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O Descaso de uma Prefeitura que não Faz o que Tem de ser Feito

Se, destas ervas que se devoram umas às outras,
eu fizer uma árvore que uma alma única anime,
então este ramo aproveitará da prosperidade do outro ramo
e toda a árvore será apenas colaboração encantadora e expansão ao sol.
Antoine de Saint-Exupéry  (“Citadelle”, cap. XIII)

Confesso meu amor incondicional pelas árvores, que nos proporcionam a visão da vida renovada a cada ano quando das ramificações, florações, farta distribuição de frutas, despojamento ao perderem suas folhas, fato este que atinge nem todas as espécies, mormente nos trópicos. Em flor, anunciam a esperança; douradas, prenunciam a hibernação inexorável, mas não desprovida de encantamento. Elas estimulam a constatação do belo. Sabemos que abrigam os ninhos das aves, que nos fazem antever o maravilhamento. O canto dos pássaros é música no seu estado mais puro, intransferível.

Não foi o acaso, tampouco os curtos aguaceiros torrenciais que se abateram sobre São Paulo nestas últimas semanas, os únicos causadores naturais da queda de mais de 1000 árvores, tantas delas frondosas!!! A administração da prefeitura deve ser apontada como responsável primordial pela hecatombe vegetal que destruiu veículos, muros, grades, moradias e rede elétrica, sem contar o profundo caos que proporcionou ao trânsito da já tão convulsionada cidade, mercê também dos alagamentos.

Estou a me lembrar de que, desde a década de 1990, um belíssimo flamboyant, cuja inclinação se acentuava, foi denunciado à prefeitura por moradores da rua onde moro. Foram anos de pedidos, protocolos e o governo municipal silenciava. Só após a aparição de funcionários da prefeitura, para podarem outra gigantesca árvore próxima, conseguimos convencê-los da queda iminente ao descascarmos alguns centímetros do flamboyant, que exibia em seu interior um desfilar de cupins.  Poucas semanas após – não sem antes enviarmos carta protocolada com o nome desses funcionários que atestaram a veracidade da causa -, equipe especializada, trazendo serras e demais ferramentas, cortou a árvore para nossa tristeza, mas também sensação de alívio. Extirpar o belo leva-nos à ambígua reflexão.

O que mais causa indignação na população de São Paulo é o descaso absoluto num tema tão importante como a arborização da cidade. Dir-se-ia que o atual alcaide basicamente se preocupou com as ciclovias e com ocupações de determinados terrenos e prédios. Aquelas, praticamente vazias durante os dias de semana, estas últimas trazendo conturbações acentuadas. Quanto às bikes, a argumentação autoritária esbarra na topografia, pois  São Paulo não tem a configuração de países planos como Bélgica e Holanda, e nossa superfície é completamente irregular. Consultei um sem número de trabalhadores de serviços os mais variados e jamais um deles, friso, moradores que são da periferia abandonada pelo poder público, adotaria a bicicleta como meio de transporte nas deslocações pela urbe, mesmo que tivessem de deixá-la em um terminal. Unanimidade quanto ao precaríssimo, tortuoso e perigoso trajeto de suas moradias até o ponto final de ônibus. Isso é fato, mas não influenciaria a obstinação do burgomestre em ver implantadas em sua administração 400km de ciclovias. A imprensa insistiu em divulgar matérias sobre o equívoco voltado às bicicletas, que não sensibilizaram o atual plantonista do Edifício Matarazzo. Atualmente a sede da prefeitura tem como tema as ciclovias e ciclofaixas que estão sendo instaladas na Av. Paulista, o que se traduz em erro fundamental devido ao afluxo diário dessa via, à redução da pista de carros, à dificuldade que tal medida trará às ambulâncias que por lá circulam e que atendem alguns dos principais hospitais da cidade. Um burgomestre a ser esquecido.

