei-o em seu apartamento. Se nossos contatos ficaram escassos, jamais deixei de ter pelo grande amigo e incentivador das artes um carinho especial. Quando o homem é, o exemplo se propaga, as atitudes servem de norte para tantas ações individuais que surgiriam, a ter Sígrido Levental como inspiração.

A homenagem que lhe foi prestada neste último dia 12 de Dezembro é justíssima. Comovente todo o evento realizado no Auditório Ibirapuera. Apresentou-se a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, sob as regências competentes de Marcos Sadao Shirakawa e Mônica Giardini.  O respeitado saxofonista Roberto Sion foi solista de várias peças. A Banda Sinfônica, o Coral Infanto-juvenil da Escola de Música de São Paulo (Regina Kinjo, regente de coro) e cantores convidados apresentaram o musical “Os Saltimbancos” de Luiz Henriques, com adaptação de Chico Buarque de Holanda e arranjos de Júlio Cesar de Figueiredo. O espetáculo todo esteve sob a égide amorosa. A professora e pianista Aida Machado e o compositor e maestro Aylton Escobar fizeram depoimentos pungentes. O público que lotou o auditório viveu momento de intensa emoção quando anunciaram a presença de Sígrido que acabara de chegar em uma cadeira hospitalar. Deram-lhe a permissão no hospital para que presenciasse a homenagem que tantos alunos, amigos e admiradores lhe tributavam.

A portuguesa Leonor Alvim Brasão e as dedicadas filhas do homenageado, Cláudia e Rosana, tiveram a iniciativa do “Obrigado Sígrido”. Há tempos radicada nos Estados Unidos, Leonor ainda jovenzinha, viveu  a transição das décadas de 1970/80 com seus irmãos e sua mãe, a saudosa artista plástica e pianista Leonor Alvim, num convívio intenso com o CMBP.  Outros admiradores juntaram-se ao projeto.

“Obrigado Sígrido” só acontece graças à imensidão de uma figura exemplar que tem marcado sua existência pela singularidade de estar sempre com a mão estendida para o apoio, para a música, para o amor.

This week a concert in honor of Sígrido Levental was held in São Paulo. This post is my personal tribute of respect to this great man, former Principal of Brooklyn Music Conservatory and editor (he supervised the publication of my book on Debussy and Henrique Oswald’s scores), an example of willpower, fight and love of art whom I was lucky to have met.

 

 

 

Considerações que Vêm a propósito

Se o seu corpo estiver preparado,
a mente o levará a qualquer destino.
Nicola (amigo e maratonista)

No post do dia 15 sobre a introdução no YouTube das seis “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau inseri foto em que Elson Oktake e eu estávamos correndo em uma das tantas provas  que se realizam preferencialmente em São Paulo. Elson é um de meus gurus do pedestrianismo. Comentários houve sobre a extraordinária coletânea de Kuhnau, ora no YouTube. Um leitor, ao ver a foto esportiva, sugeriu que escrevesse um texto sobre essa atividade. Respondi-lhe que em anos anteriores já postei vários sobre corridas de rua, mas que num próximo aproveitaria para destacar a qualidade de vida que emana do exercício físico e de práticas saudáveis.

Apraz-me o fato de ter convencido alguns amigos a praticarem corrida de rua. Os que começaram não mais desistiram e engrossam o enorme contingente de atletas amadores que, regularmente, participam das provas. Carlos, ou Batoré para os adeptos da modalidade, é um deles. Trabalhando intensamente em uma sauna há mais de 25 anos, Carlos abandonou o joguinho de futebol semanal e as “bebidas” da confraternização pós-jogo. Hoje é um dos bons nas corridas de rua. Rápido, resistente, acompanha-me em quase todas as provas das quais participo e incentiva muito aquele que o motivou a essa prática salutar. Meu genro Massimo aderiu ultimamente às corridas de rua e está em pleno aprimoramento.

No domingo do dia 16 de Novembro tivemos a 11ª edição da Ayrton Senna Racing Day – Maratona de Revezamento na lendária pista de Interlagos, que ocorre uma semana após a realização das corridas de Fórmula I. Nossa equipe TA LENTOS (em anos anteriores escrevi vários posts a respeito) participaria com os oito titulares, que ficariam gravados no sugestivo desenho de nossas camisas, realizado pelo pranteado amigo Luca Vitali. Um dia antes recebi o telefonema de Shigeo, um dos integrantes da TA LENTOS, a dizer que a mãe de um dos nossos falecera e, portanto, o casal Franco e Cristina teria de ser substituído. Lamentamos o ocorrido, mas urgia pensar em dois outros corredores para completar o octeto. Vieram-me à mente Carlos, o Batoré, e meu genro Massimo. Aceitaram e completaram com galhardia a prova marcada por descidas e duas subidas, mormente a última, bem acentuada. Como dizia um dos corredores da TA LENTOS, Yuji, mais do que a corrida de revezamento, vale o congraçamento entre as pessoas. Observei as centenas de equipes e não vi uma só fisionomia que não revelasse outra reação a não ser a da alegria de lá estar a participar.