Desviar-se do tema árvore fez-se necessário, devido à importância desmesurada que foi dada para os caminhos da bike. Não vejo como dissociar a desatenção para com as árvores e a supervaloração da bicicleta. Devido à falta de chuvas durante prolongado período em 2014, não pareceu relevante à prefeitura abordar a temática que compreende  avenidas, ruas, praças e parques paulistanos, pois a ameaça mostrava-se distante. Não obstante, à maneira de um vulcão não extinto, as árvores crescem, pouco espaço encontram para o enraizamento e detonam calçadas e muros. Quantas delas estão nesse estado na cidade? As fotos que apresento evidenciam que o pior continuará a acontecer fatalmente. Vidas humanas serão ceifadas, veículos e propriedades danificados e o obsoleto sistema de eletrificação destruído. Para agravar a situação, a Eletropaulo também tem estado omissa em dezenas de casos, como destaca a mídia como um todo. Dezenas de milhares de árvores entrelaçam-se com os fios elétricos e quando uma delas cai, geralmente leva consigo fiação, quiçá postes. O caos se instala e assistimos, nesse período de chuvas, a determinados apagões prolongados (dias, em tantos casos) que trouxeram o desencanto aos habitantes de São Paulo. Alagamentos em pontos conhecidos da cidade provocaram o desespero de inúmeros motoristas. Muitos deles perderam seus carros, levados pela enxurrada.

Um dado pareceria preciso e sempre passou ao largo das mentes de nossos governantes. A maioria das muitas espécies de árvores da cidade não é adequada aos pavimentos das calçadas. Quantidade delas foi plantada décadas atrás, quando não havia a expansão imobiliária que causou desordenamento ou diminuição das calçadas, estreitamento da área subterrânea para expansão das raízes, levando-as à superfície. Essas últimas reagem à ofensa e conseguem estourar a pavimentação, as sarjetas e os muros. Culpa dessas belas espécies? Não, apenas falta de planejamento e de substituição das mais velhas por outras que melhor se adaptem às condições atuais. A queda das árvores no passado deveu-se em parte ao descaso, mas atinge o limite máximo nessa atual administração, preocupada que está majoritariamente com as ciclovias, ciclofaixas, ocupação de prédios e a cracolândia – para lá não levou o príncipe Henry, da Inglaterra, no intento de mostrar aquilo que consideraria um “cartão postal” da cidade (26/06/2014)?

Conhecendo mais a minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, e correndo por tantas ruas quando de meus treinamentos, posso verificar com tristeza o descaso administrativo. Nos dias após chuvas mais contundentes este corredor amador tem de driblar por vezes ramos, galhos ou troncos, pois impossível correr em linha reta em tantas ruas. Um absurdo!!! Responsáveis públicos autorizam seus funcionários a podas mínimas em belíssimas árvores,  condenadas e impróprias para nossos passeios, e não a retirada delas, desde que já tendo em mente a pronta substituição por outras apropriadas e que melhor se adaptem à grande maioria das calçadas, hoje tão reduzidas. Centenas ou milhares estão doentes e incontáveis, atacadas por cupins.

Disse-me certa vez um funcionário público aposentado que, entre as preocupações em que um governante não quer nem pensar, duas são fundamentais: a rede de esgoto e as árvores. Dezenas de milhares delas necessitariam ser extirpadas. Essa extração não rende votos, é também certo. Não obstante, a quantidade absurda de árvores caídas não sensibiliza minimamente o alcaide? Estaria a aguardar a passagem da temporada das chuvas para procrastinar mais uma vez? As fotos que ilustram o post são o testemunho da ausência. Tivéssemos um prefeito responsável, nessas semanas assoladas pela hecatombe das árvores e pelos alagamentos provocados em grande parte pela falta de manutenção das bocas-de-lobo, far-se-ia presente diariamente nos pontos críticos, estimulando equipes de funcionários, dando alento à população indefesa, confortando os lesados e mostrando intrepidez. Semanas sem sequer um pronunciamento à altura. Temas tão menos urgentes povoam o pensamento do alcaide de plantão. Isso é fato.

Árvores serão retiradas a atender protocolos tantos? Houvesse planificação, diariamente equipes da prefeitura estariam extirpando as incontáveis condenadas, substituindo-as imediatamente por outras, que se adaptariam à difícil estrutura de calçadas que tendem a sufocar as mais frondosas. Não há segredo, é só planejar. São tantas as espécies que não causariam problemas futuros! O período de estiagem está próximo e urge planificar.

Um exemplo dessa procrastinação está na falsa seringueira (ficus elástica) semi centenária situada no reduzido canteiro central da Av. Santo Amaro, próxima às ruas Jesuíno Maciel e sua continuação, a rua Guararapes. Gigantesca, ultrapassou os limites do canteiro hoje intransitável. Suas raízes aéreas em contato com o solo, transformam-se em troncos auxiliares, ajudando a suportar o peso da falsa seringueira. Sua cúpula se estende por toda a largura da avenida. Nestas últimas chuvas torrenciais um galho bem avantajado caiu sobre um ônibus, danificando-o. Se fosse sobre um  motoqueiro, poderia tê-lo ceifado. Vê-se que, apesar de esplendorosa – pode ser vista por satélite no Google Maps! -, ultrapassou e muito o conceito do razoável.  Se cair, o estrago será devastador. A prefeitura nada faz a não ser podas homeopáticas, esporádicas e que motivam piadas dos moradores.