Hoje integramos duas equipes, a TA LENTOS e a Corre Brasil, a despontar nesta última nosso dileto amigo, Elson Otake, o maratonista. Os integrantes das duas equipes têm lá seus  desafios, eles em busca da redução dos tempos e eu, à maneira de um Matusalém, a buscar, ao menos, manter meu ritmo. Aos 76 anos, nas 90 provas de rua já percorridas jamais andei, mas o ritmo moderato ma non troppo leva-me sem cansaço a cumprir todas as provas. Lustros a mais, entusiasma-me o convívio com meus colegas corredores das duas equipes, todos pertencentes à juventude da idade madura, entre 40 e 50 e tantos anos.

Da França, o compositor e pensador François Servenière, sempre presente em meus posts, teve intensa atividade na juventude como alpinista, esquiador, ciclista, nadador, corredor, futebolista, velejador, guia de montanha e professor de esqui. Foi uma alegria saber que o retorno à atividade esportiva, após muitos anos, deu-se, em parte, do exemplo deste velho corredor que a cada prova envia a foto de participação para o Espace Professionnel que Servenière mantém em seu site, no qual, entre mensagens – a  grande maioria sobre música -, trocamos fotos e ilustrações. Sob outro contexto, Servenière, que pratica atualmente longas caminhadas pelas praias e montanhas, enviou-me um apanhado de seu atual estado físico, que corrobora a boa performance mental. Ratifica o amálgama mens sana in corpore sano. Ao longo da existência assisti ao majoritário distanciamento da denominada intelligentzia frente ao “banal” aprimoramento físico, como a apontar o sedentarismo como conditio sine qua non para que as musas inspirem o pensar!!! Na Universidade prepondera esse posicionamento. Fato. É pois com alegria que transmito algumas considerações de Servenière extraídas de nossa correspondência, pois evidencia o amigo sua disciplina invejável para a manutenção da forma e, consequentemente, com reflexos na sua qualidade de vida e na criação composicional sempre em ebulição.

“Fiz meus quatro quilômetros ontem como o faço a cada domingo nestes últimos três meses. Trata-se de treinamento a trotar entre as praias de Deauville e Blonville, em que sinto a prazerosa sensação já descrita por você referindo-se às ‘distâncias encurtarem’. Readquiro a forma! O mar está frio, mas eu nem me importo, pois a circulação sanguínea está em bom fluxo, assim como minha respiração. Estou em bem melhor forma do que no ano anterior e a musculatura das pernas está rígida, bem mais firme do que há tempos atrás. A cada semana, duas horas de ginástica em casa. O esporte é verdadeiramente uma atividade necessária, sobretudo em nossas atividades sedentárias ligadas aos nossos instrumentos de trabalho (piano, computador). É-nos imperativo ficar sentados horas e horas sobre cadeiras, preferencialmente apropriadas, assim espero.

Trata-se de um retorno ao esportista que fui desde a adolescência. Em 1980 fui campeão francês de futebol em competição escolar júnior. Tínhamos dois jogadores da terceira divisão nacional na equipe de Alençon. Nos jogos do torneio encontramos duas equipes com titulares de nossa idade que já integravam a primeira divisão em Lille e Rennes. Malgrado o fato, nosso coletivo durante todo o ano adquirira um grande espírito de solidariedade, daí o resultado final. Jamais duvidamos de nossa força coletiva”.