A partir de Abril as chuvas deverão certamente rarear. O alcaide, nos meses de estiagem, estaria empenhado em promover uma blitz para a remoção das árvores velhas, contaminadas, inclinadas perigosamente ou inadequadas para o espaço em que se situam? Pouco provável. Infelizmente, nem o cidadão comum estará preocupado com o que se passa dentro de um vulcão, só atentando ao problema tão logo o magma seja expelido.

This post addresses the tragedy of street trees in São Paulo. While the city mayor sticks to his commitment to implement 400 km of bike path in a not naturally bike-friendly city (São Paulo is hilly, overcrowded with cars and motorcycles and drivers have little or no patience with cyclists) – trees are abandoned to their fate: no pruning, no removal of dead branches or of diseased plants. As a result of such disregard, intense summer storms with wind guts that have hit São Paulo knocked down about a thousand trees in less than a month, dragging down power lines, destroying private and public property, leaving residents in the dark and drivers without traffic lights. The usual summer storms accompanied by the usual negligence: no one cares what goes on inside a volcano until lava explodes out of its vent.

É o que Deveríamos Desejar para 2015

Quando as verdades são evidentes e absolutamente contraditórias,
o que tens a fazer é mudar de linguagem.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle cap. CXXII)

O mestre é o homem que não manda;
aconselha e canaliza, apazigua e abranda;
não é a palavra que incendeia,
é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade;
não o interessa vencer, nem ficar em boa posição;
tornar alguém melhor – eis todo o seu programa.
Agostinho da Silva

A passagem de ano se deu e todas as previsões apontam para um ano de dificuldades. Impossível acreditar que essa certeza ocorra graças ao acaso, nem tampouco aos últimos 12 anos de governo. Se a descrença acentuou-se para aqueles que formam a legião de 50 milhões de eleitores “oposicionistas”, práticas antigas recrudescidas ultimamente levam-nos ao ceticismo. A crise brasileira é endêmica. Desde a minha infância com ela convivi, ora em áreas específicas, ora no todo. Mudaram os governos, tivemos os anos de exceção com os militares, mas determinadas constantes jamais abandonaram uma índole característica de nossos dirigentes, a atração pelo ato que corrompe. Contudo, como realidade clara, ficou a certeza de que nenhum presidente no período de exceção enriqueceu. Não defenderia o regime que vigorou durante aqueles tempos, em que a liberdade teve sério tributo a pagar.

O tsunami que nos assola teve epicentro surdo e demorou muito tempo até que as empresas públicas mostrassem feridas laceradas. O ato corruptivo generalizado ganhou força à medida que, sorrateiramente, espalhava suas raízes devastadoras sem ser denunciado. Os escândalos dos últimos anos prenunciavam que algo aterrador poderia acontecer. É o fenômeno do recuo do mar, o silêncio momentâneo e o tsunami que nada poupa. O denominado petrolão nada mais é do que o avanço total das águas, a tudo destruir. Mas haverá ainda furacões e tornados que virão quando outras estatais, que não a Petrobrás, forem investigadas.

O ato corruptivo em termos brasileiros não tem limites. No artigo “Os quatro Cavaleiros do Apocalipse” (Folha de São Paulo, 16/12/2014), meu irmão, o respeitado jurista Ives Gandra Martins, aponta – sem precisar a geografia – quatro cavaleiros, o político, o burocrata, o corrupto e o incompetente. “O político, na maior parte das vezes, para alcançar ascensão na carreira, dedica-se exclusivamente à ‘desconstrução’ da imagem dos adversários”. E esclarece “Quem busca o poder, na esmagadora maioria dos casos, pouco está pensando em prestar serviços públicos, mas em mandar, usufruir ou beneficiar-se do governo”. A imagem do “cavaleiro” político se confunde em incontáveis oportunidades com a do corrupto, este só existente mercê da figura sinistra do corruptor. Este, um “quinto cavaleiro”, das trevas, geralmente silencioso e ativo, a ter legião de coadjuvantes formada por outro estranho personagem, o lobista, que infesta livremente os corredores do poder e que conhece as sendas que seduzem políticos e burocratas. E todo o mal está feito.

Essa é parte da triste realidade. Outra, a recente divisão ministerial, a atender unicamente às acomodações dos partidos “amigos”, faz antever impasses futuros. Impossível não se indignar com a indicação de tantos deles, ou de remanejamentos de outros, para ministérios que  mostrarão as chagas individuais da ignorância. Exemplifiquemos: quando o grupo “Atletas pelo Brasil”, formado por muitos dos maiores ídolos do esporte brasileiro, fez duras críticas à nomeação do pastor evangélico e deputado George Hilton, de partido aliado ao governo, mas sem nenhuma experiência na área esportiva, justamente na segunda gestão da presidente que será a anfitriã das Olimpíadas de 2016, frise-se, as ponderações eram irrefutáveis. Escreve o grupo dos “Atletas pelo Brasil” em comunicado: “Como diz nossa missão, queremos ‘melhorar o esporte para melhorar o País’. Acreditamos piamente nisto. Somos uma associação de mais de 60 atletas de relevância para o esporte”. Inconformados, assinalam esses esportistas: “Exigimos muito mais respeito e cuidado com tudo que envolve o tema Esporte no Brasil”. Pertencem ao grupo atletas consagrados como Ana Moser, Raí, Ida e William. A presidente consultou figuras relevante da área? Que ela apresente uma, apenas uma credencial, que habilite o cidadão ungido para o fundamental Ministério dos Esportes. Contudo, haverá apoio do partido do ungido nas votações da Câmara. Para a presidente isso importa, infelizmente. O respeitado locutor esportivo do passado, hoje comentarista e jornalista irrepreensível, Flávio Araújo, escreveu em sua coluna www.ribeiraopretoonline.com.br (01/01/2015) a respeito da lamentável nomeação de George Hilton para o Ministério do Esporte: “Nomear para dirigir o do Esporte alguém sem nenhuma ligação com o mesmo é como escarnecer das tramoias na Petrobrás. É premiado para gerir a pasta alguém que não sabe o que é uma bola de futebol, uma rede de vôlei ou um bastão no atletismo. Não dá para digerir. Nomear alguém sem nenhuma vivência na vida esportiva do país, ainda mais sob suspeita e que só não teve seus passos devidamente investigados por essa excrescência que permite aos políticos zombarem vergonhosamente do povo brasileiro com sua impunidade é, quando mais não seja, um passo atrás para o esporte nacional”. No dia 2 de Janeiro, ao receber o cargo de seu antecessor, Aldo Rebelo, o ministro empossado George Hilton disse: “Posso não entender profundamente de esporte, mas entendo de gente” (sic).

A frase de Ives Gandra torna-se cristalina e repito essa triste verdade: “Quem busca o poder, na esmagadora maioria dos casos, pouco está pensando em prestar serviços públicos, mas em mandar, usufruir ou beneficiar-se do governo”. Se assim não fosse, pensar e sentir o Brasil implicaria a nomeação de especialistas nos vários ministérios para o desempenho pleno em um país que perde oportunidades nítidas de progredir. O que se vê é um loteamento sem precedentes na história da República. Pudesse cada ministro, no instante do convite da presidente, friso, pronunciar-se a respeito do que fará no desempenho de suas atribuições e teríamos a certeza do equívoco irreparável quanto às indicações de tantos deles, a prenunciar anos plúmbeos, como exemplificado acima.

A divagação tem sentido. Acredito que a palavra mais adequada, ao inverso da situação atual, seria responsabilidade. Houvesse assimilação integral do termo não estaríamos a passar por grande instabilidade constrangedora. Tivesse responsabilidade para com o país, para com o seu povo na essência essencial do termo, a governante saberia fazer suas escolhas a privilegiar, sine qua nom, o mérito como única via para a governabilidade. Não obstante, a necessidade imperiosa de obter maioria em votações nas duas casas do Congresso Nacional levou a presidente reeleita para os próximos quatro anos a decisões errôneas, o que poderá encaminhar o país ao impasse.

 

A tragédia que se abateu sobre a França e o mundo democrático – acepção do termo – não tem precedente moderno no país europeu. Todos os esclarecidos se comoveram após o ato insano cometido por fanáticos. Esse tipo de atentado tem recrudescido de maneira alarmante em todo o planeta. Algo tem de ser feito a reunir, consciente e responsavelmente, as maiores autoridades mundiais. Resoluções concretas têm de surgir. A humanidade já não mais suporta evasivas ou reuniões que só estabelecem intenções.