E as reflexões continuam: “O Tempo que passa não conta. Esse estado de espírito e minha retomada de forma física nestes últimos meses já estão ligados ao esporte e à descoberta de um segredo de vida para se ter uma saúde cardiovascular perfeita, que eu aprendi, aliás, pela Internet, através de um médico francês cuja teoria simples e gratuita eu aplico quotidianamente desde 1º de Julho: ‘a ducha fria’. Eis, pois, que recarrego baterias através dos raios solares, do mar, do esporte, do trotar pelas praias, da ducha fria pela manhã seja qual for a temperatura exterior. Atributos que me dão a plena forma para atacar as novas composições, desafios permanentes. Wait and see!!!”. Continua Servenière: “Antes de receber minha bike ‘turbinada’ no próximo Natal, sinto-me a cada dia mais em forma e, sobretudo, resistente. Diria, ‘esbanjo’ saúde! Incrível o que a atividade esportiva consegue! Sentia-me em declínio, pesado, cansado, deprimido, adoecendo por qualquer motivo! Neste momento, o frio invade nossa Normandia. É necessário fazer enorme esforço para enfrentar o desafio aquático ao acordar, após  cobertores aquecidos; essa obrigação moral cotidiana é bem maior do que um despertar matinal sonoro. Todavia, pouco a pouco a corrida – assim como a ginástica e a escova de dentes! -, não apenas tornou-se um  hábito, mas, graças às endorfinas reativadas, um prazer indescritível. Meu corpo rejuvenesceu 10 anos e a próxima etapa está relacionada à respiração controlada e à resistência ao esforço. Metas a serem atingidas em dois ou três anos, mas sinto que o foguete está prestes a decolar. O resto é o resto, e o moral está elevado, mercê de tantos projetos em curso e outros no campo das ideias. Sede insaciável pela vida”.

Creio que os depoimentos de François Servenière, pinçados de mensagens espaçadas pelo tempo, dão bem a medida do sentimento que todos os que praticam atividade esportiva experimentam. Daí o fato de ter mencionado que jamais vi um rosto contraído durante as corridas de rua, antes delas e depois das provas. Curiosamente, apenas nos pelotões da elite, formados pelos corredores ranqueados que buscam troféus e prêmios em dinheiro, percebo, por vezes, semblantes severos. A atividade esportiva amorosa, voluntária, descompromissada com o pódio só pode ser exercida em plena harmonia corpo e mente. Quanta verdade contém a frase sempre ironizada atribuída ao Barão de Coubertin (1863-1937), Presidente do Comité Olímpico Internacional entre 1896-1925: “O importante não é vencer, mas competir, e com dignidade”. Esse é o lema que nos satisfaz inteiramente.  As fotos de nossas equipes traduzem tantas realidades individuais e coletivas…

This post is about why I love running: the benefits for body and mind; the interaction with other runners – everybody has an advice to give, a race story to unfold -, the rush of hormones that relieve stress and make you happier. I include passages of e-mail messages received from the French composer François Servenière, who took up running recently and is already an enthusiast of the sport. To prove my point, I also publish pictures of Servenière running on the beaches of Normandy and of myself with teammates in São Paulo. Isn’t it a good way to improve our general well-being?

 

 

 

 

 

 

Progressiva Curva Descendente

Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros.
Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade.
Fujo da verdade como tudo,
porque acho que quem tem a verdade num bolso
tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém;
então livro-me de toda a espécie de poder – isso sobretudo.
Agostinho da Silva (Entrevista)

Aposentado pela compulsória desde 2008, conheci em anos anteriores a efervescência que levou a Universidade de São Paulo à crise sem precedentes, à queda acentuada constatada em avaliações internacionais, à ascendência de minoria com fortíssimo viés ideológico nos três níveis, constituída por alunos, funcionários e docentes, respectivamente, e à consequente degradação dos alicerces universitários.

Se, durante cerca de 27 anos na Universidade, senti paulatina mas inexorável diminuição da firmeza de atitudes dos dirigentes da USP que impedissem desvarios dessa minoria nas três categorias, a gota d’água, na minha avaliação, viria de exemplo emblemático quando da invasão de alunos numa reunião do Egrégio Conselho Universitário presidido pelo  Reitor, o ilustre Jacques Marcovitch (gestão 1997-2001). Pasmos, assistimos seguranças tentando sustentar as portas que permaneciam fechadas, sem o conseguir. Após destruir essas portas de madeira, a turba adentrou a sala munida de vasos sanitários, que foram arremessados em frente da mesa onde estavam o Magnífico Reitor, Vice-Reitor, Secretária Geral e outros dirigentes universitários. Vociferando palavras de ordem, celerados acenderam sinalizadores, que provocaram um fumaceiro colorido à maneira do que ocorre nos estádios de futebol. Logicamente, a reunião do Conselho Universitário daquela lamentável terça-feira foi suspensa. Naquele momento comentei com dois colegas que estávamos a assistir à continuação de um acirramento que deveria levar a Universidade ao impasse. O prejuízo do imóvel foi grande, pois vidros das janelas foram estilhaçados, cadeiras quebradas, portas… Em reunião anterior, um líder dos funcionários bradara palavras grosseiras e ofensivas contra o Reitor. Apesar de filmados, não houve sequer expulsões. Acinte, desrespeito, impunidade. A ausência de decisões firmes tem tributo a pagar, e o que ocorre presentemente é apenas consequência.