A referência advém do fato de que, ao saber dessa loucura que vitimou cartunistas e jornalistas do Charlie Hebdo, ter pensado imediatamente em meu amigo e ex-colega da USP, Dorinho Bastos, cartunista exemplar. Enviara ele um cartão de Natal em que o Papai Noel apresentava um repertório de amuletos e sinais contra malefícios que poderão ocorrer em 2015. Referia-se, creio eu, à condução de nosso país. Todavia, o infausto acontecimento parisiense evidencia que nem ramos de arruda, tampouco figas, ferraduras com sete furos, pés de coelho ou trevos de quatro folhas estão adiantando numa visão mais global. A charge do excelente Dorinho, que ilustra também este post, ficaria como nossa homenagem àqueles que tombaram na sede do Charlie Hebdo.

This week’s post reflects upon the word “responsibility” related to the present political situation in Brazil, where ministers are appointed according to political party interests and not the public good. Also mentioned is the unfortunate gunmen attack on the French magazine Charlie Hebdo. The illustration – by the Brazilian cartoonist Dorinho Bastos – is a tribute to the ones that lost their lives in the shooting.

 

 

 

Pergunta Intrigante de Leitor

Conhecimento verdadeiro de si próprio
só é dado ao ser humano
quando ele desenvolve interesse afetuoso para com os outros;
conhecimento verdadeiro do mundo,
o ser humano só alcança
quando ele procura compreender seu próprio ser.
Rudolf Steiner

Não poucas vezes questionaram-me sobre o discurso musical e a atividade esportiva que desenvolvo nestes últimos oito anos. Contudo, a pergunta de Reinaldo mostrou-se bem incisiva, pois o leitor tem interesse em saber o porquê de um músico, sedimentado através das décadas, tornar-se arauto caloroso da prática esportiva.

Historiar é preciso. Primeiramente, responderia que aos 20 anos de idade recebi bolsa do governo francês para estudar piano em Paris, cidade na qual permaneci  durante alguns anos. Antes de viajar, meu saudoso pai, àquela altura nos seus 60 anos, ensinou-me exercícios que ele denominava ginástica sueca e que eu deveria realizar pela manhã. A partir do dia a seguir minha chegada até presentemente – portanto, lá se vão 56 anos -, realizo esses exercícios durante 15 minutos após levantar. Ao atento Reinaldo diria que meu pai teria praticado essa ginástica desde a juventude em Portugal e, poucos meses antes de sua morte em 2.000, aos 102 anos de idade, realizava um dos exercícios à perfeição: colocar as mãos espalmadas sobre o piso sem flexionar os joelhos. Seu filho aos 76 anos também não os dobra. Ao todo são 11 exercícios que envolvem braços, pernas, movimentos giratórios, alongamentos, respiração e o todo a abranger parte essencial de nosso corpo. Recentemente mostrei a um experiente fisioterapeuta esses movimentos. Disse-me que jamais aconselharia um seu paciente a realização dessa prática. Perguntei-lhe se poderia mudar para outros exercícios. Respondeu-me no ato: “De jeito nenhum, continue. Se durante todo esse tempo tem funcionado, assim como foi proveitoso para seu pai, mudar a essa altura será um enorme equívoco”. Continuarei, pois, mas atento.

Foi apenas após um sério tratamento quimioterápico em 2004 que iniciei parcimoniosamente um caminhar que se transformaria, com os meses, em imperiosa necessidade de intermediá-lo com breves trotes. Com o tempo alongou-se a distância e do trote passaria para as corridas de 5 a 15km, 10 preferencialmente.

A consciência do ritmo da corrida associada à música veio-me depois de alguns anos dessa prática esportiva. Interessavam-me o aprimoramento físico, o cadenciar passadas e respiração e, curiosamente, pensar nos temas dos posts semanais, que seguem ininterruptos desde Março de 2007. É nos treinos que eles se sedimentam. Retenho-os até a primeira madrugada, quando fluem de um só impulso.