Já àquele momento essa minoria organizada, que pouco se importa com a destruição do bem público, pleiteava, entre outras reivindicações, a paridade de toda a comunidade uspiana no que concerne à eleição do Reitor. O voto paritário estabelece o mesmo peso para aquele depositado por jovem recém-ingressado na universidade e o da totalidade de docentes, alunos e funcionários, eliminando, pois, a representatividade de cada categoria junto aos vários conselhos universitários. Obviamente o ingressante pode ser facilmente manipulado pelo simples fato de desconhecer quaisquer currículos dos candidatos a Reitor ou de Diretores de Unidades da USP. Quantas não foram as vezes em que perguntei aos mais exaltados alunos da universidade o que eles sabiam dos candidatos a Reitor ou a Diretor. As respostas não deixavam margem à interpretação. Desconheciam carreiras, trajetórias acadêmicas, mas empunhavam bandeiras escarlates bem conhecidas no campus. E toda a distorção estava estampada.

Lembro-me de que, em eleições para Diretor da Escola de Comunicações e Artes (ECA), uma das unidades da USP, por vezes alunos formaram verdadeiro corredor polonês no longo acesso à sala da Congregação, buscando intimidar votantes. Alguns docentes, movidos por estranhos propósitos, estimulavam veladamente a manifestação ruidosa. Para aqueles professores que não comungavam das ideias desse “batalhão”, palavras fortes e até xingamentos ecoavam pelo corredor. Gritavam, cantavam e rufavam tambores em nome da… democracia.

Hoje, distante do campus e muitos anos após esses incidentes, verifico com tristeza que a Universidade de São Paulo agoniza. A autonomia uspiana, que deveria ser solução, tem sido um entrave. Minorias, movidas pela mesma ideologia desse passado recente, chegam tantas vezes à anarquia e ao vandalismo, e comandam intimidações, invasões e depredações, sob o amorfismo, letargia e indiferença da grande maioria de alunos, funcionários e docentes. Greves têm apresentado recrudescimento sempre mais intenso. Se a Constituição respeita a greve e o direito ao trabalho, este é simplesmente ignorado por pelegos que sabem que não serão punidos pela afronta à Carta Magna. Falta pulso forte para decisões que podem soar impopulares, mas necessárias. A impressão é sempre de temor pelo que estará por vir, nunca para melhor. Não há mais o menor respeito à hierarquia, aos preceitos básicos da convivência, à lhaneza ou mesmo à civilidade. Truculência, palavreado que faz corar cultores da língua portuguesa, atitudes as mais absurdas, como as invasões da Reitoria, seguidas de destruição, saque e permanência de “bandoleiros” nos recintos que não deveriam jamais ser maculados, provocam  o pavor dos dirigentes, sem coragem necessária para expulsá-los, o que seria possível se leis fossem aplicadas. Contudo, temem-nos, com receio de “maior” conturbação. A invasão da Reitoria por membros do corpo discente durante semanas no ano anterior, quando destruíram e picharam seu interior, roubando computadores e até peças dos banheiros, independentemente da imensa sujeira que deixaram, na qual não faltava grande quantidade de preservativos, é prova da delicada situação atual na USP. A greve deste ano, que dura tempo desmesurado (mais de três meses), provocada por grupelhos de funcionários, alunos e docentes, é prova inconteste do desvario.

Querem à força ver atendidas reivindicações.  Apesar de contarem com a lei, dirigentes submergem frente às violências. E todo o mal está feito. Tudo indica que novas quedas nas avaliações internacionais deverão ocorrer, não sem razão.

No programa “Bom Dia Brasil” da TV Globo, do dia 15 de Agosto, a repórter Renata Cafardo comentava a crise da USP, estendendo-a aos grandes prédios inacabados, como o Centro de Convenções, o Museu da USP e o Centro de Difusão Internacional. Do primeiro, salientou que foram gastos 80 milhões de reais, faltando outros 40 para a finalização. Disse ainda que nesse centro haveria “um grande palco com elevação mecânica e instalação do maior órgão da América Latina, já comprado e armazenado na USP”. Nessa reportagem Renata Cafardo informou que, devido à crise, cogita-se a transferência desses prédios para a Secretaria do Estado da Cultura.

Voltemos ao órgão. Os gastos exagerados promovidos pelo Reitor que antecedeu o atual, Professor João Grandino Rodas, tem um exemplo flagrante na compra do órgão mencionado na reportagem acima. Não empreendeu a direção da Universidade diligências aprofundadas no sentido de se debruçar sobre um magnífico órgão Tamburini de fabricação italiana, mantido em containers no campus. Tratativas vãs foram realizadas e o órgão jaz enclausurado. No site da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que adquiriu na década de 1950 um instrumento de tubos, lê-se: “O instrumento foi construído pela Fabbrica D’Organi Comm. Giovani Tamburini, da cidade de Crema (Itália), fundada pelo organeiro Giovanni Tamburini (1857-1942) em 1893. Foi encomendado pela diretora da Escola Nacional de Música, Joanídia Sodré, para substituir o antigo órgão Sauer de fabricação alemã, comprado por Leopoldo Miguez para o Instituto Nacional de Música”. A inauguração do instrumento se deu no dia 13 de Agosto de 1954.

Um histórico que levou à doação do órgão Tamburini mantido no campus merece umas poucas linhas. O instrumento data de 1951 e foi instalado no ano seguinte no salão principal da residência da organista e incentivadora das Artes Alda Hollnagel, em Itapecerica, perto de São Paulo. Foi inaugurado pelo mesmo organista italiano que fez a première do instrumento da Escola Nacional de Música, Fernando Germani, organista da Basílica de São Pedro do Vaticano e Professor da Academia Santa Cecília de Roma. Na minha juventude, várias vezes assisti aos recitais promovidos pela anfitriã Alda Hollnagel. Quando a sucessora do instrumento, irmã de Alda Hollnagel, Teresa, resolveu dar uma destinação ao magnífico órgão, José Luís de Aquino, Professor da Universidade de São Paulo e organista respeitado internacionalmente,  entrou em contato comigo e, após várias reuniões que mantivemos com a Sra. Teresa Hollnagel, esta generosa mecenas resolveu doar o instrumento à USP, com a condição de vê-lo instalado e ouvir um recital de José Luís de Aquino durante a inauguração. Quimera, infelizmente. Depois de longos entendimentos de ordem administrativa, o órgão foi doado à Universidade de São Paulo (abertura do processo, dia 7 de Junho de 2005).

O instrumento é realmente extraordinário, com cerca de 3.000 tubos, 4 teclados e pedaleira de 32 notas; portanto, completa. Tantas outras informações José Luís e eu colhemos e anotamos durante as reuniões com a Sra. Teresa Hollnagel e que, pela especificação técnica, fugiriam ao propósito do presente post. O certo é que documentações internas de ordem burocrática cruzaram as várias instâncias da USP e nada de prático resultou após 9 anos!!!

Não saberia as razões da compra daquele “maior órgão da América Latina”, segundo a repórter Renata Cafardo. Tenho lá minhas dúvidas quanto a essa dimensão. Não seria este um exemplo flagrante de desperdício de dinheiro, pois o órgão Tamburini atenderia maravilhosamente às necessidades no campus da USP? Ao Reitor não teria faltado pulso e vontade para fazer “ressurgir” a preciosidade oculta? Com o Centro de Convenções inacabado e órgão novo armazenado, são agora dois instrumentos que permanecem silenciosos.

Não deve ser poupado de críticas o atual Reitor, Professor Marco Antônio Zago, que foi Pró-Reitor de Pesquisa na gestão anterior, pela ação tímida com que está a conduzir a crise inusitada. É nesses momentos que se conhece o verdadeiro líder. Há muitíssimo a fazer, mormente sabendo-se que a USP gasta atualmente 105% do seu orçamento com a folha de pagamento de seus servidores. Terá o atual Reitor pulso forte para demitir, cortar gastos promovidos por seu antecessor e provocar o verdadeiro saneamento? Se a restrita comunidade uspiana está cada vez mais isolada em seus muros, a imensa quantidade de contribuintes do Estado, que sustenta as três universidades públicas que compõem o Conselho de Reitores das Universidades do Estado de São Paulo (CRUESP), aguarda soluções em breve, tardiamente diga-se, hélas.

Às vésperas das eleições estaduais, não se descartem fins escusos motivadores da greve.

This post addresses the strikes that every year hit the State University of São Paulo – USP, the ideological roots that feed them, the repeated acts of vandalism and violence on the part of students, with occupation of buildings and destruction of public property, inaction on the part of authorities – nobody is ever arrested or charged – and the continuous fall of USP in the world university rankings. With such recurrent disruptions of learning, the once highest-ranked university of South America seems to be in its death throes.