Foi a partir do assimilar batidas cardíacas durante um treinamento que mais pensei na agógica (agogia = da raiz grega agog: conduzir, levar dirigir). Trata a agógica de mudanças do movimento rítmico, aceleração, retenção ou mesmo interrupção – regular ou não – desse   processo. Mais acentuadamente, fui buscar identidades, não as expressivas, que nos levam à música, mas as flexibilizações físicas, motoras. O ato de correr não poderia ser considerado expressivo, estando mais ligado a uma ação automatizada proposta pela mente, para mais não dizer. Como afirma meu amigo e maratonista Nicola, “se o seu corpo estiver preparado a mente o levará ao destino desejado”. Decidimos e corremos. Quando das corridas de rua podemos sofrer alterações do batimento cardíaco que interferem no ato, diria, mecânico. Corredores que nos ultrapassam ou são ultrapassados, desvios da linha reta ao nos depararmos com grupo de atletas amadores, geralmente formado por companheiros de academia ou empresa que, mais lentos, correm lado a lado.  As batidas cardíacas inflexíveis sofrem, nesses casos, alterações que podem ser sensíveis. No entusiasmo da corrida coletiva, quantas vezes não somos propensos a dar um “tiro”, ou seja, correr bem mais rápido durante curto período. A prática estimula a circulação sanguínea, a provocar aceleração dos batimentos.

Na música há intrínseca ligação da agógica com a dinâmica (gradações das intensidades sonoras), nas corridas a “agógica” do batimento cardíaco conduz a sensíveis alterações, flexibilizando o número de batidas por determinado período. Poder-se-ia acrescentar que mesmo a diminuição progressiva de andamento e sua aceleração posterior (ou vice versa), representados na música através dos ritardandos, acelerandos ou mesmo o rubato (roubado, em italiano) encontram “paralelo” na corrida. O rubato é a palavra que determina na música uma liberdade rítmica não arbitrária, frise-se, pois ao sair de tempo padrão “rouba-se” da “inflexibilidade” através dessas acelerações e necessárias contenções que conduzirão o discurso musical, após essa flutuação, ao seu fluxo “normal”. Para o corredor, quantas não são as vezes, mormente nos treinos, que se tem uma espécie de rubato “mecânico”, pois a constância das passadas no treinamento pode variar por pequenas alterações de velocidade que levam, logo após, à normalidade. Diria, um rubato sem expressão, pois rigorosamente automatizado. Foi preferencialmente no período romântico que a palavra teria a ampla aplicação indicada na partitura musical. Determinados compositores, ao assinalarem tempo rubato permanente em algumas obras, expandem extraordinariamente o conceito ao mostrar que a música não é mecânica e contém carga emotiva. Contudo, rubato na música só deve ser harmonioso, pois, se não o for, penetra-se no equívoco. Em outro contexto da criação, quantas não são as composições inflexíveis quanto ao tempo, metronômicas, no batimento exato. Nesses casos, o compositor indica com precisão a sua vontade explícita. Não se passa o mesmo em muitos atletas excepcionais que têm o ritmo imperturbável das passadas na mente?

Num contexto bem próximo à associação acima, estudos aprofundados têm mostrado significativos resultados numa preciosa área, a Euritmia. Se a agógica teve em Hugo Riemann (1849-1919) um de seus “enunciadores”, deve-se a Rudolf Steiner (1861-1925) aprofundamentos relacionados à Euritmia. Segundo o notável educador, esoterista e pensador, movimento, palavra e canto faziam parte de uma atividade definida na antiguidade. Basicamente, um dos fundamentos de sua teoria reside na realização de tipos de movimentos que serviriam como impulso ao ser humano num sentido bem harmonioso, poder-se-ia dizer, totalizante. Quantidade de estudos posteriores realizados por especialistas na área têm colaborado nessa interação do movimento com o gesto, o som, a palavra, a dança… A Euritmia é, pois, um precioso caminho nessa busca eterna de um “amálgama” do movimento corporal com manifestações artísticas e também com a palavra.

Seria pois nesse sentido rítmico – não expressivo, friso – que entendo o ato de correr como um “amálgama” com a agógica e a dinâmica, pois aceleração e relaxamento nas corridas têm lá suas intensidade “sonoras” ou de “ruídos” nitidamente comprovadas pelo estetoscópio que amplifica essas alterações dos batimentos cardíacos.

Creio ter respondido ao atento Reinaldo em tema que me fez refletir sobre aspectos tão importantes envolvendo o movimento como fulcro essencial para, basicamente, todas as áreas.

A corrida de Natal deste último dia 14 de Dezembro promovido pela Corpore reuniu milhares de atletas amadores. Aproveito o momento para desejar a todos os leitores que prestigiam meu blog um Natal pleno de paz e de confraternização.

Reflection on the correlation between body movements and artistic expressions, music in particular.